Meorum amicorumque pié manibus
Meorum amicorumque pié manibus.
Tenho ás vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus labios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.
Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexoravel Fouce
E a ampulheta em que vaes pulverizando as horas.
Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
Tão proxima de mim que te respiro o alento,
—Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me comtigo ao teu leito sangrento…
Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, d'onde esplendida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.
A Alma volta á Luz; sae d'esse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu animo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis de terra!
Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!…
A Morte, que sem dó me tortura e suffoca,
É outra,—essa que em nós cava sulcos de dores.
Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas affeições.
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer, é ter vivido, é renascer… O horror
Da Morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.
Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,
—Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
Só então, da tua asa a sombra formidavel,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondavel,
Noite de soledade em que nunca amanhece…
Só então, succumbindo á dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é d'um Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!
Inflexivel e cego, o poder do teu sceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza elle faz um espectro
D'alguem, que ha pouco ainda, ao pé de nós sorria.
Mas se n'essa tortura, exhausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contricto,
Passa deante de mim, como um deslumbramento,
Constellando o teu manto, a visão do Infinito.
E de novo, ao sair d'essa angustia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Euthanasia serena em cujo olhar clemente
Arde a chamma em que toda a escoria se depura.
É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e d'esplendor vestida
—Borboleta celeste, ébria de Deus,—s'eleva
Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
Como um captivo, aqui te deixo, Pensamento,
As asas d'oiro amarfanhadas,
Com o esforço que fiz de forma e sentimento,
Nestas estrophes mal rimadas…
Os meus olhos, a noite immensa perscrutando,
Viram-te bello e refulgente;
E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando,
Illuminou-se de repente.
A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa,
Fundiu-se ao beijo que lhe deste;
E a alma liberta, ao sol da Graça e da Belleza,
Abriu, cantando, a asa celeste!
Descendo para mim d'outras espheras, vinhas
Banhado ainda em luz sublime;
Via-te bem, sentia os encantos que tinhas,
Mas a palavra não te exprime.
E quem hoje te vê, n'estas imagens frias,
Encarcerado em duro engaste,
Nem por sombras suppõe com que esplendor fulgias,
Quando aos meus olhos te mostraste!
Nem as outras visões que ficaram sem forma
Em nebulosa inconsistente,
A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma
O pó da terra em oiro ardente…
*/
Ferreiro velho e cansado
Deixa a forja, não trabalha;
O fogo, quasi apagado,
Poucas faúlas espalha;
Mas do ferro trabalhado
Vae recolhendo a limalha.
Ferreiro velho e cansado
Deixa a forja, não trabalha.
Como á luz do sol doirado
É poeira d'oiro a limalha,
A todo o olhar angustiado
Em que a Saudade se espalha,
Parecem d'oiro e brocado
Lentejoulas de mortalha…
Ferreiro velho e cansado
Deixa a forja, não trabalha;
Mas do ferro trabalhado,
Vae recolhendo a limalha.
Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subiamos um dia.
Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indicios de cansaço;
O Amor passava-nos adeante
E o Tempo accelerava o passo.
—«Amor! Amor! mais de vagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»
Subito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
—«Porque voaes assim tão apressados?
Onde vos dirigis?»—Nesse momento,
Volta-se o Amor e diz com azedume:
—«Tende paciencia, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!»
A Manuel d'Oliveira Monteiro
No principio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.
Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada,
Num impeto de furia os seus olhos vazou;
Foi a Demencia logo ás feras condemnada,
Mas Jupiter, sorrindo, a pena commutou.
A Demencia ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ella o cegou,
Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisiveis laços,
Quando o Amor emprehende a mais simples jornada,
Vae a Demencia adeante a conduzir-lhe os passos.
A José Coelho da Motta Prego
Como a concha de nácar luminoso.
Em que Venus surgiu, risonha e nua,
A Galera vogava ao sol radioso
Com a graça d'um Cysne que fluctua.
