Por fim, chegou-lhe a sua vez.
O filho accusava a recepção dos retratos, mas dizia que não tinha gostado. A tia Anna entristeceu.
A carta proseguia no mesmo assumpto e terminava assim:
«Vão vocemecês a casa do meu correspondente, os srs. Nogueira & Sá, da rua das Flôres, e perguntem pelo meu amigo e socio Joaquim da Silva Ferreira, que lhes dará as instrucções precisas».
O André, depois de lêr, explicava sempre:
—Percebeu, tia Anna? Quer que vocemecê e o seu homem vão ao Porto, á rua das Flôres, a casa dos srs. (e recorria á carta), dos srs… Nogueira & Sá, e lá procurem o sr…, o sr… (recorria de novo ao papel) Joaquim Ferreira da Silva, que, pelos modos, vem a ser o socio do seu José. Percebeu?
—Percebi, percebi.
—Pois é o que teem a fazer; e adeusinho, até outra vez.
O rapaz restituiu a carta; e, como não havia mais ninguem por ali, saltou do muro, e voltou para a botica.
* * * * *
Na loja de ferragens da firma commercial Nogueira & Sá, estavam, havia cerca de uma hora, a tia Anna da Izabellinha e o marido á espera do socio do filho, que os mandára esperar ali.
Era meio-dia, quando o brazileiro entrou.
O patrão Nogueira apresentou-os ao recem-chegado. A tia Anna e o homem levantaram-se humildes, com os braços cahidos, conturbados d'acanhamento.
—Então são vocemecês os paes do meu socio, hein?
—Saiba v. s.^a que sim—responderam ambos em côro.
—Pois por muitos annos, e bons—disse-lhes o brazileiro.
Tirou da algibeira do collete branco um relogio d'oiro, viu as horas, e voltando-se para o Nogueira:
—São horas. Tem lá cima tudo preparado, hein?
—Está tudo prompto—respondeu o ferragista.
O Silva voltou-se para os lavradores, e disse-lhes:
—Subam lá cima com este senhor, que eu espero-os aqui. Não si démorem, hein?
A tia Anna seguida do homem subiram a uma sala do primeiro andar. Sobre um canapé de palhinha estava estendido um casaco preto, um par de calças, um par de botas e um chapéo alto de seda. Ao lado havia um vestido de seda preta com folhos, um chale de cachemira, uns sapatos de duraque, um chapéo de velludo carmezim com flores amarellas e plumas brancas.
Entrou na sala uma criada velha das manas do Nogueira, tomou nos braços o vestido de seda, o chapéo, o chale e os sapatos, e pediu á tia Anna que a seguisse ao gabinete proximo.
O caixeiro da loja ficou só com o lavrador. Disse-lhe que mudasse o fato d'aldeão que trajava e o substituisse por aquelle que via ali.
—Mas… oppoz timidamente o pobre do homem.
—Eu ajudo-o, eu ajudo-o. Ande depressa.
E, á pressa, atabalhoadamente, tirou-lhe a niza, o collete amarello e as calças de saragoça.
Quando o homem se sentou n'uma cadeira para enfiar o canno das botas, cahiam-lhe da testa bagas de suor copioso.
Estava afflicto, quasi apopletico, com o laço da gravata a apertar-lhe a garganta, como a corda d'um enforcado.
Aquelle casaco pesava-lhe nos hombros como uma armadura d'aço de D. João
II.
Abriu-se a porta do gabinete e appareceu a tia Anna vestida de senhora. Oh! Os pés estorciam-se-lhes nos sapatos, o chapéo cahia-lhe para a nuca! A criada vinha atraz, a passo, como aia que segue uma rainha; e, lançando um olhar e sorriso maliciosos ao caixeiro, dizia:
—Hein? Estão que nem dois fidalgos!
Marido e mulher empallideceram e tremeram quando se viram n'aquelles trajes. Despertou-lhes na consciencia o sentimento do ridiculo.
Entreolharam-se mudos, contrafeitos, e desceram ambos, com muito custo, amparados ao corrimão, os degraus da escada até á loja.
E a criada e o caixeiro, que os viam do patamar, abafavam com a mão na bôcca as gargalhadas da troça.
—Ai o diacho da velha—exclamava a creada a rir—que me parece mesmo um entrudo!
* * * * *
Entraram ambos na photographia Fritz, da rua do Almada.
O socio do filho explicou ao retratista como desejava o grupo.
Passaram ao atelier, muito desconfiados, a olharem-se de soslaio.
O homem bofava, a suar constantemente.
Foram colocados no fóco, um ao pé do outro, com uma meza de permeio, e por detraz com um reposteiro azul, que cahia em amplas dobras sobre o tapete. Quando o photographo assestou sobre elles a lente da machina, retirou de repente a cabeça de sob o panno de velludo preto que o cobria, e observou espantado:
—Então vocemecês estão a chorar?!
Enxugaram os olhos á pressa, e collocaram-se na mesma posição.
Á segunda tentativa, porém, as lagrimas e os soluços irromperam violentos; e o homem da tia Anna, afastando-se da meza, dirigiu-se ao socio do filho, e expoz-lhe, a chorar:
—Com'assim, meu senhor, nós não tiramos o retrato. E, enxugando as lagrimas ao canhão do casaco, continuou:
—Nada; escreva v. s.^a ao meu José, e diga-lhe que não senhor, que… não pode ser!… Se elle não quer mostrar á senhora o retrato que lhe mandamos, é o mesmo, que diga… que já não tem pae, nem mãe!
Aqui foi um soluçar afflictivo e um abanar convulsivo de cabeça, que deixou estarrecido o brazileiro.
A tia Anna concordava com o marido:
—Diga-lhe, meu senhor, que nós—dizia ella com voz tremula—que… morremos, sim que já morremos… ambos!
* * * * *
Na tarde d'esse mesmo dia, quando os ultimos raios do sol poente purpurisavam a cumiada das montanhas, e pelos respaldos dos outeiros vinham descendo as sombras esfumadas do crepusculo, voltavam ambos para a Izabellinha.
Sentavam-se repetidas vezes na orla do caminho, a fingir que a distancia os fatigava! Permaneciam silenciosos durante alguns minutos, um ao lado do outro, com os olhos esmorecidos e roxos de chorar.
Mas o homem, quando via rebentar as lagrimas nos olhos da mulher, fazia-se forte, continha a commoção, e dizia-lhe baixo, a sorrir contrafeito, acotovellando-a d'esguelha:
—Então, ó Anna! Ai! que já não tenho companheira para as romarias!
E era triste vêr então aquelles dois velhos seguirem para a sua aldeia, a pé, cabisbaixos, a suspirarem de quando em quando, com o coração retalhado pela mais cruel das decepções!
Era um dia de festa e de grande romaria.
Desde madrugada, que eu estava debruçado no muro do meu quintal, á sombra de uma acacia, onde trinava um rouxinol, para ver passar os romeiros, que se dirigiam, em bandos, para o arraial.
Antes de chegar ao adro, passava-se por dois arcos de murta com flôres, dos quaes pendiam bandeiras e galhardetes de côres garridas.
