A MINHA MULHER

Romam tu mihi sola facis.

MART. LIV. XII. EPIGR. XIX.

Folhas mortas d'outono ou d'inverno precoce,
No teu regaço amigo, estes versos deponho,
Para que o teu amor lhes dê vida e remoce,
Porque a Arte começa e acaba num sonho…
É pouco; mas eu torno a homenagem mais bella,
Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma,
O verso em que Martial diz á Esposa Marcella:
Tu, tu só, para mim, vales mais do que Roma
!

ELEGIA DE ABERTURA

Elegia d'abertura

_A minha Lyra tinha uma corda: Emquanto môço tanto cantei, Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar.

Era uma corda que só vibrava
Quando a minh'alma toda chorava,
E tantas mágoas, tantas, cantei,
Que a pobre corda despedacei.

O Amor e as penas da Mocidade,
Chimera ou Sonho de cada dia,
Eram os themas que ella escolhia.

Porém um dia veio a Saudade,
D'olhos vidrados e humedecidos,
Poisar-lhe os dedos emmagrecidos…

Então, vibrando, toda chorosa,
Sob esses dedos, brancos de cera,
Mais angustiada nunca gemera!

E uma alma nova tão dolorosa,
Com tanta mágoa nella ressôa,
Que um ai supremo despedaçou-a!

Desde esse instante, nas minhas penas,
Sem essa corda que me sustinha,
—Pobre Saudade! chora sósinha…

Manhãs d'estio, tardes serenas,
Occasos d'oiro, nocturno ceu,
Para os meus olhos, tudo morreu!

Mas a Saudade, no meu tormento,
Geme e soluça com tanta mágoa,
Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água,

E sem um grito, sem um lamento,
Minh'alma vive na dor que a enleia,
Como uma aranha na sua teia…

A minha Lyra tinha uma corda:
Emquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar…

A Mocidade não pensa em nada,
E a pobre corda vi-a quebrada
Quando tocava mais afinada…

A Mocidade não pensa em nada_!

I

DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO

A João Arroyo

Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket og Skriget strömme ud over dem, lyde de som en skjöne Musik.

Kirkegaard.

DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO

Quando moço, cantei, mas em formas discretas
Que nunca o meu segredo ousassem revelar,
Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas
Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.

Feliz, o Amor… nem mesmo ephémero sorriso
Deixou nessas canções memoria do seu rastro;
Desditoso, ficou como um luar indeciso,
Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.

A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,
—O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume—
Ennublou muita vez os meus olhos magoados,
Mas se ao labio acudia, era apenas queixume…

Éstos do coração, sobresàltos do instincto,
—Amor ideal, vehemente impulso do desejo,—
Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,
No meu verso expirar, como um simples arpejo.

Se a angustia me opprimia em continua tortura,
Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,
Como alguem que a si proprio illudir-se procura,
Precisando de ouvir a minha voz—cantava!

Echo do meu soffrer, de tão fundo partia,
Que deixando ao passar todo o amargo travor,
Essa voz, rara vez, murmurando trahia
O secreto pungir da primitiva dor.

Mas de cada palavra ou gesto contrafeito
Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca
Os lamentos e os ais suffocados no peito,
Todos os gritos vãos que morreram na boca!

No escrinio da Canção as lagrimas vertidas,
Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma,
Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,
A tremer no cristal transparente da Fórma.

Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;
Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza;
A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste,
Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.

Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio
Da phrase que a primor o artista cinzelou,
Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,
O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.

A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos;
Muda em graça verbal todo o grito pungente;
—Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,
Que a um sopro vão partir da pupilla dormente…

Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,
Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo…
—Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento
Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!

D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,
Se em imagens procura o artista convertê-las,
Espinhos entrelaça em grinaldas de flores,
E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.

Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel,
O espirito banal, nunca pode sentir,
A mágoa que por trás da palavra insensivel,
Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!

Só almas d'eleição commungam no mysterio
Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,
Como á flor que sorri num chão de cemiterio,
O amargo coração que se desfaz na cova.