Soltas ao vento as velas de brocado,
Ao som das Lyras, sobre o rio immenso,
Dos remos d'oiro e de marfim sulcado,
O destino do Mundo ia suspenso!
Como nuvens correndo, as horas passam;
Já se divisa o porto; o sol declina,
E emquanto as velas, marinheiros, cassam,
Ella que um sonho de poder domina,
Deante do espelho, a reflectir, perscruta
Do seu corpo a belleza profanada,
Como o rufião nocturno, antes da lucta,
Examinando a lamina da espada!
A Antonio de Barbosa de Mendonça
Abou-el Hassan, Ali, fils d'Abdalla,
Elzagouni, raconte ce qui suit…
Ebu-Abi-Hadglat, Divan Oriental.
O pobre moiro enamorou-se
D'Ely, môça christã, sendo filho do Emir…
Tamanha dor sentiu, que o misero exilou-se,
Como se alguem podesse á propria dor fugir!
Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memoria
A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de gloria,
Mas no esplendor de um ceu que nem mesmo era o seu…
Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo,
E nesse immenso amor, com presagios de agoiro,
Sentia-se morrer, como um lirio no gêlo,
Sem o doce luar dos seus olhos de moiro…
Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
Que a Morte os separasse, em tão oppostos ceus,
Elle invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;
E a christã murmurou: «Allah! só tu és Deus!»
A João Gomes d'Abreu e Lima
Quelqu'un demanda un jour à Arouâ-Ben-Hezam, de la tribu d'Asra: Est-il bien vrai que vous êtes de tous les hommes ceux qui avez le coeur le plus tendre en amour?—Oui, par Dieu! cela est vrai, répondit Arouâ, et j'ai connu dans ma tribu trente jeunes gens que la mort a enlevés, et qui n'avaient d'autre maladie que l'amour.
Ebu-Abi-Hadglat, Divan de l'Amour.
«De que país és tu?»—A um árabe dizia
Sahid, filho d'Agbá, na estrada, ao fim do dia.
Era a hora em que o sol se fecha no Occidente
Como o olhar moribundo e triste d'um doente.
E o árabe respondeu, banhado na piedosa
Claridade da luz, quasi religiosa:
—«Sou da raça que tem o excepcional fervor
D'amar eternamente e de morrer d'amor.»—
—«Então és tu de Asrá.»—accrescentou Sahid;
—«Sim, por Kaaba! Foi essa a tribu onde eu nasci.»
E de novo Sahid o interrogava attento:
—«Por que motivo, pois, tão nobre sentimento
Nunca se muda em vós n'uma paixão nefasta?»—
O crepusculo enchia o ceu meio estrellado,
E o árabe tornou, como que illuminado:
—«Porque a mulher é bella e a juventude é casta!»
A Aristides da Motta
Outros a quem impugna Genebrado, in Chronologia dizen que fue Abraham Idolatra como su padre, y le ayudava a su padre Thare a hazer Idolos de barro, y San Clemente Alexandrino, en el lib. I recognitionem, y Suydas, in verbo Abrahan: dizem que fue primero infiel empero que fue tan eminente en el Astrologia, que por el conocimiento natural de las estrellas conveiò al verdadero Dios.
Prosapia de Christo, por el L.^{do} Diego Matute de Penafiel, fol. 109.
Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros,
Que o oleiro antigo e rude em barro modelava,
Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros,
E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.
Só, na noite profunda e num amplo deserto,
Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça,
—Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,—
Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.
E absorto nessa luz que do alto cahia,
Como um pressentimento augusto a illuminá-lo,
Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia:
—«Eis o Deus verdadeiro!»—e prostrou-se a adorá-lo.
Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua,
Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro;
E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua:
—«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»
E outra vez, como chuva em calcinada areia,
A paz, ao seu turbado espirito baixara;
Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia,
Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.
Mas a Lua descreve a orbita marcada
E some-se ao primeiro esplendor do arrebol;
Borda todo o horizonte uma fimbria doirada,
E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.