Ás onze horas da manhã ouvia-se o murmurinho surdo do ajuntamento no logar da romaria. Pela estrada já pouca gente passava; e a que ainda vinha á festa, caminhava de vagar, fatigada, rente dos muros das quintas, para se abrigar do calôr ardente e abafadiço de julho.
De repente, na curva que a estrada faz, junto do pinheiral, appareceu a carruagem da sr.^a viscondessa, que era, n'esse anno, a juiza da festa.
Os transeuntes paravam, encostados aos muros, e voltavam-se para ella, com os chapéos na mão, como se abrissem passagem respeitosa a uma rainha. A carruagem descoberta era tirada por duas egoas inglezas, que esbofavam com ruido, batendo as patas a compasso na areia fina e reluzente da estrada. O cocheiro vinha aprumado na almofada, com as pernas esticadas, e na mão direita levantada suspenso o pingalim. Dentro, reclinada no estofo escuro da carruagem, a sr.^a viscondessa sorria affavel para os lados, agitando levemente a cabeça. Uma marquezinha côr de perola abrigava-a do sol. No logar da frente ia o sr. abbade, um abbade ainda novo, muito escanhoado, vestido com batina lustrosa, cabeção de renda, barrete de setim levemente inclinado na corôa da cabeça. Levava as mãos crusadas sobre o ventre e os olhos fitos no vestido da viscondessa, um vestido verde-mar, com guarnições de renda, que se abria diante d'elle, como um leque.
Os romeiros, só depois da carruagem passar, é que continuavam o caminho, e, olhando entre si d'um lado e d'outro da estrada, sorriam gloriosos.
Quando a sr.^a viscondessa apeou á porta da egreja, estalou no ar uma girandola de foguetes; e eu, que não tencionava assistir á festa, acendi um charuto, e dirigi-me vagarosamente para o logar da egreja, antes que principiasse o sermão.
* * * * *
Estava a egreja armada com sanefas e cortinas de damasco escarlate, onde as luzes das tocheiras de prata do altar punham reflexos vermelhos.
Fóra da têa gradeada do altar-mór, via-se o povo, de pé, apinhado, com o olhar espantado e perdido na decoração ostentosa do templo. A pedra do altar-mór estava revestida com toalha franjada de rendas. Um tapete largo de variegadas côres cobria o estrado do altar, descia os tres degráos preso por varões de metal lustroso, e estendia-se na capella-mór até á grade. Tres padres velhos, avergados sob o peso das capas d'asperges com brocados d'oiro, estavam sentados ao lado, com os pés unidos e estendidos para a frente. Sentia-se um cheiro forte a incenso; e, no côro, soavam as ultimas notas plangentes das rabecas acompanhadas a orgão e rabecão.
A sr.^a viscondessa entrou apressada pela porta lateral, que dava para a sachristia, e ajoelhou-se em frente do altar, com a cabeça muito levantada e os olhos pregados na imagem do Christo crucificado em meio de luzes e ramos de flôres. Depois de rezar, com as mãos postas em supplica junto do seio, persignou-se lentamente e sentou-se.
N'esse instante, houve um rumôr vago entre os fieis, que enchiam o templo.
O prégador apparecêra no pulpito. O seu rosto oval de uma pallidez maviosa, fronte larga, barba escanhoada e azulada no queixo, destacava-se da alvura da sobrepeliz de cambraia bordada.
As suas mãos estreitas e brancas sahiam d'entre as rendas aniladas das mangas, que lhe chegavam até á raiz dos dedos.
O abbade olhou attentamente o auditorio, e ajoelhou. Ergueu-se depois, arrepanhou os canhões da sobrepeliz, ageitou a estola, expigarrou com tom solemne e passou á flôr dos labios o lenço, que depôs cuidadosamente ao lado. Em seguida, fincando a palma das mãos no parapeito do pulpito, adiantou o busto para a frente e principiou com voz debil:
/# —«Mulierem fortem quis inveniet? Proverb. 31». #/
Era o sermão de Santa Izabel, rainha e martyr. O prégador historiou a vida da santa, desde o tempo em que, menina e môça, nos seus palacios de Aragão, o seu principal divertimento era a oração e o exercicio da caridade. Desposada por el-rei de Portugal, D. Diniz, em breve as leviandades amorosas do esposo lhe amarguraram o coração trahido.
/#
—«Porque—exclamava o prégador, alçando o braço—quantas vezes o
manto de uma rainha esconde um coração attribulado!? Em meio da
ostentação d'um palacio, cercada de todas as magnificencias reaes,
filha e esposa de rei, como a grande rainha de Lacedemonia, quae
Regis filia, Regis uxor, a princeza santa não tinha o socego, o
descanço, a alegria da mulher humilde d'um mechanico!
Era rainha, Regis uxor, era poderosa, era rica; mas a principal
riqueza era a da sua alma.
O oiro copioso dos seus cofres não tinha o grande valôr do oiro
d'alto quilate do seu coração,—oiro de lei, purissimo, sem liga,
que se não gasta e consome com o uso, antes se acrysola e
engrandece com o exercicio das boas acções!»
#/
Algumas mulheres soluçavam commovidas; e a sr.^a viscondessa, que o ouvia com attenção, fechava os olhos em signal de concordancia, e acenava affirmativamente a cabeça.
Proseguia o sermão. O prégador falava da santa, quando acudia pressurosa aos infelizes. Referiu o milagre da transformação dos pães em flôres, sendo surprehendida pelo rei, quando ia esmolar aos pobresinhos!
Depois, adiantando parallelas as mãos, como se quizesse attrahir n'um braçado o auditorio estupefacto, dizia:
—«Vêde para que serve o oiro! Não vos julgueis desgraçados, se vos não assistem grandes riquezas! Não deixeis que a inveja se enrosque, como serpente ardilosa do inferno, em vossos corações».
E, apontando o indicador para o céo, proseguia com voz mais solemne:
—«É ahi que se vê a previdencia de Deus! Concedeu o oiro aos ricos, para que o distribuissem pelos pobres! Pedir não é humilhação nem vergonha! Deu-nos o exemplo Jesus, o Divino Mestre, que ensinou aos discipulos a pedir com humildade!
E que maior consolação—continuava o prégador—que maior consolação do que soccorrer com a esmola áquelles que a fortuna fez menos abastados!? Apagar a fome, saciar a sêde, vestir os nús, enxugar as lagrimas das viuvas, amparar a orphandade, dar arrimo á velhice!»
E exclamava:
—«Oh! santa caridade! Oh! flôr sacrosanta do altar de Deus! A caridade…»
E retrahindo-se no pulpito, arqueando os braços á frente, aproximando as mãos com as cabeças do indicador e polegar delicadamente unidas, recitava com voz untuosa, repassada de mimo:
Á noite a virgem modesta,
A casta filha de Deus,
Furta-se aos hymnos da festa,
E envolta em candidos véos,
Desce a escada sumptuosa,
Mãe dos maus, irmã dos bons,
Lá vai levar carinhosa
A toda a parte os seus dons.
Foi de um effeito surprehendente! O auditorio sentia calefrios: passava n'elle a corrente magnetica do enthusiasmo!
