TROVAS NUNCA IMPRESSAS.

II. PARTE.

SEGUNDO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA.

* * * * *

Estas Trovas naõ vem no antecedente Exemplar impresso, mas consta por antiga memoria muito authentica serem do mesmo Bandarra: forão extrahidas de uma copia, que o Cardial Nuno da Cunha deu ao P. Fr. Francisco de Almeida. Provincial, que foi da Ordem dos Heremitas de Santo Agostinho, Provisor do Priorado do Crato, da Casa dos Condes de Avintes, e tio do Cardial D. Thomas de Almeida, primeiro Patriarcha de Lisboa.

I.

Levanteime muito cedo,
Puz me na minha tripeça,
E lá de lonje começa
Um bramido, que poem medo.

II.

Vão todos como forçados,
Passão serras, e mais montes.
Secão se rios e fontes,
Tudo por nossos pecados.

III.

Furo co'a minha sovéla
Meto seda meto fio:
Quando far a neve, e frio,
Naõ há quem possa soffrê la.

IV.

Vejo a terra dezerta,
E parades levantadas:
Vou dando quatro pancadas
Na sola, quando se aperta.

V.

Vejo a guerra na paz,
E muitos morrer no fosso:
Foje o cavallo, e o mosso
Depois que o soldado jaz.

VI.

Entre montes muito altos
Há uma casa sagrada:
Ja naõ quero ver mais nada,
E vou batendo os meus saltos.

VII.

Arranha me o gato? sape:
Olho outra vez da ladeira,
Deita se o cordão á geira,
Não acho poronde escape.

VIII.

Com o trinchete aparo a sola
Furando com bróca a vira:
Isto he que meu gosto aspira
Pois vejo o jogo da bola.

IX.

Estão muitos páos armados
Que lá de longe se vem;
A quem naõ parecer bem,
Perca o officio, e meta os gados.

X.

Com o cerol encero o linho;
Puxo com torquez o couro;
Gasta se todo o thesouro
Pera abrir novo caminho.

XI.

Quando falho aos meus fregueses
Ficão descalços com magoa:
Naõ saõ os reaes pera a agua
Que se botarão nas rezes.

XII.

Vejo posta toda a gente
Trabalhando, sem comer:
Vejo os mortos a correr,
E os vivos jazer somente.

XIII.

Trabalha todo o sandeo,
E tambem o nobre serve;
Na certã a carne ferve
Pera Mouro, e Judeo.

XIV.

O pobre morrendo á mingua;
Outros tem a arca cheia;
Chove na praça, e na areia,
Como agua de seringa.

XV.

Vou botando o meu remendo
Em quanto o Senhor se veste,
Uma terra assas agreste.
Estou entre serras vendo.

XVI.

Nove letras tem o nome
Duas saõ da mesma casta:
Olhe qualquer como o gasta
Pera naõ morrer de fome.

XVII.

Na era de dous, e tres
Depois e tres conta mais
Haverá couzas fataes,
Vistas em nenhuma vez.

XVIII.

Haverá tantos trabalhos,
Gritos, surras barregadas,
Porem ja sinto as pizadas
Lá pera a banda dos malhos.

XIX.

O povo suspira, e brama
Debaixo do seu chapeo;
Naõ se enxerga mais que o Ceo
Quando a neve se derrama.

XX.

Vejo por entre dous cabos
O couro que vou cozendo;
Ja após outros vou vendo
Muitos mareantes bravos.

XXI.

Ja na carreira primeira
Entra a bandeira Real,
Ah! Portugal! Portugal!
Ja lá vai tua canceira.

XXII.

Dará a serpe tal Brado
Do ninho que jaz, e tem
Quando vir que outrem lhe vem
Tirar da vinha o cajado.

XXIII.

Deixa os filhos mui depressa,
E outrem lhos guarda, e cria;
Vai caminhando sem guia,
Larga a corrôa da cabeça.

XXIV.

Subo me a o meu eirado,
Já naõ sinto matinada,
Fica a terra socegada
O Encuberto declarado.

XXV.

Abre se a porta do Templo,
Entra o cordeiro fiel,
Veste da casa o burel,
Dá a todos grande exemplo.

TERCEIRO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA.

* * * * *

Forão tambem achadas estas Trovas, que se seguem na Igreja de S. Pedro da Villa de Trancoso por occasião de se desfazer a parede da Capella mór em 6 de Agosto do anno de 1729.; erão escriptas em pergaminho em 1532 por letra do P. Gabriel João, da dita Villa de Trancoso, e vizinho do mesmo Bandarra. Domingos Furtado de Mendonça, Commissario do Santo Officio lançou logo mão dellas, mas naõ faltarão pessoas graves, e de qualidade, que as trasladarão, e deixarão a seus filhos.

* * * * *

INTRODUCÇÃO.

I.

Em vos que haveis de ser quinto
Depois de morto o segundo,
Minhas Profecias fundo
C'o estas letras, que aqui pinto.

II.

Inda o tronco está por vir,
Ja vos vejo erguido cedro:
Pouco vai de Pedro a Pedro
Se a rama o tronco medir.

III.

Fiz Trovas de ferro, e prata
Dignas de qualquer thesouro,
Hoje quanto faço he ouro
Que em vós, Senhor, se remata

IV.