Só ellas, através d'um molde tão restricto
Como esse em que a palavra as emoções fixou,
Alcançam entrever não sei quê d'infinito
No minuto de sonho em que a Dor se embalou…

A ARMADURA

Ao Dr. Góran Björkman

A ARMADURA

Desenganos, traições, combates, soffrimentos,
Numa vida já longa accumulados, vão
—Como sobre um paúl continuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.

E a cinza com o tempo attinge uma espessura,
Que nem os mais crueis desesperos abalam;
É como tenebrosa, impavida armadura
Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.

Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava,
Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados;
Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava
Que nesse duro arnez se não faça em bocados.

E no entanto, através d'essas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as junctas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o coração verteu d'alguma chaga obscura…

A CIDADE DO SONHO

Ao Visconde de Pindella

A CIDADE DO SONHO

Soffres e choras? Vem commigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva á Cidade do Sonho…
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o ingreme trajecto é florido e risonho.

Vae por entre rosaes, sinuoso e macio,
Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.

Se o teu animo soffre amarguras na vida,
Deves emprehender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Promettida:
Em beijos o maná chove na nossa boca…

Vistos d'essa eminencia, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor d'um perpetuo arrebol;
O mais esteril chão tapeta-se de alfombras,
Não ha nuvens no ceu, nunca se põe o sol.

Nella mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jámais nos é dado sentir…
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A propria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelevel persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe…

BEATITUDE AMARGA

A Silva Ramos, da Academia Brasileira

BEATITUDE AMARGA

Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos
E imagino que estou sentado á beira mar:
Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos,
Naufragios, temporais, mar de leite e de luar…

Medroso, o coração tenta fugir, mas treme:
O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente,
Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente.

Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
E sinto uma impressão d'angustia e de pesar,
—Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma—
Por suppor que partiu para não mais voltar!

Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida,
Com o vago terror e o pensamento incerto
Do naufrago que á praia ainda chegou com vida.

CASTELLO BÁRBARO

A Josè d'Azevedo Castello Branco

CASTELLO BÁRBARO

Um a um sobrepondo os tormentos mais altos,
Da minha propria dor fiz uma Fortaleza,
Que podesse afrontar tempestades e assaltos,
Imponente de rude e bárbara grandeza.

Desde então, sem receio, a tudo invulneravel,
Depondo na panóplia o escudo e as armas rôtas,
Vivo occulto no meu torreão inexpugnavel,
Recompondo em annaes combates e derrotas.

Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia;
Nenhum desejo vão escala essas alturas,
Onde, antigas visões, andam como em demencia
Do passado a evocar saudades e amarguras.

Comtudo, alguma vez, se uma illusão funesta
Um echo juvenil faz em mim despertar,
Como som matinal de campanário em festa
Que no meu coração vem de longe vibrar,

Então,—luz sem egual que tudo em tôrno abrasa—
A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta,
—Raio de sol suspenso a tremer numa asa
Que um instante pairou sobranceira á tormenta.

E atrás d'essa chimera ou sonho allucinante,
Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado,
Como o condor lançando o vôo fulminante
Á presa que entreviu do píncaro escarpado.

Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga,
E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue,
Mais uma nova dor, mais uma nova chaga,
Rutilante de vivo e generoso sangue.

E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida,
Sem sobresaltos vejo os meus dias correr,
De saudades velando o entardecer da Vida,
Que o ter-se sido môço é a dor do envelhecer.

Mas occulto no meu solitário reducto,
Ao abrigo de toda a investida ou traição,
Se de fóra não vêm tempestades nem lucto,
O meu proprio soffrer enche o meu coração.

E assim, na sua noite o espirito submerso,
Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte,
Vou, com o pensamento em mil vôos disperso,
De saudade em saudade alargando o horizonte.

E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma,
Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol…
Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma,
A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol!

Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem,
Projectados ao longe, os tormentos e as dores
Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem,
Como ruinas de sonho em que brotaram flores…

Ruinas que uma luz tão serena illumina
Como se as envolvesse um luar de esquecimento;
E é tão doce a illusão, que nessa hora divina,
Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!…

A AGUIA PRISIONEIRA

A Manoel da Silva Gayo

A AGUIA PRISIONEIRA

Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo,
Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,
Da jaula hedionda a férrea porta escancarou…

A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava
Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra,
Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava,
Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.

Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,
Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia,
Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas,
Sem poder dissipar a treva que a rodeia.

E tão alto subiu no seu vôo desfeito,
Que de repente, não podendo respirar,
Sentiu que lhe estalava o coração no peito,
E veio aos pés do escravo exanime rolar…

Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,
Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,
Quando julga atingir a suprema verdade,
No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!

A SELVA ESCURA

A João Chagas

A SELVA ESCURA

Perdi-me no caminho solitario
D'uma floresta immensa e fria…
Medrosa ainda, a Noite lívida descia,
E o clarão do luar, como um pranto mortuário,
Pelas folhas das árvores corria.
No silencio da Noite, o silencio da Selva
Enchia-se de vozes enigmáticas…
E os meus pés vacillavam sobre a relva,
Entre as sombras das árvores extácticas.
Numa clareira funda, aguas dormentes,
Como um lago lunar, tremeluziam
Nas lágrimas de luz, altas e ardentes
Que das estrellas pálidas caíam.
Nem ruido de mar, folhas ou vento…
O mystério, porém, da Noite e da Floresta
Enchia de terror meu pensamento,
Como um sopro boreal que me gelava a testa.
Não sei se era visão, filha do Mêdo,
Se verdadeira apparição nocturna;
Mas da sombra profunda do arvoredo,
Que o luar tornava muito mais soturna,
Vinham surgindo mysteriosamente
Phantasmas espectraes que eu distinguia
Através do sudário transparente
Como o primeiro alvorecer do dia…
E por deante de mim todos passavam,
E olhavam-me e choravam…
De mágoa ou compaixão,—não sei dizê-lo;
Mas tudo o que aos meus olhos evocavam
Parecia-me um longo pesadelo…
Eram os Sonhos, as Chimeras mortas
Na minha morta Phantasia,
Que do vasto sepulcro abrindo as portas,
Passavam nessa funebre theoria…
Projectos, Intenções, Ideias, Planos,
—Illusões d'um passado esquecido e desfeito,
Na areia que rolou da ampulheta dos annos
E que um vento de morte espalhou no meu peito.
Era a Noiva feudal esquecida a scismar
Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,
Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar,
Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!
Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,
Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,
E tu, Willi immortal das florestas sagradas,
Loira d'olhos azues, como duas estrellas!
Era a Glória, mas já sem a tuba estridente,
Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar;
Era a Ambição, captiva a sua asa fremente,
Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar.
Era o Orgulho… o Poder… a Riqueza… loucuras,
Chimeras juvenis do meu abril risonho,
Borboletas azues, larvas escuras
Que deslisaram no meu sonho…
Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos,
Por deante de mim, lentas, passavam…
E olhavam-me e choravam,
Como espectros de longos desenganos
Que os meus olhos das trevas evocavam…
E olhavam-me e choravam,
Sumindo-se nas sombras da floresta,
Aos primeiros clarões da madrugada
Como um rumor de festa,
Despertavam, partindo em revoada,
As aves a cantar. O sol rompia
E as derradeiras névoas dissipava…
Tudo cantava e ria!
Só eu chorava… só eu chorava…
Só no meu coração não despontava o dia.
Só eu chorava… só eu chorava…
Só eu soffria…

O LIVRO DA VIDA

A Antonio de Cardiellos

O LIVRO DA VIDA

Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia…
—Lia o «Livro da Vida»,—herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;
E elle sempre,—inclinada a dorida cabeça,—
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espirito esclareça!

Cada pagina abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Elle tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os annos vão correndo;
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão…
E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,
Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!

Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que illuminou todo o caminho andado…

Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas,
Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento,
—Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas então, lamentando o seu esteril zêlo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou…

II

DYPTICO

EU E TU

DYPTICO

I

M. ***

Perguntas d'onde vem a timidez estranha,
Este quasi terror com que te fallo e escuto,
Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão d'este absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
—Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é signal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
—Se passas como um sol de planetas cercado—
Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho…
Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma intima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.