O prégador rematou em tom familiar, com voz mais baixa, aconselhando aos pobres, que seguissem o exemplo de Jesus, que andou a pedir pelo mundo; e aos ricos, que se amoldassem pela Rainha Santa, que distribuia pelos desgraçados as riquezas do seu palacio.
—«Amen.»
E sahiu do pulpito açodado, vermelho, anhelante, a enxugar com o lenço o suor copioso, que lhe corria da testa.
* * * * *
N'esse dia, jantou o sr. abbade com a sr.^a viscondessa. Quando eu cheguei, tinham-se já levantado da mesa, e estavam sentados no terraço, á sombra do toldo listrado.
Defronte da viscondessa, o abbade, refestelado n'uma larga cadeira de vime, sorvia o café a pequeninos goles.
Cumprimentei o prégador pelo sermão; e a sr.^a viscondessa, levantando enthusiasticamente a cabeça, confirmou do lado:
—Admiravel! admiravel! Diga-me, sr. Alberto—continuou ella, batendo-me familiarmente no joelho—não acha que o abbade recitou a poesia com mais mimo e mais sentimento do que a Emilia Adelaide, em D. Maria?
—Ah!—exclamei eu, espantado do confronto—sem duvida!
O escudeiro entrou com uma bandeja de prata para receber as chavenas.
Aproximou-se da sr.^a viscondessa, e disse-lhe a meia voz:
—Está lá baixo uma pobre, que pede uma esmola a v. ex.^a.
—Que impertinencia!—exclamou ella, carregando o sobrôlho com gesto d'enfado.—Pois dê-lhe lá uma esmola, Francisco.
O sr. abbade, que ia para beber o ultimo gole de café, ouvindo aquillo, suspendeu a chicara no ar, e accudiu do lado, com modo insinuante:
—Isso! Costume-os, sr.^a viscondessa—dizia elle, meneando pausadamente a cabeça—costume-os mal, e verá que lhe não largam a porta!
Bateram as tres badaladas do meio dia na torre de Santa Eufemia. Os rapasinhos, que frequentavam a aula regia do José Sabino, começaram a sahir, com as lousas pendentes do pescoço e os livros debaixo do braço. O mestre escola esteve um instante á porta, a recommendar-lhes, com tom de voz ameaçador:
—Ora olhae agora se ides direitos e quêdos para casa, se não…
E agitava na mão pennujenta o junco punidor.
Emquanto o olhar austero do mestre os alcançava, bem iam elles, todos muito direitos, dois a dois, de mãos dadas, como uma leva de degredados; mas, apenas o caminho voltava para a direita, e entre o mestre e os discipulos ficava uma sebe muito alta e espessa, que os abrigava, adeus! corria tudo em debandada, como abelhas que irrompem d'um cortiço!
Eu, então, gostava immenso de ver a pequenada assim, a correr, a saltar, a rir ás gargalhadas, escalando os muros, invadindo os campos, como uma horda de vandalos terriveis. Só me custava ver, no tempo defeso, quando elles trepavam pelos castanheiros, para ir lá cima roubar entre os ramos as ninhadas dos passarinhos.
Assim que chegava o mez do S. João aquella enorme figueira do passal apparecia toda carregada. E os ramos que ficavam eminentes sobre o cunhal do muro, até vergavam para fóra, para o lado do atalho, com o peso dos figos!
Era um fartote para os pequenos!
O mais dextro marinhava pelas fendas do muro, escachava-se n'um galho mais consistente da arvore, e de lá ia atirando para baixo os figos maduros, a que podia chegar.
E o bonito era ver o abbade, o bom velho do abbade, que desatava a rir muito satisfeito, quando a criada lhe referia indignada o assalto dos pequenos.
—Coitaditos!—dizia elle—Ó Anna, quem me cassára a mim no tempo em que eu fazia o mesmo ás macieiras do parocho da minha terra!
De uma vez que os surprehendi na figueira do passal, lembrei-me com saudade de um assalto que eu dei tambem—vae isso ha um bom par d'annos!—a uma cerejeira…
Eu conto a historia:
* * * * *
Já me pennujava o buço; e como tinha a vida menos canceirosa e o sangue na guelra, dei em frequentar os theatros e em lêr romances! Foi a minha perdição! Por um capricho da sorte, quasi todos os romances falavam de janotas que se perdiam de amor por actrizes. De uma vez até se me deparou um dialogo entre Alexandre Dumas e outro escriptor francez. Dizia assim:
—Parece incrivel, Alexandre, que em Pariz andem cincoenta rapazes doidos d'amor por actrizes.
—Parece incrivel—oppôz o Papá Dumas, que era peccadoraço vezeiro n'este particular—que haja cincoenta que o não estejam!
Vão lá dizer-nos que tudo aquillo é ficção!
A gente principia a lêr romances e tem logo vontade de realisar na vida o que elles nos referem. Todos queremos ser Antonys, Werthers, Camors, Armandos…
Nos bastidores do theatro Baquet levantei eu o altar para o sacrificio do meu coração. Principiei a entabolar relações com os actores comicos,—que a gente se persuade estão sempre a rir, e que, por via de regra, são os mais sorumbaticos cá por fóra,—depois com os tyrannos e os galãs. Era isto indispensavel a um noviço, que, mais tarde, tivesse de cahir apaixonado aos pés mimosos de qualquer actriz sentimental.
Eu então tinha gosto e geito para o namoro—diziam-me os amigos! E esta fama veio de me ouvirem improvisar um madrigal á mais gentil e talentosa actriz d'esse tempo.
Estava eu á porta do camarim do Dias, que tem um filho chamado Josué. Como durante o espectaculo a actriz não tivesse correspondido á impertinencia dos meus olhares frechados por um binoculo, quando ella passou, voltei-lhe as costas e não a cumprimentei. Vejam que despeito!
Chegou-se ella ao pequenito, acariciou-o, e disse-lhe, a sorrir:
—Tu não voltas a cara á gente, não Josué?
E fitou-me com ar insinuante.
—Este Josué—accudi eu, soprando uma espiral de fumo do charuto—parece-se agora com o Josué da Biblia.
—Porquê?—perguntou Dias.
—Faz parar o sol!
Explendido!
D'ahi por diante, uns sujeitos que hoje são mais felizes e mais tolos do que eu, vinham pedir-me phrases para elles improvisarem á passagem das requestadas.
Chegou de uma vez, em meado de abril, uma companhia de zarzuella.
Ás primeiras damas não falava eu. Qual! Essas, via-as eu passar pelo braço d'uns figurões de bigodes espessos e suissas grisalhas, cabellos lustrosos puxados para as temporas, com ares serios e graves de diplomatas.
Eu só conhecia as comparsas, as que faziam de soldados rasos na Marina, de nymphas no Joven Telemaco, de camponezas na Catalina, e que no Relampago dançavam o tango, vestidas d'encarnado, com os rostos farruscados a fingirem pretos!