Como o homem que sae d'um longinquo desterro,
E de subito encontra o lar e encontra os seus,
Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro,
E de joelhos proclama:—«Eis o unico Deus!»—
Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros,
Perdido na abstracção do seu culto fervente,
Quando os olhos ergueu já luziam os astros,
E do Sol mal se via um clarão no occidente.
Então, no seu assombro, o espirito perplexo,
Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu
Viu em tudo o que existe apenas o reflexo
D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu…
A Alfredo da Cunha
Formosa Princesa dormia ha cem annos;
Dormia ou sonhava… Ninguem o sabia.
Passavam-se os dias, passavam-se os annos,
E a linda Princesa dormia, dormia,
Dormia ha cem annos!
Em torno, sentadas, dormiam as Damas,
Cobertas de joias, cobertas de lhamas;
Com formas e aspectos de finas imagens,
Esbeltos e loiros, dormiam os pagens.
E ás portas de bronze, por terra halabardas,
Num somno profundo dormiam os guardas.
Lá fóra, na sombra dos parques discretos,
Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos.
As arvores sonham, na sombra dos poentes,
Immoveis, á beira dos lagos dormentes.
E as fontes que d'antes sonoras gemiam,
Somnambulas mudas, apenas corriam…
Um dia, de longe, de terras distantes,
Com pagens, arautos, donzeis, passavantes,
Bandeiras ao vento, clarins, atabales,
Echoando a distancia por montes e valles,
—Um principe, herdeiro d'um throno potente,
Com olhos suaves d'aurora nascente,
Excelso e formoso, magnanimo e moço,
—Correndo aventuras, num grande alvoroço,
Chegou ao Castello, que ha tanto dormia,
Como uma alvorada, prenuncia do dia…
E ao ver a princesa, sentada em seu throno,
N'aquelle profundo, extactico somno,
Tomado d'estranha, indizivel surpresa,
Na boca entreaberta da linda Princesa,
Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se
N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe.
Accorda a Princesa; despertam as Damas,
As faces ardentes, os olhos em chamas.
Despertam os Pagens, nos seus escabellos,
Com halos de fogo nos loiros cabellos.
Accordam os guardas; e, tudo desperto,
A vida renasce no parque deserto.
Suspiram as fontes; gorgeiam as aves,
Das áleas profundas nas sombras suaves.
As arvores tremem, no ar transparente,
Á brisa que sopra, como halito ardente.
Nas torres, os sinos repicam de festa;
O povo em choreias enchia a floresta…
E a linda Princesa, seus olhos fitando
No Principe excelso, sorrindo e còrando,
—«Sonhava comtigo…» Porque é que tardaste?
Mas já nesse instante, formando contraste,
Quando isto dizia, erguendo-se a medo,
A voz parecia trahir o segredo
De quem, num relance, talvez lamentasse
Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!…
A linda Princesa sonhava ha cem annos,
E fóra do Sonho só há desenganos…
Aos Condes de Bertiandos
Och hör du, liten Carin!
Säg, vill du blifva min?
Liten Carin, Folkvisa.
A linda Pastora, guardando o seu gado,
Andava esquecida num alto montado.
E o Rei, que voltava, sombrio, da caça,
Com seus falcoeiros e galgos de raça,
Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la,
Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella.
—«Oh linda Pastora dos olhos castanhos,
Que passas a vida guardando rebanhos!
A tua belleza deslumbra os meus olhos,
Como uma tulípa no meio de abrolhos.
Teus labios parecem cerejas vermelhas,
E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas.
Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras
São duas papoilas em searas maduras.
Estrella ou Pastora, se queres ser minha,
Terás as riquezas que tem a Rainha!»
—«A flôr dos vallados é sempre modesta
E a humilde zagalla presume de honesta.»
—«Terás equipagens, palacios, castellos,
E joias a arderem nos fulvos cabellos;
Um throno de esmaltes em oiros massiços,
Lacaios, escravos, fidalgos submissos!…»
—«Ás vossas riquezas, perdidas nos montes,
Prefiro mirar-me no espelho das fontes;
As joias, que valem, se eu guardo o meu gado,
Com rubras papoilas a arder no toucado?…
De nada me servem fidalgos, escravos,
Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.