II

EU E TU

Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como
Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,—em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva
—O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva—
Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!

Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece,
—Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo,

Como partes d'um todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflamma,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma…

PALADINOS

A Senhora Condessa d'Arnoso

PALADINOS

I

CONDE D'ARNOSO, JOÃO

Como um dos seus avós, em justas e em torneios
—Paes d'Abranches, que foi dos Doze d'Inglaterra—
Com uma ancia de gloria, em altos devaneios,
Corre o mundo, de mar em mar, de terra em terra.

Não leva escudo, o moço illustre, nem couraça,
Que o tempo é vil; mas como arnez de paladino,
Leva a honra e o valor de toda a sua raça,
—Grande exemplo a apontar-lhe o mais nobre destino!

Mão na espada, a entrever combates, a alma pura,
Já bello, d'essa estranha e amarga formosura
Que o fim proximo imprime aos vencidos da Sorte,

Vae na tolda a sonhar,—sonho feito em pedaços!
—Paes d'Abranches voltou com a noiva nos braços,
Elle… voltou tambem, mas nos braços da Morte!

II

CONDE D'ARNOSO, BERNARDO

Este nunca buscou, na lucta ingloria,—fama
Ou proveito. A Ambição, mesmo a mais alta e pura,
Nunca o cegou. Jamais uma ephemera chamma
De orgulho vão tremeu na sua nobre figura!

Foi cortesão; mas da Honra e do Dever escravo.
Nunca esgar de lisonja o seu lábio manchou;
E entre vis defecções, elle só, como um bravo,
Luctou, soffreu, mas nunca o Mestre renegou!

Alma de Campeador! Num disfarce mundano,
Nunca ninguem sonhou coração mais humano,
Mais terno, e ao mesmo tempo, altivo coração!

Ultimo Cavalleiro, á hora em que morria,
No Pantheon Real, da lampada que ardia
Extinguiu-se de todo o ultimo clarão…

CABELLOS BRANCOS

A D. Thomás de Mello Breyner

CABELLOS BRANCOS

Não repares na cor dos meus cabellos
    Sem ler primeiro Anacreonte;
Verás que os sonhos juvenis, mais bellos,
Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta é sempre moço;
    O Coração nunca envelhece…
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graça adolescente,
    Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa,
    Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moça e de formosa,
Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'inédita fragrancia
    Em mãos provectas vão abrindo…
Abisag, ao sair quasi da infancia,
No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera,
    D'esse connubio, oh maravilha!
Como se a ruina fecundasse a hera,
Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,
    Quem as lembrara, se deixassem
Que mãos obscuras, mercenários dedos,
A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos!
    Mas que direi mais eloquente?
Não ha dias tão pallidos, e occasos
Como explosões d'uma cratera ardente?

Não repares na côr dos meus cabellos;
    A branda luz que nelles arde,
Como o poente, das nuvens faz castellos,
Tinge d'alva o crepusculo da tarde…

Muita vez os cabellos embranquecem
    Na dor d'horriveis soffrimentos…
Não são os annos que nos envelhecem;
«São certas horas más, certos momentos…»

SOMNAMBULA

(Noite de S. João)

A João Caetano da Silva Campos

Leia estes versos, cantando.
—Quem canta seu mal espanta!
Alma em saudades penando,
Só tem alivio se canta…

SOMNAMBULA

(Noite de S. João)

                  Passarinho trigueiro,
                  Põe-te na areia
!…

A areia é d'oiro,—painço loiro…
      Leito macio… Vê como o Rio
Vae socegado, todo enlevado,
Todo encantado na areia fina!

Passarinho trigueiro! Olha o salgueiro
      Como se inclina,
      A ver se as aguas
      Pode beijar!
E o velho choupo, todo curvado,
      Todo engelhado,
      De tantas mágoas
      Que viu passar!