D'entre ellas havia uma, a Consuelo, que era muito formosa, muito elegante, e que eu preferia ás outras. Ainda me parece que a vejo, quando ella passava no meio dos adoradôres, saracoteando os quadris, o peito ancho, o tronco descahido para traz, na cintura, e a cabeça levantada e oscillante, como a cabeça esbelta d'um cavallo andaluz. Tinha os olhos pretos, humidos e azougados, que é como o povo diz d'uns olhos que teem a sclerotica levemente azulada, os labios côr de cereja, um pescôço de garça, como o dos retratos da Marie Antoinette, e um pé tão pequenino, gracioso e arqueado, que inspirava desejos de lhe dizer com o nosso Padre Manoel Bernardes: «Dá-me limpeza grande nos meus labios para calçar teus pésinhos de mil osculos santos!»
Ás vezes, tinha momentos de uma tal melancolia, de tão profunda magua, que me deu vontade de lhe saber a causa. Encontrei-a uma noite de beneficio, sósinha, a cantar a meia voz esta seguidilha:
En un ameno bosque
Mi niña duerme,
Cuidado, pajarillos,
No se despierte.
Decid al viento
Que mientras ella duerme,
Que sople quedo.
E ficou depois muito triste, encostada á porta do camarim, com os olhos fitos no bico de gaz, que se abria trémulo como o leque febril d'uma hespanhola. Tanto indaguei e com tão sincera simpathia o motivo d'aquella tristeza, que cheguei a sabel-o um dia.
Coitadinha! Consuelo era filha d'uns saltimbancos. A mãe—que já tinha morrido—dançava na corda bamba, o pae fazia jogos malabares, prestidigitação, sabia lêr a buena-dicha e era um tenor excellente em barracões de feira. Uma irmãsita mais nova, a Conchita—oh! que linda!—essa dançava boleros e fandangos, no meio das praças publicas, sobre um tapete esfarrapado, ao som de um tambôr, que o pae rufava para attrahir a multidão.
A Consuelo, com as mãos fincadas nos quadris, a cabeça levantada, e a sorrir, cantava malagueñas, emquanto o pae agitava uma pandeireta byscaia com soalhas de latão!
Como era bonita não lhe faltavam galanteios e bravos.
—Alza—Olé! olé! gritavam os espectadores, batendo as palmas—Alza, Consuelo!
Logo depois que a mãe morreu, principiou a ir lá por casa, emquanto o saltimbanco estava na taberna, uma velha esqualida a induzir a Consuelo que fugisse ao pae e que fosse para uma companhia de zarzuella, que um emprezario rico ia organizar. Tanto a velha lhe prégou, e sempre com prendas, com ramos de violetas e Que guapa que és! Caramba! que serás feliz! que a pobre rapariga, uma fria manhã de nevoeiro, levantou-se da cama, foi, pé ante pé, beijar a Conchita, que ainda dormia, e fugiu!
Vejam que desgraça!
Afinal, de terra em terra, de desillusão em desillusão, sem um raio benefico de esperança, que lhe fulgurasse na negrura da sorte, veio a Consuelo parar a Portugal!
—Hoje—disse-me ella—não me contentava o oiro, nem as palmas, nem nada! Trocaria tudo, por vêr meu pae e a minha Conchita!
E a voz trémula embargou-se-lhe na garganta suffocada pelas lagrimas!
—Mas que canção é essa que a faz entristecer?—perguntei eu.
Era uma canção popular, com que a mãe da Consuelo embalava nos braços a
Conchita, quando era ainda muito pequenina:
En un ameno bosque
Mi niña duerme,
Cuidado, pajarillos,
No se despierte.
Antes tres dias de partir a companhia para Sevilha, eu e uns amígos offerecemos a Consuelo um jantar, no campo, debaixo d'uma ramada.
Era pelos ultimos dias de maio.
Tinhamos partido de madrugada, emquanto as gottas do orvalho tremeluziam nas encostas floridas, para fugirmos ao calôr intenso do meio-dia.
A verdura tenra dos prados ondulava serenamente á mercê da viração fresca da manhã.
Quando a estrada costeava o sopé d'uma colina, nós saltavamos da carruagem e seguiamos então a pé, cortando a eito pelos atalhos, atravessando por meio de campos de milho e de extensos trigaes, abrigados pela sombra das carvalheiras, onde chilreavam os pintasilgos e rouxinoes.
Ás portas dos curraes encontravamos ainda as vaccas sahindo pausadamente para o pascigo. Na residencia do sr. abbade via-se o muro do passal coberto de trepadeiras; e por baixo do peitoril d'uma janella, n'uma gaiola de canna pendurada na parede, assobiava um melro.
Consuelo ia encantada!
O ar fresco, puro e sadio do campo abria-lhe appetites selvagens e contraditorios.
Ás vezes desejava ser como o boi manso, que vae pastando tranquillamente, n'um bosque, á beira d'agua corredia; outras, então, queria antes ser como a pôtra que se avistava, ao longe, n'um extenso prado, correndo, com as crinas esparsas, aos pulos, sobre os giestaes floridos!
Ao passar pelos silvados, Consuelo colhia as amoras maduras, e comi-as com soffreguidão.
Ao cabo de um quarto de hora de caminhada, avistou Consuelo, no fundo d'uma ladeira, que descia para um pomar, uma cerejeira carregada de fructo.
—Cerejas!—exclamou ella.—Ai! eu quero cerejas!
Descemos todos ao pomar; e então eu, que era o mais aldeão, trepei pela arvore acima, até aos ramos mais altos.
Consuelo ficou em baixo para aparar as cerejas. Os primeiros dois pés que eu lhe lancei, collocou-os ella sobre o pavilhão dos ouvidos, como dois brincos. Ficavam-lhe como duas contas enormes de coral! Em seguida apanhou na ponta dos dedos a roda do vestido, á frente, e disse-me que atirasse para ali as cerejas que fosse colhendo.
—Lá vae, Consuelo!—gritava eu de cima!
—Venham—dizia ella.
E, fechando os olhos, retezava e repuxava o vestido para as aparar ali todas.
Já Consuelo tinha uma bôa regaçada, quando, de repente, ouvimos, ao longe, uma voz trémula, que cantava assim:
En un ameno bosque
Mi niña duerme;
Cuidado, pajarillos,
No se despierte.
Consuelo foi deixando, pouco a pouco e quasi insensivelmente, cahir o vestido, cahir as cerejas, cahir os braços; e ficou a olhar para mim, com a cabeça erguida, na immobilidade de uma estatua.
Eu, que estava nos ultimos galhos da arvore, em ponto eminente, ainda pude alcançar a estrada.
E vi, então, sahir d'uma taberna, que se abria, uma companhia de saltimbancos.
Ia atraz um velho, vestido de malha, com lentejoulas, que relusiam ao sol. Levava, pela mão, uma pequenita, com uma saia curta de cambraia muito suja e remendada. O saltimbanco caminhava devagar, com a cabeça descahida para o peito, os olhos no chão, a cantarolar:
/*
Cuidado, pajarillos,
No se despierte…
*/
Depois, quando desci os olhos para a Consuelo, que permanecia em baixo, como estarrecida, vi-lhe á flôr das palpebras duas lagrimas enormes, que tremiam, como duas gottas d'orvalho nas pétalas d'uma rosa!
