VI
D. AFFONSO HENRIQUES

Affonso Henriques tinha quatorze annos, quando no domingo de Pentecostes do anno de 1125 se armou cavalleiro na cathedral de Samora, terra que pertencia então ao reino de Portugal por cessão da rainha D. Urraca.

O modo pelo qual esta cerimonia fôra disposta, indicava de sobejo as intenções do principe, mesmo no caso em que este acto se não pudesse julgar senão imitação exacta do que, em dia igual do anno anterior, praticára em Compostella seu primo Affonso VII.

As armas com que devia armar-se o joven filho do conde Henrique tinham sido collocadas sobre o altar de S. Salvador na cathedral de Samora. Antes que começasse a festa do Espirito Santo, o moço Affonso Henriques entrou na igreja, caminhou para o altar, tomou as armas, e cingiu-as elle proprio para não conceder a pessoa alguma a supremacia de lhe ter conferido o grau de cavalleiro.

Dos velhos guerreiros de seu pae havia muitos que mereciam esta honra. Seguido d'elles entrou no templo convidando-os a assistir áquelle acto solemne, e a serem testemunhas da firmeza do principe, destinado a commanda-los; porém mostrou-lhes desde logo a energica vontade de não depender senão de si proprio.

Esta solemnidade foi um preparativo para acabar com a influencia do conde de Trava. Com effeito tres annos depois de armado cavalleiro, Affonso Henriques declarou guerra a sua mãe, ajudado do arcebispo D. Paio e de seus irmãos, de Mendes Ermigio, de Garcia Soares e de Sancho Nunes que depois foi seu cunhado, e primeiro senhor de Barboza.

D. Tareja quiz resistir. Alguns portuguezes seguiram o seu partido; porém a maior parte das suas forças eram gallegos da parcialidade e dependencia do conde de Trava, fracos defensores contra o principio da nacionalidade e da independencia de que o jovem principe se declarára campeão. Os partidarios de D. Tareja foram derrotados no campo de S. Mamede perto de Guimarães, e a viuva do conde Henrique caíu prisioneira em poder do filho.

A nacionalidade portugueza era já então tão vigorosamente distincta que os gallegos do exercito de D. Tareja eram chamados nas chronicas contemporaneas indignos estrangeiros, apesar de que a identidade de linguagem, de costumes, de religião e de raça entre os habitantes de Galliza e os de Entre Douro e Minho, devesse contribuir para que portuguezes e gallegos se reputassem mutuamente irmãos. Esta notavel antipathia, inexplicavel á primeira vista, era um dos mais importantes resultados da politica do conde Henrique e de D. Tareja.

Mas a independencia de Portugal não estava segura; nem proclamada sequer. O rei de Leão era moço, poderoso e valente. Affonso Henriques nem titulo tinha para designar o poder que de facto exercia. Conde não queria elle chamar-se. Infante era um titulo commum aos filhos de estirpe real, e posto que Portugal se intitulasse reino, o nome de rei não o podia o principe tomar impunemente em face de um contendor como Affonso VII.

Dizem os historiadores que D. Affonso Henriques era agil nos exercicios do corpo, dextro no manejo das armas, bom cavalleiro, bem apessoado de corpo e de gentil presença, intelligente, discreto, e dotado de singular eloquencia. Eram grandes estas qualidades, mas os deveres que o principe tinha a cumprir, careciam do concurso efficaz de todas ellas.

A independencia de Portugal, preparada de tão longa mão pela tenacidade e astucia dos paes de Affonso Henriques, havia de trazer comsigo guerras amiudadas com o rei de Leão, e os arabes não eram menos temiveis no sul do reino. Poucos mancebos tiveram aos dezesete annos tão pesados encargos sobre os hombros!

Affonso Henriques não esperou que o atacassem. Impetuoso, como o pedia a sua idade, e a indole de uma nação tão moça como elle, entrou por Galliza em 1130, e começou a guerra contra os leonezes, talvez para recuperar os territorios que ali possuíra sua mãe.

N'esta entrada ninguem lhe resistiu, porém voltando a Galliza foi derrotado por Fernando Peres e Rodrigo Vela. Affonso Henriques não desanimou com o desastre, e pela terceira vez levou a guerra ao paiz visinho: Affonso VII veiu em pessoa com um exercito numeroso obstar ás correrias do primo, e tomou Celmes que os portuguezes tinham fortificado. Ali acabou esta campanha no anno de 1134.