Segui vosso rumo, que a tarde caminha;
Guardae as riquezas que são da Rainha».
—«Não rias, vaidosa, das minhas promessas,
Que a forca tem visto mais lindas cabeças…»
—«Talvez que mais lindas já visse pender,
Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver,
Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente,
Ampara, sorrindo, quem morre innocente,
E os anjos, descendo do ceu a voar,
Á forca viriam minh'alma buscar!»
E a linda Pastora, que a ser ultrajada
A morte prefere,—vae ser enforcada!
Levaram-na, á força, das suas ovelhas,
Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,
Com gritos de escarneo, no meio da turba…
Mas nada os seus olhos serenos perturba.
E toda inundada na luz que irradia,
Sorrindo, os estrados da forca subia…
Então, n'um relance, do azul transparente,
Surgindo mais alvas que a lua nascente,
Duas pombas que descem e voam a par,
Nos braços da forca vieram poisar…
E a linda Pastora dos olhos castanhos,
Tão longe da serra, cercada de estranhos,
Sem ter um gemido, sem ter um lamento,
Expira na forca… Mas n'esse momento,
No grande silencio que a morte causara,
Aos olhos de todos que attonitos viram
Tão grande prodigio, coragem tão rara,
Dos braços da forca—três pombas partiram!
A Julio Dantas
Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt ist, weil Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick Deines Todes.
Herder.
Da praia longinqua, na areia doirada,
O Cysne pensava, fitando a Alvorada:
—«Que immensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fôsse cantar uma vez!»
—«Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hymnos mais altos á gloria do Sol…»
Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;
É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minh'alma de luto.
Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d'alegria murmuram as fontes;
Só eu, passeando o meu tedio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.
Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»—
E o Cysne, em silencio, chorava, escutando
A orchestra das aves que passam em bando.
Das aguas rompia a quadriga d'Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no collo…
Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabello,
E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo:
—«No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo…»—
E nesse momento a Lyra Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…
O Cysne, orgulhoso da graça divina,
Da Lyra d'Apollo as cordas afina,
E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes
Tremiam de goso a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.
O Cysne cantava, tirando da Lyra
Um hymno que nunca na terra se ouvira;
Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquella canção.
Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia
No enlevo do canto que a essa hora gemia,
E Apollo no seio de Thetis desceu,
O pobre do Cysne, cantando, morreu…
Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,
E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.
Sollicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cysne, já morto, fiel companheira;
Espera que o Esposo de prompto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…
As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um panno d'enterro picado d'estrellas.
Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;
Mergulha nas aguas, colleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,
Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cysne não volta, não pode voltar!
Chorosa viuva, nas aguas deslisa,
Levada na fresca salsugem da brisa…
No seu abondono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,
Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,
Que o peito sentindo de dor estalar,
—De dor e d'angustia começa a cantar!
E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquella canção.
As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;
A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…
Na terra, no espaço, nos astros, no ceu,
Mais alta harmonia ninguem concebeu;
E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cysne que expira a cantar…
Desde esse momento, no Olympo onde entraram,
Em honra dos Cysnes que tanto se amaram,
Das almas que foram leaes e sinceras,
Se Venus se mostra, surgindo da bruma,
São elles que tiram, nas altas espheras,
A concha de nácar, cercada de espuma…
Apreciações da «Ilha os Amores» e do «Cancioneiro Chinês»
Poeta por necessidade de temperamento e por fatalidade de herança, Antonio Feijó sabe impôr, a quem o lê, a contestada mas suprema fidalguia do verso. Emotivo e delicado como os velhos bysantinos, amoroso e enternecido como todo o meridional, a sua bella constituição de lyrico assegura-lhe um logar inteiramente á parte entre os technicos portugueses. Sendo um religioso da côr, Feijó desadora as tintas impetuosas e agressivas, e, numa preciosa doçura, dá-nos a branco e oiro as suas figuras de mulher. O ar contemplativo, o ar extatico das suas lyricas, veio-lhe no sangue. Numa remota ascendencia lá está frei Agostinho da Cruz a assegurar-lhe a fatalidade da herança.