Até a natureza se enfeita para festejar tambem o Natal do Deus-Menino!
Ao meio dia, quando o sol parece estacionar no zenith, como um viajante que pára no viso de uma montanha, para resfolegar da caminhada, estava o firmamento azul, de uma limpidez crystalina, tépido o ar, e d'entre as flôres silvestres dos prados e das encostas ascendia uma tenue vaporisação, como se a terra fosse um enorme thuribulo a incensar para o céo!
As vaccas descançavam nos curraes, os rebanhos nos redis; e, á sombra das arribanas, viam-se os carros com os cabeçalhos caídos, os arados com as rabiças por terra, e as cangas, os ensinhos, todo o utensilio da lavoura deposto a um canto, como armas valentes do trabalho nas feriadas e alegres horas do descanço.
As moças iam colher arregaçadas de violetas e rosas para inflorar o presépe. Nas cosinhas andava tudo n'uma roda viva! Tirava-se da arca a melhor toalha de linho, a melhor louça da copa, e punha-se na mesa que nem um palmito! Até o balaio do pão estava aberto e franco; porque não havia de haver pobresinho que fosse da porta sem a consoada!
E o presépe? Aquillo podia-se ver! Á frente, deitado sobre as palhas de um estabulo, via-se o Menino, de barriga para o ar, nusinho em pellote, a sorrir para Nossa Senhora, que o contemplava, de joelhos, com o radiante jubilo das mães. Da outra banda estava S. José com a enxó e o martello de carpinteiro postos ao lado. Mais atraz, uma vacca malhada fitava no Infante os seus grandes olhos redondos; e um jumento lanzudo, de orelha empinada, aproximava cubiçosamente o focinho, dilatando as ventas ao cheiro fresco da palha. Pelos atalhos da encosta, desciam á frente das bailadeiras, os pastores de Bethlem, um a soprar na gaita de folles, outro a rufar no tambor, outro a bater as castanholas. No cabeço do monte, appareciam já os tres reis magos, S. Balthazar, S. Belchior, que é o rei preto, e S. Gaspar; e todos elles cobertos de capas de arminho, com as corôas reluzentes, e montados em cavalos baios e russos, ajaezados de ouro e pedrarias. No cimo de tudo, entre nuvens, surgia uma pomba branca, de cujo bico côr de rosa se espargiam raios de luz celestial, que vinham aureolar o berço do Deus Menino! Era uma coisa rica!
Em volta do presépe, a pequenada cantava alegremente:
/*
Ó Infante suavissimo
Vinde, vinde já ao mundo…
*/
E interrompiam o cantico para correrem á porta a ouvir as raparigas da visinhança, que entoavam em côro:
/*
Vimos dar as boas festas
Á senhora morgada
E pedir-lhe que nos mande
Já a nossa consoada.
*/
Pois não? Lá entra aquella tropa fandanga na cosinha para ajudar a fazer os mexidos e a apurar as rabanadas com mel e vinho quente! Uma folia, que era mesmo um regalo ver!
Antes de se ir para a mesa, contaram-se os convivas; que não fosse chegar-se ao numero treze, e não houvesse mais alguem! Crédo! O numero treze é numero aziago! Estando treze pessoas ao jantar, no praso de um anno, tem de morrer uma. E deixem lá fallar quem falla, e quem diz que são historias! Até Alphonse Karr confessa que não gosta de jantar em mesa de treze pessoas!
—Tambem esse?—pergunta circumspectamente a sr.^a morgada, sem ter o gosto de o conhecer.
—Podéra, minha senhora!
—Então, vá vendo!
—Mas—atalha o sceptico—diz que não gosta de estar á mesa de treze pessoas, quando o jantar chega só para doze.
—Ah!—exclamou a companhia—olha o démo do homem!
Quando todos procuravam o seu logar respectivo, exclamou alguem:
—E o tio Simão?
—Ai! que falta o tio Simão!
E cada um se desculpava com o proximo.
—Esta gente traz a cabeça a juros!—exclama a senhora.
—Já viram? Ir-se jantar sem o velhinho!
—Quem chega aos açudes chamar pelo Simão?
—Vou eu.
—Eu vou.
—Eu tambem.
Afinal, vae tudo.
As raparigas ergueram-se todas de uma vez e deitaram a correr! Parecia mesmo uma revoada de pombas mansas, que ouvissem estoirar ali perto um tiro de espingarda! Fugiu tudo!
* * * * *
Morava o tio Simão da outra banda do rio. Tinha uma casita de telha vã, com o seu palminho de terra plantado de horta. Contava 75 annos, mas rijos, e tão rijos, que o deixavam ainda atravessar as poldras, todos os domingos, quando vinha jantar a casa da sr.^a morgada. Fôra elle casado, e tivera tres filhos; mas chamou Deus a si os tres filhos e a mulher, e deixou-o sósinho n'este mundo, a viver da caridade dos seus bemfeitores.
De uma vez que estava sentado ao sol, que—como diz o outro—é a roupa dos pobres, viu aproximar-se um cão amarello, pequeno, feio, rabudo, com duas malhas na cabeça. O Simão atirou-lhe pão; e, tanto que lhe foi dando de comer, conservou-se o cãosito junto d'elle. Depois já ninguem o retirava dos pés do seu bemfeitor.
Para quem vive sem companhia vejam lá que alegrão é encontrar junto de si um pequenino animal, que nos vê com olhos cheios de desinteressado carinho! Ficou o cãosito sendo o companheiro do tio Simão. Como viesse sem nome, que é como apparecem os engeitados, o tio Simão baptisou-o.
—Fiel!—exclamou elle—Fiel, anda aqui.
E aproximava-se o Fiel do velhinho, com a obediencia affectuosa de um filho amado. Para onde fosse o Simão ia o Fiel.
Assim que o sol lhe bateu no postigo—que era ao meio dia que tinha logar a visita—o Simão enfiou a jaqueta melhor que tinha, pegou no cajado a que se arrimava, chamou pelo Fiel, deu volta á chave e encaminhou-se para a residencia da morgada. Quando ia a poisar o pé na primeira pedra, viu o Fiel, que ia na frente, resvalar na pedra escorregadia, e cair ao rio!
O Simão recuou cheio de susto, de afflicção, com as mãos postas em supplica. O cão principiou a nadar para o seu dono; mas ia tão grossa a levada, que o não deixava vencer a corrente. Depois de muito esforço, conseguiu afinal abordar; mas todo alagado, a tremer, a ganir, com o corpinho coberto das contusões, que tinha recebido do embate das pedras.
—Anda, Fiel, anda, meu filho—dizia o pobre velho a chorar.
Tomou o cãosito nos braços, achegou-o do seio, e desandou para casa. No caminho ia dizendo:
—É o mesmo! Farei eu o caldito, que ha-de chegar para nós ambos!
* * * * *
As raparigas, que tinham saído da casa da sr.^a morgada, iam já perto do sinceiral do rio, e não tinham ainda visto o Simão. Desceram por uma vereda; e, quando chegaram á margem, gritaram algumas:
—Ó tio Simão! eh! tio Simão!
Ninguem lhe respondeu.