Nas aguas mansas, folhas cahidas,
Como esperanças desfallecidas,
Lá vão perdidas nas aguas mansas,
      Como esperanças
      Desfallecidas…

                  Passarinho trigueiro,
                  Põe-te na areia
!…

A velha ponte talvez te conte
Lindas historias para encantar,
Lindas historias da Lua Cheia,
Quando na areia põe a corar
      O alvo linho
      Do seu tear…
Passarinho trigueiro! pia baixinho!
Ouve as cantigas, que as raparigas,
      No S. João,
Soltam ao vento como um lamento
      Do coração!

                  ……………………….
                  A vossa capella cheira,
                  Cheira ao cravo, cheira á rosa,
                  Cheira á flor da laranjeira

Laranjeira desfolhada
Numa noite de orvalhada,
No leito d'algum linhar…
Mas a alcachofra cortada
Sabe alguem se vae seccar?!

                  Passarinho trigueiro,
                  Põe-te na areia!

A areia é doce como se fosse
Vergel macio para noivar…
E dorme o Rio… praia deserta…
Cuidado! Alerta! que a Lua espreita,
Nunca se deita, sempre a rondar.

Passarinho trigueiro,

Olha a estrella do boieiro
Que nunca dorme no ceu,
A ver se do seu rebanho
Alguma rêz se perdeu…
Olha o Rio! é côr d'estanho
Como um espelho a brilhar;

Cuidado! se é muda a areia,
Pode o Rio murmurar,
E ás noites a Lua Cheia
Vem com elle conversar…

Já vae alto o sete-estrêllo,
Vae despontar a alvorada;
Mas uma voz desgarrada,
Como um grito sem appêllo,
Passa a cantar pela estrada:

«Esta noite, na novena,
S. João pôs se a chorar…
Da minha dor tinha pena,
Sem me poder consolar.

As andorinhas voltaram,
Desabrocharam as flores,
E as andorinhas contaram
Que tinhas novos amores…

Ninguem mais penas soffreu
Nem dor maior supportou;
Quem amou nunca esqueceu,
Quem esqueceu nunca amou!

Ai! infeliz de quem passa!
Ninguem seu amor escolhe,
Pois o amor é uma desgraça,
Que sem se esperar nos colhe…

Ai, infeliz de quem passa!… ……………………….»

Passarinho trigueiro,

Não ha amor como o primeiro…
Vôa, vôa sem parar!
Deixa a Lua estremunhada,
Deixa o Rio a murmurar…
O amor tem a asa ligeira,
E antes que rompa a alvorada.
Leva o ramo de oliveira
Àquella dor desgarrada!

CYSNE BRANCO

A Alberto d'Oliveira

CYSNE BRANCO

Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,
Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,
Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte,
Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.

O gêlo, no lençol todo immovel das ondas,
Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas,
Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas,
Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.

Vê que o torpor do frio o invade lentamente;
Debate-se, procura o cárcere romper;
Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente:
Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.

Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute;
Solta gritos de dor em que lhe foge a vida;
Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute,
Parece uma canção no silencio perdida…

Melodia que a voz da Saudade acompanha,
Amarga e triste como o exilio onde agoniza,
Longe do claro sol que outras paysagens banha,
Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:
—Tardes occidentaes de sanguínea e laranja,
Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas,
Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!

Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade,
Tão esbatida vae essa triste canção,
Que não desperta já commoção nem piedade:
Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.

E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira,
Hallucinado e só, sob o silencio agreste,
Pensando que no azul, como um mar de saphira,
Os astros a luzir são a geada celeste…

SÚPPLICA AO VENTO

A Luiz de Magalhães

SÚPPLICA AO VENTO

Grito ao Vento que passa a galopar na treva:
—«Escuta a minha dor!»—rouco, de braços hirtos,
A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva!

«Meus queixumes, oh Vento, hão de em ancias ouvir-t'os
Esses campos que amei, vinhas, rios suaves,
Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos,

Onde, inverno e verão, nunca emmudecem aves,
Onde nunca se extingue o murmurar das fontes,
Todo o anno a correr entre rosaes e agáves…

Vento largo, que vens d'ignotos horizontes!
No teu rugido absorve o meu grito pungente!
Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes,

Para tornar mais triste o seu gemer plangente,
Mais expressivo e humano o seu lamento amargo,
Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente!

Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo,
A ver se nelle alguem a minha voz conhece,
Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo,

Onde o Estio a cantar longos meses se esquece,
E onde o Sol não é só lampada que illumina,
Mas o Ágni creador que tudo anima e aquece!

Debalde, sobre mim, na sua graça divina,
Almas puras, abrindo a plumagem das asas,
Com o ardor que nenhuma angustia contamina,

Espalham no meu lar como um calor de brasas…
—Para fundir de todo esta geada tão densa,
Só tu, meu claro Sol, que até d'inverno abrasas!

Vento frio, que vaes da minha noite immensa,
Tenebroso e a rugir!—leva a minha Saudade,
Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa!

Quando essa luz passar, com que magua não ha de
Reflecti-la o meu rio, e acariciá-la, vendo
Que vae dos olhos meus a tenue claridade!

Mas então, Rio amado, as tuas aguas descendo
Nessa luz reflectida, a tremer como um luar,
Todo o passado irei nas tuas margens revendo,

E o coração talvez se esqueça de chorar,
Como nauta que a voz de Loreley enleva,
E para a morte vae nesse enlevo a cantar…

Vento surdo, que vaes a galopar na treva!
Pára um momento! Escuta a minha voz clamante
Vê como soffro, e ao longe esta Saudade leva!»

Mas o Vento não ouve o meu grito alarmante!
Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado,
De toda a parte vendo o meu país distante,
Como se lá tivesse os meus olhos deixado!

GOTA DE AGUA

À memoria de Antonio Rodrigues Braga

GOTA D'AGUA

Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha,
Uma gota d'orvalho, em manhã d'esplendores,
Lucitremia ao Sol numa teia d'aranha,
Como um prisma em que a Luz se decompunha em cores.

Universo em resumo, essa gemma preciosa
Que a Noite alli deixou do seu manto cair,
Continha em miniatura a paysagem radiosa
Que no alvor da manhã despertava, a sorrir.

Em que obscuro crysol, esse pranto isolado,
Crystallizou com tal pureza e resplendor?
Caiu da Lua? É um ai de luz polarizado?
Ou rolou d'um olhar num soluço de dor?

Quem sabe o seu mysterio ou sonha a sua mágoa?
Lava de desespero ou suor d'agonia;
—Orvalho ou pranto—é sempre a mesma gota d'agua,
A tremer e a brilhar no resplendor do dia…

Tenha d'odio e rancor nublado o olhar mais vivo,
Ou em fogo escaldado a face onde correu,
Ninguem vê no diamante o carvão primitivo,
Nem na água a cantar o abysmo em que nasceu.

Em breve, á luz do sol, vae em fumo desfeita,
Ser nuvem, confundir-se em cúmulos no poente,
Ou em névoa através de que a Alvorada espreita
A ultima estrella a arder, do seu balcão no Oriente.

E outra vez percorrendo os circulos da Vida,
Pranto de heroe, suor de martyr ou de santo,
De novo ha de voltar, e, de novo esquecida,
Sobre as urzes rolar, gota d'agua ou de pranto…

A VENTURA

A Anthero de Figueiredo

A VENTURA

A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos,
    Nunca, em alto lavor,
Nos meus versos deixou cariatides ou frisos
De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.

Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando
    No meu lar se installou;
A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando,
E d'amor nunca mais um só verso rimou.

Mas d'essa adoração em que vivia absorta,
    Um dia, ao despertar,
Viu que tinham levado a minha Noiva morta,
E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.

Chorou… Sempre que a dor nos empolga e sacode
    Como um arbusto ao vento,
Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode
Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.

Chorou… E desde então, a Musa dolorida
    Vive numa anciedade
A ouvir a minha dor no seu canto escondida,
Mansamente, a chorar, como chora a saudade…

ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES

A meus sobrinhos, Salvato e Ruy

ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES

Entre pinheiros e cyprestes
Fundi em lagrimas os olhos…
Onde estaes vós, almas celestes,
Que entre pinheiros e cyprestes
Em vão procuram os meus olhos?