Não é esteril a intervenção da hereditariedade na comprehensão moral d'um poeta. O incomparavel mistico da Arrabida renasce espiritualmente na alta uncção lyrica e nos piedosos enternecimentos de Antonio Feijó.
Tenho aqui, sobre a minha mesa, esses dois bellos livros—a Mystica de frei Agostinho e a Ilha dos Amores,—tão proximos pelos laços de familia e tão afastados pelo poder do tempo. O epilogo da Ilha dos Amores, essa piedosa aspiração a uma vida mais simples, a um ruralismo honesto e socegado, o que é elle, senão a affirmação d'um mysticismo profundo, obliquado pela acção dissolvente do meio e pela orientação revoltosa do tempo? E tinhas Deus, para te consolar,—diz dolorosamente o poeta, no pungente isolamento a que o condemnou a sua propria superioridade cerebral. O mesmo enlevo mystico d'aquelle, que
Nas pedras do deserto achou brandura,
Nas serpentes da serra piedade
E nas pelles das feras cobertura.
Lendo um e outro, o velho Agostinho Pimenta e o novo Antonio Feijó, vejo a affirmação de dois grandes poetas e a imposição de duas grandes almas. Entre o profundo amigo do duque de Aveiro e o louro diplomata, as differenças apparentes fundem-se numa grande semelhança intima. O primeiro, victima da sua emotividade excessiva, fugiu do amor da terra para o amor do ceu; o outro, galante e vivo, deixou-se ficar pelo amor da terra, e em grande verdade, ficou melhor. Mas quando a evocação da mulher domina os espiritos d'um e de outro, quando o sentimento da côr lhes illumina os olhos, então as apparições da Ilha dos Amores teem a mesma luz que a apparição de Magdalena e de Santa Clara aos olhos pisados do frade. Vejamos se as figuras que passam na insula encantada, vestidas de oiro e de sonho, as não poderia ter evocado o cerebro d'um mystico como Juan de la Cruz, Jacopone de Todi ou Lourenço de Medicis? Uma voluptuosa de si mesma; outra, a lyrica Ignez, duas vezes virgem, aquella, toda de sol vestida e de astros coroada; aquell'outra ainda, santa illuminada a oiro, no esplendor d'uma Assumpção,—o que mostram todas ellas, senão que o erotismo e o mysterio não são mais que dois ramos da mesma arvore ou duas flôres do mesmo ramo? O mysticismo de Agostinho Pimenta e o erotismo de Antonio Feijó, o que são elles, senão uma e a mesma coisa?
Disse eu, que o poeta da Ilha dos Amores tinha um logar aparte entre os technicos portugueses. A sua technica, sendo nalguns pontos decadente, é, por assim dizer, classica e impeccavel no seu decadismo. Feijó afastou-se da discutivel rigidez do classico absoluto, e fez um classico seu, de cujas formulas se não aparta. As liberdades da sua technica chegam a ser mais difficeis do que as difficuldades da technica parnasiana. É um caso esporádico nos annaes da nossa lyrica. Seja como fôr, Feijó tem no seu passado, como demonstração clara da sua impeccavel métrica, dois livros modelares. Nas proprias paginas do Auto do meu affecto, conserva-se um parnasiano puro. O mesmo nos sonetos da Alma Triste. A Ilha dos Amores veio apenas mostrar uma face nova do seu grande poder de realização. O proprio Francisco Manoel de Mello teve delirios metricos, como Feijó nalgumas das suas lyricas. E não é, por isso, menos poeta.
Deus queira que António Feijó nos traga um novo livro quando voltar,—um livro todo de branco e oiro, em que o travor das suas nostalgias seja, como neste ultimo, uma bem deliciosa nota. Até lá, envio-lhe, com as saudades d'este ceu azul, o mais enternecido abraço.