—Vamos topal-o em casa—propoz a mais expedita.
Arregaçaram as saias; e, pé aqui, pé ali, atravessaram cautelosamente para a outra banda.
Ao chegarem a casa do tio Simão, aldrabaram á porta; e a que bateu não ouvindo o ladrido do cão, exclamou para as companheiras:
—Querem vocês ver que o tio Simão já foi? O Fiel não dá signal!
Ao cabo de um instante, porém, appareceu o velhinho a abrir-lhes a porta. E Jesus! que gritaria! Fallavam todas a um tempo, e ninguem as entendia.
—Aposto que estava a ajanotar-se!—dizia uma.
—Ora, já viram? acudia outra. Como vae para o meio das moças, o tio
Simão enfeitou-se que nem um altar-mór!
—Hoje deita os rapazes todos a um canto! Olha, véstia nova, hein?!
E emquanto lhe diziam isto, uma ageitava-lhe a gola da jaqueta, outra laçava-lhe o lenço do pescoço!…
Quando conseguiu que ellas o ouvissem, o velhinho respondeu:
—Digam vocês á sr.^a morgada que hoje não vou lá.
—Como não vae, tio Simão? Dia de Natal e não ha-de ir? Isso tem lá logar!…
Elle então contou-lhes o que tinha havido.
—Ora, adeus. O Fiel o mais que tem é nada! É um mimalho, é o que elle é. Deixe que eu lá vou.
Entraram todas para ver o que tinha o Fiel. O cão estava deitado na enxerga do Simão, abafado com o cobertor da cama, a tremer.
Uma das raparigas tirou-o para fóra, enxugou-lhe o pello com geitoso carinho, embrulhou-o no avental e disse:
—Eu levo-o comigo, coitadinho!
Na lareira já cantava a panella, que estava sobre quatro achas accezas.
O tio Simão, que assistia a tudo aquillo com lagrimas nos olhos, disse:
—Deus vos pague no céo, minhas filhas, os beneficios que fazeis a este pobre velho.
Tornou a pegar no cajado, que tinha ao canto, e foi com as raparigas.
Como elle ia alegre, direito, valente no meio d'ellas!
Os visinhos diziam-lhe:
—Ó Simão, deram comtigo as moças, estás arranjado!
E elle fartava-se de rir como um perdido!
Outros, quando viram o Fiel no collo da moça, perguntaram com malicia:
—Ó menina, onde é o baptisado?
* * * * *
Ao cair da tarde, o velhinho voltou para casa. Vinha vermelho, e caminhava depressa, aprumado, como um rapaz. Como até vinha a cantarolar pelo caminho:
/*
Eu entro já na lapinha
Pois me não posso conter,
Porque a sua formosura
Me enche de gosto e prazer.
*/
Um visinho que o viu passar, disse comsigo:
—Hoje o Simão leva o seu grãosito na aza!
Á frente, o Fiel, ia seguindo pela estrada, voltando-se constantemente para traz, com medo de que o dono lhe fugisse, e se deixasse ficar com as raparigas!
E, então, o Fiel ia tão alegre, tão bom, tão esquecido do banho, que até já ladrava ás pernas dos transeuntes! Era um tiranno!
Quando entrei no cemiterio, lobriguei, ao fundo, por entre a rama de alguns cyprestes, que orlavam as ruas transversaes, o coveiro a levantar as ultimas pazadas de terra de uma valla.
O homem cantarolava assim:
/*
Menina, que está á janella,
A lançar goivos á rua…
*/
E, depois, agachado no cairel, media com o cabo da enxada a profundidade da cova, proseguindo alegremente:
/*
Se o coveiro aqui passa,
Vae pôr-lh'os na sepultura.
*/
Metteu a pá da enxada na leiva de terra, que lhe ficava ao lado, transpoz o comoro de outras sepulturas, e parou junto de um esquife pobre, de pau, sem fôrro, com os symbolos da morte pintados d'amarello.
Arrastou-o com esforço para a bôca da valla, escancarou as tampas; e, ao dar com o rosto do cadaver, exclamou de si para si:
—Ora espera! Eu conheço esta rapariga!
Entreabriu os labios com a unha do dedo polegar, concentrou-se um instante a meditar com os olhos fechados; e, por fim, continuou compadecido:
—Ah! És a Rosita do tecelão!
Á medida que retirava com geitosa piedade o cadaver do esquife, lamentava:
—Pobre rapariga! Eu logo vi que te não delatavas atraz da filha!
Depois, o resto foi rapido e breve.
Baldeou o cadaver ao fundo da cova, lançou-lhe por cima a terra que tinha levantado, recalcou bem com os pés juntos os ultimos torrões, e retirou-se para casa, com a enxada ao hombro!
* * * * *
Ahi vae lêr-se a historia d'essa mulher. A sua vida é a vida trivial de muitas desgraçadas.
Quando tinha apenas desoito annos, Rosa chorou as primeiras lagrimas do coração retalhado sobre o cadaver da mãe, que lhe expirou nos braços.
Ficava sósinha no mundo, a viver pobremente do seu trabalho honesto e incessante, sem uma voz consoladora que a alentasse a arrostar todas as adversidades, que a sorte lhe havia de deparar.
O grande perigo estava-lhe na peregrina formosura do rosto e na innocencia do coração, que é a formosura da alma.
Um dia o Benjamim tecelão, um rapaz alegre e bem parecido, que de ha muito lhe arrentava a porta, disse-lhe que a amava; e, para justificar a sua declaração, propoz-lhe com voz trémula a sua mão d'esposo. Mentiu-lhe.
Ao cabo de onze mezes, durante os quaes o tecelão ia inventando embargos á realisação da sua promessa, a pobre rapariga deu á luz uma filha. As primeiras alegrias da mãe deram tréguas ao sofrimento do coração ludibriado. A filha chamava-se Isabel, que era o nome da mãe de Rosa.
Depois, quando as lagrimas lhe rebentavam copiosas, Rosa tomava a creancinha nos braços, e um sorriso d'ella era-lhe um grato refrigerio para as amarguras da vida.
O operario entendeu que a filha era um vinculo mais apertado do que a estola d'um sacerdote. Propoz a vida em commum. Rosa accedeu de prompto, fiada em que o amor de pae talvez despertasse na consciencia de Benjamim a ideia do casamento, que a rehabilitasse.
O tecelão, vendo que o trabalho de Rosa bastava ás despezas da casa, deixou-se ficar uma semana sem ir á fabrica. Quando a ociosidade lhe era tediosa, ia procurar distracção na taberna mais proxima. Voltou de novo ao trabalho; mas o seu producto dispendia-o comsigo e com os amigos, ás mesas das tabernas e ás bancas do jogo, esquecendo-se de Rosa e da filha. Aconteceu Rosa adoecer da muita fadiga, e pedir algum dinheiro a Benjamim. Não teve elle coragem de lh'o negar; mas entregou-lh'o de um modo tão aspero, que offendeu o coração da desventurada mãe.
Foi ahi que principiou o calvario de Rosa!