Affonso VII estava então no maior auge do poder. A fortuna era-lhe propicia em toda a Hespanha. Affonso de Aragão seu padrasto já não existia; o conde de Barcelona, e o rei de Navarra reconheciam a suzerania de Leão; a Castella era sua igualmente; o emir de Roda submettêra-se espontaneamente.

Alem dos Pyreneos os condes de Tolosa e outros senhores prezavam-se de serem vassallos de D. Affonso. Só uma pequena provincia cercada do lado do meio dia pelos arabes, recusava aceitar de bom grado a preponderancia leoneza, e um moço de dezesete annos, chefe d'essa provincia, ousava entrar de mão armada pelas terras de tão vasta e poderosa monarchia!

Este nobre exemplo de coragem mostra bem quanto póde a energia de alma, e a força de vontade, ainda em combate contra forças muito superiores. Nenhum povo teve mais numerosas occasiões de confirmar esta verdade, e nenhum outro as aproveitou com mais efficacia do que o nosso.

Para defender os proprios lares até as creanças são valentes, e tão forte é cada qual em sua casa para o arrancarem d'ella depois de morto, dizia o marquez de Pombal a um embaixador de Hespanha, são necessarios quatro homens3.

Affonso VII reuniu côrtes em Leão no anno de 1135 e n'ellas foi proclamado imperador. O moço Affonso Henriques, em vez de ir prestar homenagem ao poder do primo tratou de alliar-se com D. Garcia rei de Navarra, e accordou-se com alguns fidalgos de Castella, ambiciosos ou descontentes de D. Affonso VII. Firmadas estas allianças, principiou de novo a guerra com assignaladas victorias.

Os arabes entretanto tomaram Leiria; porém Affonso Henriques correu a reconquistar aquella cidade, e em pouco tempo voltou a continuar a guerra em Galliza onde o imperador viera em pessoa, como quem sabia que homem era o principe portuguez, e quanto valiam os cavalleiros e homens de armas, que o seguiam.

Os dois principes avistaram-se em Tuy no dia 4 de julho de 1137, e ali fizeram pazes, talvez porque as correrias dos arabes no sul traziam inquieto o animo de D. Affonso Henriques, cuja actividade se voltou então para a guerra contra os infieis, indo ataca-los no territorio alem do Tejo.

N'esta paz de Tuy o filho de D. Tareja reconheceu a supremacia feudal do rei de Leão, acto cujos effeitos na ordem politica do reino portuguez não foram importantes. Cento e cincoenta portuguezes assignaram com D. Affonso Henriques este preito e homenagem ao imperador.

A guerra contra os arabes foi favoravel ao filho do conde D. Henrique, e da victoria alcançada em Ourique no dia 25 de julho de 1139 chegou a noticia ao nosso tempo, acrescentada com exagerações e milagres. A imaginação patriotica e religiosa de alguns historiadores quiz dar assim maior relevo a esse feito de armas.

Singular erro de gente sizuda e zelosa pelo bem da sua patria! De que serve alterar a historia, e inventar apparições e milagres, quando se trata de referir acções para as quaes é sufficiente o esforço humano?

Justo é que todos creiam na protecção divina, sem a qual não ha verdadeira prosperidade sobre a terra; mas não cuidemos por isso que a força do nosso braço é inutil, que a nossa energia moral é nulla, e que Deus ha de intervir directa e pessoalmente nos negocios mundanos a regular os interesses dos conquistadores, das dynastias e dos povos.

Confiemos no poder de Deus e no triumpho da justiça e da verdade; porém não abusemos do nome da divindade, embora seja para excitar sentimentos virtuosos e dignos. As pias fraudes não fortificam o sentimento religioso, antes o abalam e destroem.

Da guerra contra os infieis voltou em breve Affonso Henriques á antiga pendencia com os leonezes, commandados outra vez em pessoa pelo imperador. O chefe de um dos corpos do exercito de Affonso VII, depois de ver derrotados os que o seguiam, caíu prisioneiro dos portuguezes, e a final o grosso dos dois exercitos avistou-se perto de Val de Vez. Ali na planicie que separava os portuguezes e os leonezes havia todos os dias combates parciaes, e em um d'esses Affonso Furtado, irmão natural do imperador, e outros fidalgos foram vencidos e prisioneiros.