Novidades, 20 de Julho de 1897.
Julio Dantas.
* * * * *
Temos desde hontem o novo livro de versos de Antonio Feijó—Ilha dos Amores, saido, ha dias, dos prelos da Imprensa Nacional, e editado pela casa M. Gomes, de Lisbôa. Evidentemente que, por muito menos fadigosa que a nossa vida fôsse, nos seria absolutamente impossivel avaliar em conjunto, dentro de tão breve espaço, a obra de um artista litterario da nobre categoria a que pertence A. Feijó. Vai isto, assim, apenas como registo de recepção e de vivo agradecimento, envoltamente com algumas ligeiras notas da impressão que recebemos de uma rapida leitura.
Essa impressão é magnifica. O talento de A. Feijó amplificou-se notavelmente em emoção, em fantasia, em profundeza de alma; o poeta alongou os seus passos e a sua visão pelo mundo, e á nostalgia da sua bella mocidade, não muito longinqua, ainda, se lhe foi juntar a do seu patrio Minho, tão distante do país scandinavo e, ao mesmo tempo, tão brutalmente contrastado pela noite e pela neve d'essa tristissima região polar. E é um encanto de observação o jogo d'esta dupla mágoa, d'este complicado pungir, deliciosissimo, de que provêm as estancias da Ilha dos Amores. Numa reacção vigorosa de fisiologia e de alma, assim como os seus olhos se ensanguentaram naquella immensa noite, assim tambem, naquella tristeza inexoravel, o coração do poeta se dilatou de saudades, e a estetica do glorioso parnasiano antigo emoveu-se intensamente e vibrou fundo; todas as nervuras do marmore sagrado se desmineralizaram em veias e em arterias e uma onda rubra e fumegante circulou e palpitou por todas ellas.
De resto, em todos os versos que já lemos do novo livro, é o mesmo estilo magnificente das producções de outr'ora, mas dexterisado com um maravilhoso, consummado bom-gosto; é essa mesma amplitude harmoniosissima e limpidez diamantina, o admiravel senso musical, a riqueza larga de fantasia, e aquella fidalga probidade artistica, o esmero, a esplendida perfeição de executante, que fizeram de Antonio Feijó um dos mais elevados representantes da nossa poesia contemporanea.
Em remate, da Ilha dos Amores, trasladamos para a valla do noticiario esta divina lirica:
Na tua bôca macerada
Por tantos beijos mercenarios que soffreste,
Meu labio achou ainda a candura sagrada
Que da avidez das outras bôcas escondeste…
E no teu peito exhausto, onde em tumulto ouviste
Tantas paixões rolar,
A minh'alma escutou, num eco amargo e triste,
A primeira innocencia em segredo a chorar!
A chorar em segredo a pureza da infancia,
A candura perdida,
De que eu sentia ainda a ultima fragrancia
A evolar-se de ti, como d'urna partida.
Pobre flôr torturada! O teu doce perfume
Foi delicia e veneno…
Pairava o teu Amor como num alto cume:
Só podia attingi-lo o meu beijo sereno!
Todo o teu ser vibrou como uma flor ao vento,
Tremeu, desfalleceu…
E a tua alma, esquecendo o seu longo tormento,
Num sorriso de gloria á tua bôca ascendeu!
Vinha cheia de graça e candura ineffavel,
D'innocencia e de pejo,
Que eu fiquei a scismar se esse beijo insondavel
Seria porventura o teu primeiro beijo!…
Primeiro de Janeiro, de 28 de Maio de 1897.
* * * * *
Ilha dos amores, por Antonio Feijó. Um vol. 114 pag. in 8^o, Lisbôa,
Editor M. Gomes 1897.
Produz-se, ao lermos os versos d'este poeta, o desejo de simplesmente os irmos transcrevendo todos; e nessas condições limitarmos a apreciação a simples interjecções. Ninguem hoje, em Portugal, cinzela assim tão primorosamente a lingua portugueza em metro e rima, e a obra litteraria sae nitida, brilhante, completa,—sem que alguem note a fadiga do obreiro, ou adivinhe os processos de factura. O artista confunde-se com o dilettante, e é inconfundivel a linha de cada um d'elles.