Benjamim entrava em casa, por altas horas da noite, cambaleante e obsceno. Atirava quantos insultos lhe lembravam ao rosto da rapariga. Rosa amparava-o com brandura, soffria-lhe os escarneos com a mais santa resignação, auxiliava-o a deitar-se; e, depois, quando Benjamim, com os cabellos em desalinho, o rosto descórado, resomnava, prostrado com o peso da embriaguez, ella quedava-se a contemplal-o, com as faces cobertas de lagrimas.
O viço da sua formosura ia pouco a pouco desapparecendo. Já não tinha o mesmo brilho nos olhos, o mesmo setim na cutis, a mesma ondulação nos contornos do rosto. As lagrimas deixavam um vestigio indelevel da sua passagem, e Rosa envelhecia e esfeiava.
Benjamim, ao accordar do dia seguinte ao da embriaguez, sentia-se enfastiado da presença d'aquella velha, e sahia de casa sem lhe dirigir uma palavra de gratidão e carinho!
De uma vez—tinha Isabel sete annos—o tecelão chegou a casa n'um estado lastimoso. Dois amigos e consocios de taberna levaram-no nos braços, até á porta. Benjamim subiu a custo os degraus ingremes da escada; abriu de repellão a porta da sala, e appareceu hediondo, a tremer, com os olhos injectados, os labios convulsos, os cabellos empastados de um suor viscôso. Fez um esforço para se aproximar de Rosa. Estendeu os braços para se arrimar á parede; abriu as pernas para conservar o equilibrio; e, ao arriscar vacillante o primeiro passo, cahiu de bruços, com todo o peso do corpo, sobre o pavimento!
Isabel, que já dormia, acordou sobresaltada com o estrondo da quéda, e principiou a gritar de medo! Benjamim ergueu-se de golpe, dirigiu-se á enxerga, em que dormia a filha e espancou brutalmente a pobre creança, que emmudeceu de terror aos primeiros tratos. Accudiu Rosa, implorando com altos brados a Benjamim que perdoasse á filha; mas o bebado respondia ás supplicas da mãe com pancadas e empuxões.
Ao outro dia, a Isabel tinha o corpinho tão macerado, que mal se podia remover da cama. Rosa levantou-a carinhosamente nos braços, agasalhou-a n'umas saias de baeta, e, logo que o tecelão sahiu de casa, foi com a filha ao hospital da Misericordia. O facultativo, que observou a creança, viu, atravez das lagrimas da mãe, a causa d'aquellas contusões. A pequenita estava muito doente.
Ao terceiro dia, a filhinha chamou com voz debil pela mãe, pediu-lhe que se sentasse na enxerga, bem junto d'ella, encostou-lhe a sua loira cabecinha no regaço, e disse-lhe:
—O pae é muito mau! E a mãe chora tanto! Se eu morrer, hei de pedir a
Nossa Senhora que leve a mãe para junto de mim; quer?
Rosa não respondia, porque os soluços, que lhe estalavam o peito, lhe embargavam a voz.
A Isabelinha então, já com a vista turva, e a bocca entreaberta, lançou os braços ao pescoço da mãe, para a achegar mais de si, estremeceu da derradeira convulsão e… expirou!
Ao cabo de um mez, durante o qual o padecimento de Rosa fôra horrivel, o mesmo coveiro que enterrou a filha, abriu ao lado outra cova para receber a mãe.
* * * * *
O rosto d'aquella mulher, magro, livido, macerado, tinha a impressão indelevel das torturas por que passára. Não havia n'elle as contorsões da agonia dos delinquentes, que morrem convulsionados pelo terror de um castigo eterno. O derradeiro alento entreabriu-lhe nos labios um sorriso de bemaventurança!
É como ficam as creaturas, santificadas pelo martyrio, e que esperam na morte a hora do seu resgate!
E quem diria—pobre creança!—que tinhas apenas vinte e cinco annos, e que foste formosa, e que te julgaste feliz no dia em que poisaste pela vez primeira os labios convulsos de alegria na face côr de rosa de tua filha!?
E saber-se que o martyriologio é com certeza o unico elogio funebre de tantas desgraçadas como Rosa!
E Benjamim?
Benjamim, aquelle homem que seduziu impunemente uma mulher e que matou impunemente a filha, prosegue inflexivel na vida crapulosa, dominado pelo vicio da embriaguez, em que tem perdido, pouco a pouco, o vigor e a vida de todas as faculdades, a saude, a honra e a propria dignidade de um ser humano!
Resa a Folhinha que é a 26 de fevereiro o dia de S. Torquato—santo guerreiro, que recebeu na face esquerda um golpe d'alfange mahometano, em guerra de christandade;—mas a grande romaria tinha sempre logar ahi pelo meado de junho.
Fica a ermida situada em vasta esplanada, no alto de uma collina.
Logo ao romper d'alvorada, pelos atalhos da encosta vinha subindo a turba-multa dos romeiros foliões. Ha cinco annos, como estava um dia de muito sol e de grande calor, era bonito ver o rancho dos lavradores, que vinham abrigados debaixo dos enormes guarda-soes de paninho escarlate. Aquillo é por luxo! Olha quem! Elles que andam todo o santo dia do trabalho, no meio dos campos, a sachar, a lavrar, a podar, expostos á torreira, teem lá medo do calor! Pois assim que chega um dia de festa, fingem-se mimosos e abrem então os seus guarda-soes. Outros que são mais francos, nem sequer os abrem; qual! mettem-nos debaixo do braço assim como quem abrange um molho de varetas de baleia com paninho encarnado, e lá partem alegres para a romaria.
No logar do arraial havia arcos de buxo com flores, fluctuavam as bandeiras no topo dos mastros, estalavam no ar os foguetes de tres respostas; e, de quando em quando, para que a folia não arrefecesse nos animos, rebentava um morteiro, que atroava por todas aquellas serranias. Então, via-se uma revoada de passarinhos, que fugiam para longe, espavoridos pelo estrondo!
Por detraz da ermida ficava uma alameda, e era da alameda que se gosava um panorama delicioso.
Ainda me parece que estou a ver de aqui os excellentes campos de milho já maduro, as searas do trigo douradas do sol, e em alguns campos, como o trigo viera temporão, e já tinha havido a sega, apparecia apenas a resteva; dos ramos dos ulmeiros, pendiam as vides d'enforcado, e, àquem e além, em alguma herdade de proprietario abastado, destacava-se da ramaria escura dos castanhaes as folhas de um verde tenro e alegre das latadas. Ao fundo, pelo corrego abaixo, seguia uma levada que ia mover ali perto as rodas de uma azenha.
No arraial alvejavam as tendas de lona, onde se vendia o vinho verde e o savel frito. Era ali que estava a grande animação!
—Beba um quartilho, tio José—offerecia um freguez.
—Pois venha de lá.
E então a peixeira, com os braços arremangados e farruscados da fritura, servia um coparrão de vinho espumante.
—Vae outro?
—Nada—accudia o tio José, enxugando os beiços ás costas da mão—nada; eu quero beber, mas a modos. Se um homem lhe bebe de mais, como o outro que diz acaba por beber o juizo.