Emquanto estes successos se passavam, o arcebispo de Braga negociava as pazes entre os dois primos co-irmãos, dos quaes nenhum ousava arriscar a fortuna da sua causa em uma batalha decisiva. D'esta vez ou porque a infelicidade de Affonso Furtado commovesse o imperador ou por outras causas politicas de maior alcance, foi Affonso VII quem solicitou a intervenção do arcebispo portuguez, que a final conseguiu trazer a termos de concordia os dois netos de Affonso VI.

Affonso Henriques dizia-se então infante, mas desde 1113 intitulava-se tambem principe dos portuguezes. Esta denominação de principe do povo em vez de principe do territorio, já usada por D. Tareja e renovada nos nossos tempos em França para designar aquelles que por eleição popular e não por direito hereditario incontestavel sobem ao throno, foi talvez n'aquella epocha um meio de satisfazer os desejos de independencia dos portuguezes, sem contestar absolutamente o direito soberano da corôa de Leão. Na terra para a qual a energia nacional ganhára o titulo de reino, o nome de principe dos portuguezes era de indubitavel legitimidade.

Depois da paz de Val de Vez o filho de D. Tareja aceitou o titulo de rei, e começou a usar d'esta designação, e quando em 1143 os dois primos renovaram e confirmaram em Samora os ajustes de Val de Vez, Affonso VII reconheceu a realeza de Affonso I de Portugal.

Este reconhecimento não era absoluto. Affonso VII, como imperador de toda a Hespanha, não lhe importava que o chefe dos portuguezes se chamasse rei, comtanto que se confessasse seu vassallo. É de crer que este ponto delicado fosse discutido nas conferencias de Samora, e que os mediadores andassem buscando um meio de conciliar os caracteres altivos e duros dos dois soberanos.

O certo é que Affonso I de Portugal recebeu do primo a investidura da cidade de Astorga, e pôde assim dizer-se vassallo do rei de Leão sem comprometter a independencia e a liberdade do novo reino, nem ferir a susceptibilidade dos portuguezes. O rei de Portugal ficou livre quanto o podia ficar perante o imperador das Hespanhas; o senhor de Astorga, esse reconheceu por soberano quem lhe dera aquella possessão.

Affonso I conhecia o primo, e sabia que taes pazes, fundadas em arbitrios mais subtis que positivos, não podiam ser duradouras. A sua clara intelligencia, e o conhecimento dos negocios da sua epocha, ensinavam-lhe que só havia um poder que os reis e os povos respeitavam, e que nenhuma instituição era estavel sem a protecção e benção d'esse poder supremo. Tratou pois de assegurar por meio da crença religiosa a realeza de que fôra recentemente investido.

Fez n'esse mesmo anno homenagem do reino ao pontifice nas mãos do cardeal Guido, e prometteu pagar á santa sé de Roma quatro onças de oiro cada anno, dar cem aureos por uma só vez, e reconhecer-se vassallo de S. Pedro e do papa; sujeição nominal bem mais commoda do que o preito ao imperador.

Pela sua parte o pontifice devia obrigar-se a ajudar o rei portuguez em tudo quanto podesse interessar o reino, e a não reconhecer em Portugal nenhuma supremacia secular ou ecclesiastica que não fosse a de Roma. A dadiva de mil morabitinos completava as vantagens offerecidas por D. Affonso I á Santa Sé.

Esta proposta era dirigida ao papa Innocencio II, porém foi Lucio II quem respondeu ao rei de Portugal nos principios de maio de 1144. A resposta não era facil, porque o summo pontifice não podia resolver este negocio, sem renunciar á suzerania de um reino ou á amizade de um dos soberanos mais poderosos do mundo.

Lucio II soube conciliar estas difficuldades aceitando todas as propostas de D. Affonso, mas não lhe dando senão o titulo de duque de Portugal. A independencia do solo portuguez ficava assim reconhecida pelo pontifice; e o reino acceito como feudo da Santa Sé, embora o papa evitasse dar-lhe esse nome. A confirmação do titulo de rei na pessoa de Affonso I não podia tardar muito, até porque o proprio Affonso VII reconhecêra em Samora a legitimidade d'essa designação.