Reproduzo esses dezesseis versos,—e ponho ponto na prosa:
Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados etc.
Noites de Vigilia. N.^o 16.
Silva Pinto.
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«CANCIONEIRO CHINEZ» por ANTONIO FEIJO
Dizia Oliveira Martins que o condão das bellas obras era relerem-se indefinidamente. Ha treze annos que se publicou a primeira edição do Cancioneiro Chinez. Desde então a poesia, sobretudo no mundo latino, passou pela mais vertiginosa e estranha evolução, resvalando da noble ordonnance parnasiana até a anarchia quasi chaotica do decadismo, do symbolismo, do instrumentismo, do amorphismo e d'outras phantasias prosodicas e metricas. E, todavia, a segunda edição d'esse livro, eminentemente artistico, nada mais faz do que renovar em quem o lê a sensação de graça lyrica, de finura conceptual, de impecavel belleza plastica, que fez o successo d'essa admiravel e feliz adaptação do lyrismo chinez á nossa lingua.
O trabalho de Antonio Feijó conseguindo, atravez das versões francezas, tão maravilhosa transposição, sem estiolar a frescura emotiva do original, é um dos mais bellos esforços d'arte e de gosto que a poesia portugueza do fim do seculo passado tentou e realizou. Com a maestria d'um habilissimo artifice da palavra, com a paciencia meticulosa d'um beneditino do verso, elle trabalhou, limou, burilou essas pequenas e graciosas joias, onde nos engastes da phrase perfeita scintillam as gemmas da emoção lyrica. E como se não cingiu ás formulas inconstantes da moda litteraria, como, em vez de martellar n'um molde o plaqué d'uma rethorica falsa, lavrou o seu pensamento no oiro puro do verbo classico, a sua obra não envelheceu, não desbotou, nada perdeu do seu brilho primitivo, e hoje, como ha treze annos, fulgura com o inextinguivel esplendor do talento.
É difficil apreciar bem uma versão, quando se não conhece a lingua original da obra vertida. Mas mais difficil se torna ainda o fazel-o, quando as duas linguas são tão dessimilhantes, de familias tão diversas, de estrutura phonetica e até graphica tão differentes como são a nossa e a chineza. Comtudo, se puzermos em confronto esses lindos poemazinhos e as traduções da eminente sinologa, madame Judith Gautier, que verteu os originaes chinezes para prosa franceza, fica-se surprehendido com a exactidão, a fidelidade, o respeito meticuloso do texto, a que Antonio Feijó se adstringiu no seu conscienciosissimo trabalho. Não é d'elle que se poderá dizer: traduttore, traditore. Se os poemas chinezes são o que a erudita filha do grande Théo nos revelou nas bellas paginas do Livro de Jade, póde afoitamente dizer-se que o Cancioneiro de Antonio Feijó é a mais irreprehensivel e leal das traducções.
Mas abstraiamos d'este ponto de vista. Supponhamos que Antonio Feijó não buscou nos poetas chinezes mais do que motivos lyricos, para sobre elles ensaiar variações ou glosas. Supponhamos que o Cancioneiro não é uma traducção, nem uma adaptação, mas a obra de um poeta europeu, finamente perfumada de orientalismo. Nem por isso a sua belleza seria menor, nem por isso seriam menos admiraveis os versos purissimos d'essa purissima obra d'arte. O auctor teria, neste caso, affirmado mais poderosamente as suas faculdades de poeta e de artista, porque seria um semi-creador. E o Cancioneiro, reduzido a uma imitação, não diminuiria de valor sob o ponto de vista litterario.