Como havia missa cantada e sermão, ouvia-se cá fóra a musica do côro e o canto arrastado e nazal dos padres. Os devotos entravam e saiam constantemente. De uma vez, á porta lateral da sachristia que deitava para o adro, appareceu o sachristão vestido de batina escarlate com sobrepeliz franjada de rendas, a agitar o thuribulo de prata para atear mais o fogo do incenso! Não faltava nada!
Em meio d'aquelle povileo houve um movimento extraordinario! Os romeiros que estavam ao longe a admirar os musicos do palanque, acudiram tambem a ver o que se passava! Havia apertões, recuadas, empuxões e gritaria. Formaram-se de repente duas alas de povo, para abrir uma passagem respeitosa; e, n'isto, a berlinda da senhora morgada, que era a juiza da festa, appareceu então, tirada por dois cavallos possantes, com criados de libré, chapeus de tope e agaloados, rodando vagarosamente em direcção á porta da capella. N'esse momento solemne subiu ao ar uma girandola triumphante!
* * * * *
Quem nunca faltava á romaria de S. Torquato era a tia Custodia da Moita, que lá ia sempre com o homem e o netinho. Ninguem havia por aquelles arredores mais estimado e bemquisto. A sympathia que elles inspiravam vinha de serem muito amigos do proximo, tementes a Deus e ao mesmo tempo serem muito felizes!
Ora façam uma idéa do que elles soffreriam! Tinham tido uma unica filha, bonita moça, amiga dos paes; mas como era muito amoravel e não podesse ouvir chorar ninguem que não acudisse logo a consolar, deixou-se levar pelas lamurias d'um fidalgote de Braga e…
A innocencia, a bem dizer, se não é de todo cega, trata o amor de lhe vendar os olhos!
No fidalgo—são baldas certas!—ao cabo de um mez de apaixonados amorios, nunca mais ninguem lhe tornou a pôr a vista em cima. A desgraçada rapariga não teve mão em si, e confessou tudo á mãe. A velhinha chorava, que era uma dôr de coração ouvil-a.
—Vocemecê anda doente?—perguntavam-lhe as visinhas.
—Não ando lá muito boa, não.
—Vá ter com o cirurgião, tia Custodia.
—A doença que eu tenho, filha—oppunha ella—são paixões d'alma, e não se curam na botica!
Decorridos alguns mezes, a rapariga expirou, depois de ter deixado no collo da mãe uma creança recem-nascida.
Ora vejam! Desgraças que acontecem!
Vae para tres annos que o mez de Dezembro foi para este pobre paiz um mez de calamidades! Ainda toda a gente se recorda com magoa d'aqueles dias e noites tempestuosas, em que a chuva caia copiosa e torrencial, levantando os rios do seu leito, alagando os campos e destruindo as sementeiras! Na manhã seguinte a uma d'essas noites terriveis, doia o coração a quem fosse pelas aldeias e visse tantos estragos do temporal. Uns riachos, que no verão parecem uma fita d'agua, que serve apenas de bebedouro ao gado, tomaram taes proporções, era tão forte a sua corrente, que levavam adiante de si as rodas dos moinhos, os telheiros, as arvores, o gado, tudo! Era uma desolação completa! Á porta dos curraes ficavam os pastores toda a noite de guarda com receio de que as enxurradas lhes levassem os bois e os rebanhos. De dia, encontravam-se os lavradores á entrada dos campos, a contemplarem pesarosos tamanhas ruinas; e alguns, com os braços cruzados, meneando tristemente a cabeça, exclamavam, abatidos pelo infortunio:
—Ora ahi está tanto trabalho perdido!…
Depois da chuva e das trovoadas vinham então as lufadas asperrimas do norte. Parecia mesmo que era castigo! A ventania varejava impetuosamente nos ramos nús do arvoredo; e, se algum sobreiro mais valente, que se tinha arreigado mais á terra, tentava resistir, soprava de rijo um pé de vento, arrancava-o, como se lhe mettesse pela raiz uma pá de ferro e… derribava-o! Imagine-se o que succederia ás arvores mais tenras!
A tia Custodia da Moita trazia arrendada a quinta d'um proprietario do Porto. Assim que chegava o mez das colheitas, a Custodia ou o marido vestiam-se com o fato domingueiro e iam á cidade pagar a renda. E que se não dilatassem muito tempo: quando não, era logo uma carta do senhorio ameaçando-os de os pôr fóra. Morava elle na Reboleira, uma casa de apparencia ordinaria, com uma escada muito ingreme, suja e pouco allumiada. Os caseiros encontravam-o sempre a passeiar ao longo da sala, que deitava para o rio, com as mãos enfiadas nos bolsos d'um casacão de saragoça já velho e remendado. Até a Custodia dizia ás visinhas:
—Tão rico, o sr. Torres, e anda que nem um pobre de pedir!
O Torres era um celibatario, egoista, magro, esguio, nariz adunco, olhos pequeninos e vivos como os de uma ave de rapina!
Depois da invernia, a primeira vez que se chegou o mez da renda é que era vêr o Torres!
Entrou a tia Custodia, levando o netinho pela mão. Expoz ao senhorio a sua desgraça, pedindo-lhe que por essa vez lhe perdoasse ou diminuisse a renda.
—Adeus, minhas encommendas!—exclamava o avarento—De cantigas não como eu! Se vocemecê não quizer, não falta por lá quem me amanhe as terras.
Para encurtar razões, a pobre mulhersinha saccou da algibeira um embrulho, e entregou-o ao Torres. Eram dois pares de arrecadas e um grilhão de ouro.
—Só o cordão, meu senhor,—dizia a caseira—tem quatro moedas!
O Torres observou o ouro, sopesou-o na mão; e, fechando-o n'uma gaveta, disse:
—Pois bem! Quando me trouxer a renda, levará o penhor. Adeus! até ao verão.
Depois que a Custodia saiu, um visinho tendeiro dizia contristado:
—A pobre de Christo até ia a chorar; e o rapazinho de vêr chorar a avó, chorava tambem! Aquelle Torres, diabos o carreguem, é assim…
E mostrava a mão fechada, explicando:
—Um unhas de fome!
* * * * *
No anno seguinte não appareceu na romaria de S. Torquato a tia Custodia da Moita. Coitada! Como não queria confessar ao marido que tinha empenhado as arrecadas e o grilhão, fingiu-se doente, e não houve forças humanas que a tirassem de casa sem o seu ouro.
—Não que o seu homem—pensava a tia Custodia—se tal soubesse, e Jesus! era capaz de ir ter com o senhorio e fazer alguma desordem.
—O meu Joaquim?—accrescentava ella.—Boa! Tem sessenta e cinco annos; mas aquillo para armar uma bulha parece um rapaz!…
* * * * *
Post-scriptum.
Agora veja-se o bom e o bonito!
Ha poucos mezes os jornaes do Porto prantearam a morte do sr. Torres, capitalista abastado, philantropo e respeitado por todos os conhecidos.
Esqueceu a confirmação das victimas, a quem elle emprestava a 28 por cento!
Oh! mas era boa pessoa e caritativa, que até deixou o retrato á ordem do
Terço e duzentos mil reis para missas de doze vintens pela sua alma!…