As consequencias d'estes actos começaram a manifestar-se logo. Todos os principes e fidalgos da peninsula hespanhola acompanharam Affonso VI á conquista de Almeria. D. Affonso I de Portugal não foi, e conjectura-se que essa ausencia do principe portuguez em um feito de armas contra os infieis, não tivera outra causa que não fosse o desejo de oppor ás requisições do primo a nova situação independente, em que o feudo á Santa Sé collocára os portuguezes e o seu rei.

Affonso I aceitou de bom grado o arbitrio de Roma, contente de conseguir o cumprimento da missão legada por seus paes, embora tivesse de caminhar como elles passo a passo, e por veredas tortuosas, que todavia levavam ao ponto a que desejava chegar.

Finalmente no anno de 1179 o pontifice Alexandre III confirmou clara e abertamente o titulo de rei na pessoa do valente filho do conde D. Henrique, mediante o pagamento annual de dois marcos de oiro em substituição das quatro onças do mesmo metal, anteriormente promettidas a Innocencio II.

Assim se cumpriu, sessenta annos depois da morte de conde D. Henrique, a laboriosa empreza de fundar a independencia de Portugal e de dar a esta terra uma dynastia propria, e representada por um principe nascido entre o Minho e o Douro, creado entre os portuguezes, e experimentado nas lides da guerra, já combatendo pela liberdade dos seus contra os leonezes, já varrendo do solo nacional as phalanges dos arabes.

A investidura religiosa da dignidade de rei, foi a ultima recompensa dos trabalhos e perseverança de D. Affonso em executar a idéa do conde D. Henrique e de D. Tareja, e em satisfazer as gloriosas ambições dos portuguezes. Seis annos depois falleceu em Coimbra, aos 6 de dezembro de 1185, tendo governado quarenta e cinco annos como rei, e doze como principe e infante.

Deixou numerosa posteridade da rainha Mafalda sua mulher, filha de Amadeu II, conde de Mauriana e de Saboia, chefe d'aquella grande familia de heroes, cuja gloria a Europa inteira respeita ainda hoje em Victor Manuel II, valente rei da Sardenha, e libertador da Italia.

A narração dos feitos de D. Affonso Henriques não pertence a este livro senão na parte que respeita á fundação da monarchia. A conquista de Lisboa, de Santarem, de Leiria e de outras terras importantes, a fundação dos mosteiros de Alcobaça, de Tarouca, de Santa Cruz de Coimbra e de S. Vicente de Fóra, a edificação da cathedral de Lisboa, e o desastre de Badajoz em que Affonso Henriques ficou prisioneiro do rei leonez, terão o seu devido logar em outro livro d'esta collecção, assim como todos os acontecimentos importantes do seu reinado.

Depois de tantos seculos, o nome de D. Affonso Henriques é ainda pronunciado com respeito pelo povo portuguez, reconhecido á memoria do soberano que, a despeito de adversarios tão poderosos, fundou a independencia de Portugal. «Sem a menor sombra de vaidade nacional, diz o sr. Alexandre Herculano, parece-nos ser licito dizer, que o esforço e constancia dos portuguezes e do seu principe n'esta conjunctura é um dos mais bellos exemplos d'aquella energia moral, de que tão rica era a idade media, e a troco da qual a Europa moderna tem ido comprando a brandura do trato entre os homens, e os commodos da civilisação4.

VII
A MONARCHIA

A historia da fundação da monarchia portugueza está concluida. D. Affonso VII reconheceu a qualidade real na pessoa do primo. O papa Lucio II aceitou o feudo da terra portugueza para a Santa Sé, e Alexandre III sagrou a realeza de D. Affonso Henriques em nome de Deus, de cujo poder os jurisconsultos e theologos derivavam então directamente toda a especie de auctoridade.

Esta empreza de separar da monarchia de Leão e de Castella o novo reino de Portugal póde dizer-se, que foi um dos feitos mais extraordinarios do seculo XII, não só em relação ao poder e esforço dos dois imperadores que successivamente occuparam o throno hespanhol, mas principalmente pelo modo com que se houve em tão delicado assumpto o conde D. Henrique, e depois d'elle a sua energica viuva, e seu corajoso filho.