Portanto, traducção, adaptação ou imitação, esse bello livro é, de qualquer forma, uma obra superior. As excepcionais faculdades poeticas de Antonio Feijó, a sua ponderação, o seu gosto, a luminosidade e elegancia do seu verbo, o seu poder de linha e de colorido, a sua technica admiravel e conscienciosa, patenteiam-se n'elle de uma maneira brilhante, impoem-se triumphantemente á nossa admiração. O Cancioneiro Chinez marca em Antonio Feijó a plena affirmação da sua individalidade de artista—d'esta individualidade, que já as Transfigurações, um tanto frias nas suas linhas esculpturaes, e as Lyricas e Bucolicas, mais vivas e emocionadas e não menos bellas como forma, annunciavam promettedoramente. Do Cancioneiro Chinez á Ilha dos Amores havia apenas um passo a dar. Antonio Feijó deu-o com raro brilho—e tornou-se um poeta consagrado, um verdadeiro mestre do verso.
O Cancioneiro, além do Portico, que abre com a exotica decoração e as sentenciosas inscripções de uma entrada de Pagode, foi accrescentado com O sacrificio de Gu-So-Gol, um canto soberbo de epopeia barbara. Neste trecho Feijó como que põe mais uma corda na sua lyra—a corda epica. O quadro d'esse sacrificio heroico é, realmente, grande e nobre. A flauta de yade, que modulava as docuras idyllicas ou elegiacas do Leque, Flôr Vermelha, Casa no Coração, Batel das Flores, Esposa Honesta, cede a vez á turba estridente que clangora as sublimidades do heroismo. Os versos resoam bronzeos, metallicos, como um ruido de armas. O seu rythmo alonga-se, ergue-se, empola-se, como uma vaga que o sopro da tempestade entumesce. E em todo esse bello episodio uma forte crispação tragica passa, fazendo-nos vibrar de um confuso sentimento, mixto de terror e enthusiasmo epico.
Jornal da Noite, de 14 de Agosto de 1909.
Luiz de Magalhães.
Prefacio, por Luiz de Magalhães
Antonio Feijó, o que morreu de amor, por Alberto d'Oliveira
Dedicatoria
Elegia d'abertura
Descendo a encosta do Parnaso (A João Arroyo)
A Armadura (Ao Dr. Góran Björkman)
A cidade do Sonho (Ao Visconde de Pindella)
Beatitude amarga (A Silva Ramos, da Academia Brasileira)
Castello bárbaro (A José d'Azevedo Castello Branco)
A Aguia prisioneira (A Manuel da Silva Gayo)
A Selva escura (A João Chagas)
O Livro da Vida (A Antonio de Cardiellos)
Dyptico
» I
» II Eu e Tu
Paladinos (Á Condessa d'Arnoso)
» I Conde d'Arnoso, João
» II Conde d'Arnoso, Bernardo
Cabellos brancos, (A D. Thomaz de Mello Breyner)
Somnambula (A João Caetano da Silva Campos)
Cysne branco (A Alberto d' Oliveira)
Supplica ao Vento (A Luiz de Magalhães)
Gota de agua (A memória de A. Rodrigues Braga)
A Ventura (A Anthero de Figueiredo)
Entre pinheiros e cyprestes (A meus sobrinhos Salvato e Ruy)
Rio amargo (A meu irmão Julio de Castro Feijó)
Hymno á Vida (A Agostinho de Campos)
» » Belleza (A Eugenio de Castro)
» » Dor (Aos Condes de Sabugosa)
» » Alegria (A Carlos Malheiro Dias)
» » Solidão (Ao Padre J. I. de Araujo Lima)
» » Morte
Epilogo
Preludio
O Amor e o Tempo
Fabula antiga (A Manuel d'Oliveira Monteiro)
Cleopatra (A José Coelho da Motta Prego)
Moiro e Christã (A Antonio de Barbosa de Mendonça)
A resposta do Árabe (A João Gomes d'Abreu e Lima)
A vocação d'Ibrahim (A Aristides da Motta)
A Princesa encantada (A Alfredo da Cunha)
O Romance da Pastora Linda (Ao Conde de Bertiandos)
A Lenda dos Cysnes (A Julio Dantas)