Naõ conto çapatarias
Que n'outros tempos sonhei,
O que agora contarei
Saõ mais altas Profecias.

V.

A giesta naõ se trosse,
Muito amarga o sargaço:
Tudo quanto agora faço
São bocados de herva doce.

VI.

Faço Trovas muito inteiras
Versos mui bem medidos,
Que hão de vir a ser cumpridos
Lá nas eras derradeiras.

VII.

Eu componho, mas naõ ponho
As letrinhas no papel,
Que o devoto Gabriel
Vai riscando, quanto eu sonho.

* * * * *

SONHO PRIMEIRO.

VIII.

Vejo, mas naõ sei se vejo;
O certo he, que me cheira,
Que me vem honrar á Beira
Um Grande do pe do Tejo.

IX.

Formas, cabos, e sovelas
Lavradinhas com primor
Mandareis abrir, Senhor,
Muitos folgarão de vê las.

X.

Mas ai! que ja vejo vir
O Presbytero maior
Arriscar todo o primor
Que outra vez hade surgir.

* * * * *

SONHO SEGUNDO.

XI.

Augurai, gentes vindouras
Que o Rei que daqui ha de ir,
Vos ha de tornar a vir
Passadas trinta tizouras.

XII.

O Pastorzinho na serra
Grita que tenhão cuidado,
Que se vai perdendo o gado
Por mais que gritando berra.

XIII.

Desamparar o cortiço
Uma abelha mestra vejo;
As outras com muito pejo
Não tem azas pera isso.

XIV.

Irão tempos de lazeiras
Virão tempos de farturas
Os frades haverão tristuras
Por acudirem as freiras.

XV.

Este sonho que sonhei
He verdade muito certa,
Que la da Ilha encuberta
Vos hade chegar este Rei.

* * * * *

SONHO TERCEIRO.

XVI.

Sonhei, que estava sonhando,
Que passados cem Janeiros
Os Portuguezes primeiros
Se levantarão em bando.

XVII.

Ergue se a aguia Imperial
Com os seus filhos ao rabo,
E com as unhas no cabo
Faz o ninho em Portugal.

XVIII.

Põe um A pernas acima,
Tira lhe a risca do meio,
E por detraz lha arrima,
Saberás quem te nomeio.

XIX.

Tudo tenho na moleira
O passado, e o futuro,
E quem for homem maduro
Ha de me dar fe inteira.

XX.

Vejo sem abrir os olhos
Tanto ao longe como ao pérto;
Virá do mundo encuberto
Quem mate da aguia os polhos.

* * * * *

SONHO QUARTO.

XXI.

Lá pera as partes do Norte
Vejo como por peneira
Levantar uma poeira
Que nos ameaça a morte.

XXII.

Vosso grande Capitão,
Ó povo errado, e perverso,
Já caminha com o terço,
E vós dormindo no chão?

XXIII.

Na era que eu nomear
Terá fim a heregia;
Verás certa a Profecia,
Se bem souberes contar.

XXIV.

Poe[m] tres tizouras abertas,
Diante um linhol direito,
Contaras seis vezes cinco,
E mais um, vai satisfeito.

XXV.

Muito rijo bate o vento
Na parede da Igreja;
Alguem cahida a deseja,
No levantar vai o tento.

XXVI.

Mas ai! do calçado a obra
Logo requer o salario;
Porem naõ ha muita sobra
Se naõ dobra o campanario.

* * * * *

SONHO QUINTO.

XXVII.

Vejo, vejo, dizer vejo
Andar a terra ao redor;
E o borborinho com dor
Revolve um, e outro sexo.

XXVIII.

Rugia a porca do sino,
O sino naõ badalava,
A grimpa se revirava,
E o sino andáva a pino.

XXIX.

Meto a sovela nas viras,
E vejo pelo buraco
Os ossos de Pedro Jaco
No penedo das mentiras.

XXX.

Que bellamente que soão
As Profecias direitas!
Depois que forem perfeitas
Verão que a terra povoão.

XXXI.

Doutos, e sandeos conhecem
Pelo volver das estrellas
Puras verdades mui bellas,
Que inda os Judeos naõ merecem.

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SONHO SEXTO.

XXXII.

Quando o sonho he verdadeiro
Dá se uma lei muito clara:
Sonho agora, que uma vara
Vai dando luz a um outeiro.

XXXIII.

O outeiro he Portugal,
E a vara Castelhana;
Da minha pobre choupana.
Vejo esta vara Real.

XXXIV.

Dará fruto em tudo santo,
Ninguem ousará a negalo,
O choro será regalo
E será gostoso o pranto.

XXXV.

Bem cuido, que ja vem perto
O fim destas Profecias;
Passarão tresentos dias
Depois de eu ser descuberto.

XXXVI.

Em dous sitios me achareis
Por desdita, ou por ventura,
Os ossos na sepultura,
E a alma nestes papeis.

XXXVII.

Naõ ha pedra sobre pedra,
Quando eu aqui for achado,
E as letrinhas do Letrado
Ha tresentos annos queda.

FIM.

End of Project Gutenberg's Trovas do Bandarra, by Bandarra Gonçalo Anes