A rapidez com que em menos de meio seculo surgiu a nacionalidade portugueza, dotada de attributos e qualidades que logo separaram, e distinguiram os portuguezes dos gallegos e dos leonezes, a dexteridade com que a viuva e o filho do conde borgonhez souberam vencer todos os obstaculos, e fazer com que insensivelmente fossem legitimadas pelos proprios adversarios as pretensões mais contrarias aos direitos da corôa de Leão, e finalmente a coragem com que lutaram nos campos de batalha contra a rainha D. Urraca e contra seu filho, são na verdade admiraveis, mesmo attribuindo ás discordias de Affonso de Aragão e de sua mulher a facilidade venturosa, com que tão ousados commettimentos se executaram!

Todavia a malicia de D. Henrique, a flexibilidade astuciosa e a energia de D. Tareja, e o animo ousado de D. Affonso Henriques valeriam pouco--já o dissemos--se n'aquellas lutas entre os soberanos christãos de Hespanha, os portuguezes se decidissem parte em favor de uns, e parte em favor de outros.

Felizmente o desejo da independencia nacional não só abafou qualquer outro sentimento de parcialidade, mas até resistiu aos rogos, convites e promessas, com que de certo amiudadas vezes tentaria a rainha D. Urraca, seu segundo marido rei de Aragão ou o principe Affonso Raymundes de Galliza, attrahir á sua causa os barões e prelados portuguezes, senão o proprio povo.

Não queremos diminuir de modo algum a gloria dos principes, em cujo nome se lançaram as bases da independencia de Portugal. Oxalá que podessemos honrar sempre a memoria de todos os principes, como nos é grato faze-lo ácerca dos fundadores da nossa nacionalidade! Ganharia com isso o principio monarchico a que temos affeição. Mas n'este caso fôra injustiça negar que, sem a constancia e lealdade dos portuguezes, a causa da nossa liberdade não chegaria a obter tão assinalado triumpho.

Os nossos progenitores quizeram que esta terra fosse independente do rei de Leão, e perseveraram n'esse pensamento apesar de grandes contrariedades e revezes. Seguiram o conde D. Henrique no começo d'esta nobre tentativa, e foram sempre dedicados e leaes áquelle principe, á sua mulher, e a seu filho.

A rudeza dos tempos, o desenvolvimento das paixões, e a barbaridade dos costumes, tornavam então raros estes exemplos que hoje poderiam ser resultado de simples bom senso, quando o não fossem de grandes virtudes politicas.

Os barões portuguezes do duodecimo seculo não eram melhores do que os demais senhores christãos de Hespanha ou dos outros paizes, mas nas discordias civis, com que frequentes vezes ensanguentaram a terra portugueza, o principio da independencia nacional nunca deixou de ser acatado por todas as parcialidades.

Esse era então o alvo das cogitações geraes, o enlevo de todos os animos, e o incentivo dos feitos mais generosos. Honra a esses nobres senhores pelo que praticaram em beneficio da patria, e pelo virtuoso exemplo que deram!

Os prelados portuguezes tambem contribuiram para amparar a nossa nacionalidade nascente, e para facilitar a realisação da independencia nacional. Pelas mãos d'elles desceram sobre o primeiro rei portuguez as bençãos do ceo; e a mediação dos prelados, evitando combates sanguinolentos, e concertando pazes entre os belligerantes, desviou grandes males, e fez ao novo reino assignalados serviços.

O povo esse deu vida e fazenda, como dá sempre generosamente para sustentar as causas que tem por nacionaes. Na fronteira do norte combateu contra leonezes e gallegos; no sul pelejou contra os arabes, e ás vezes no regresso á sua pobre casa já a não encontrou, que lh'a tinham destruido os inimigos com alguma das continuas correrias, em que levavam a ferro e fogo as povoações pacificas e inermes.

Outras vezes, onde cuidava refazer-se das fadigas e gastos da guerra, teve que abandonar o pouco, que lhe restára, á cubiçosa exigencia do senhor feudal. E assim mesmo nunca descreu da possibilidade da independencia, nem faltou ao principe com o auxilio do seu braço!

Em todos os tempos, e em todas as circumstancias o povo portuguez foi sempre o mesmo! Nunca este bom povo attentou na quantidade dos adversarios, nem hesitou perante o poder d'elles! Era modelo de virtudes civicas ha sete seculos. Ainda hoje o é. Indomavel na guerra, era na paz de condição branda e submissa, de direcção facil, e de fidelidade heroica em ambos os casos. É o mesmo agora.

A nossa independencia foi obra da cooperação unanime de todos os portuguezes. Felicitemo-nos d'esta admiravel concordia, e reconheçamos no começo da nossa existencia politica os effeitos de um vigor popular, que a historia não teve de mencionar com frequencia ácerca de outros povos. A virilidade nacional era já tão forte na precoce juventude d'este povo, que mais impellia do que acompanhava os principes que a conjuncção dos tempos preparára para chefes da nação.

Á fundação da monarchia seguiram-se guerras incessantes com os infieis, dessidencias com Castella, alterações civis de grande momento entre os primeiros do reino, alguns governos fracos, e muitas occasiões de engrandecimento e de gloria seguidas de tristes desastres e de funestos azares, dos quaes alguns pertencem á nossa idade. A força dos animos populares conservou-se intacta. Os portuguezes mostraram-se no Bussaco, na Roliça e no Vimeiro, como outr'ora em Montes Claros, em Aljubarrota, e em Val de Vez ou em Ourique.

O progresso social melhorou os nossos costumes, e alterou o modo da nossa existencia, mas não enfraqueceu o caracter nacional, que já tinha resistido a outras transformações anteriores. A civilisação não pára no seu fecundo e incessante trabalho, porém onde encontra uma nacionalidade forte, respeita-a, e sabe emprega-la utilmente.

As nacionalidades que não vivem da energia do caracter popular ou que não souberam remoçar-se a tempo, caminham para a morte. As outras não, porque volveram a ser jovens, e começam agora a viver de novo. Aquellas dissolvem-se de podridão, e corrompem as outras. Estas são instrumentos de progresso, e como elementos da harmonia universal contribuem para o complemento dos fins da creação.

Sejamos nós assim.

Entremos na confraternidade universal dos povos, mas não queimemos por isso a nossa boa casa, porque em nenhuma outra estaremos tanto á vontade como n'esta que nossos passados fizeram, amassando com o proprio sangue o barro de que lhe levantaram os muros. Amemos os hespanhoes. São nossos irmãos, mas juremos a nós mesmos ficar portuguezes, como no-lo estão pedindo a honra e o interesse.

Vergonha seria que n'este reino fossem mais patriotas os principes do que o povo, e que ninguem sentisse nas veias o sangue dos barões e homens de armas de D. Affonso I. Do fundo do seu tumulo de Santa Cruz, estão os ossos venerandos do nosso primeiro rei animando os portuguezes a sustentar a nobre empreza, em que elle lidou até á morte, e pela qual tantos milhares de filhos d'esta terra tem perecido heroicamente.

Quem ousaria renunciar a esta herança gloriosissima? Ninguem.

A nossa nacionalidade tem poderosas rasões de existencia, e não póde depender, senão momentaneamente, do capricho de um conquistador ou das combinações de um estadista. Nenhum d'elles poderá contra este reino mais do que em favor nosso ha de valer sempre o caracter firme do povo, o desenvolvimento da civilisação, e a seriedade circumspecta do nosso procedimento politico.

Esses dotes são os alliados mais fieis e poderosos do povo portuguez. Com elles, e só com elles, se salvou nas crises difficeis. D'elles depende tambem no presente e no futuro.

Se por qualquer circumstancia infeliz vierem a faltar-nos essas qualidades na hora do perigo, ainda encontraremos na herança paterna um dever glorioso:

Acabar com honra, escrevendo com o nosso sangue a derradeira pagina da historia portugueza.


NOTAS

1 Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque morto de bala na batalha de Torres Vedras nos fins do anno de 1846.

2 Autor de um poema intitulado Viriato Tragico.

3 Este dito do marquez de Pombal é citado pelo sr. Rebello da Silva em um excelente artigo publicado na Epocha e intitulado A ultima corrida de toiros em Salvaterra.

4 Hist. de Port. tom. I liv. II pag. 306.

NOTAS DE TRANSCRIÇÃO

NT No original o autor colocou o nome de Fernando onde deveria estar Affonso