Na terra fria aqui descansam
Os corações que tanto amei…
Mas os meus braços não alcançam
Na terra fria em que descansam
Os corações que tanto amei.

As vezes ponho o ouvido attento
A ver se os ouço ainda bater…
Mas só me fala a voz do vento,
Sempre que ponho o ouvido attento
A ver se os ouço ainda bater…

Elles que sempre e a toda a hora
Tão nobremente palpitaram…
E já nem sombra resta agora
D'elles que sempre e a toda a hora
Tão nobremente palpitaram!

Mas todo o amor, toda a bondade,
Que em vida as almas enobrece,
Torna a ser luz na immensidade,
Irradiação d'amor, bondade,
Que em vida as almas enobrece…

E nessa luz, a alma que chora
D'um brilho augusto se illumina,
Como uma esprança ou uma aurora,
Em cuja luz, a alma que chora
D'um brilho augusto se illumina…

E ao nosso olhar, d'entre cyprestes,
Estrellas novas apparecem…
Sois vós talvez, almas celestes,
D'entre pinheiros e cyprestes,
Essas estrellas que apparecem…

RIO AMARGO

A meu irmão, Julio de Castro Feijó

RIO AMARGO

A pouco e pouco a Dor, no coração do Homem,
Vae como um rio amargo escavando o seu leito,
E dia a dia, o sulco em que as mágoas se somem
Mais profundo se faz, mais escarpado e estreito.

A principio trasborda e alastra: é uma torrente!
Nada a pode conter—nem diques, nem escolhos;
Submerge o coração num tumultuar plangente,
E onda a onda rebenta em lagrimas dos olhos.

Mas o tempo transforma em profunda ravina
O leito onde mais viva a torrente passou;
A onda continua a correr nessa ruina,
Mas, de funda que vae, aos olhos se occultou.

Desde então não se escuta o bramir da tormenta,
Mas da face tranquilla e dos olhos enxutos
Ninguem inveje a paz que essa calma apparenta:
Vae cheio o coração de lagrimas e lutos!

Ditoso o Homem a quem, na primeira investida,
A Dor, como uma vaga, envolveu na ressaca,
Em vez de o arremessar, como «épave» perdida,
De soffrer em soffrer, mas que nunca se aplaca!

A Dor que mata, a Dor que d'um golpe redime,
É compassiva; o mal, que cessa, não é grande…
Mas a Dor que não pára, a Dor que nos opprime
Sem esp'rança de ver que o seu martyrio abrande,

Essa Dor, não ha som, na palavra que chora,
Para a exprimir; é a Dor que mil dores condensa:
Trazer a Morte em nós, senti-la a toda a hora,
E viver! E viver no horror d'essa presença!

Onde o peito de heroe, onde o animo forte
Para uma dor egual sem revolta afrontar,
Tendo a pesar sobre elle a mão fria da Morte?
E sem poder fugir! e sem poder luctar!

Só o Homem que espera em Deus, martyr ou santo,
Pode um supplicio tal resignado soffrer,
Com o labio a sorrir, com os olhos sem pranto,
Mas a angustia no olhar, mas a boca a gemer…

Só esse a quem a Graça illuminou, na etherea
Luz immortal d'estrella ignota alvorecida,
Pressente da Alma Humana o Infinito e a Miseria
Na eterna expiação d'este peccado—a Vida!

III

HYMNO Á VIDA

A Agostinho de Campos

HYMNO Á VIDA

Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga
Preso a ti, como o feto ao seio em que germina…
Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga,
Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio,
Quem quer que sejas,—flôr d'inefavel deleite,
D'ódio ou de fel,—és sempre o mesmo augusto seio
Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho!
—Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,—
Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho,
O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes,
Na immarcessivel luz que os orbes incendeia;
Passas no largo vento a derramar perfumes,
Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica,
Enleva os corações de jubilo e transporte,
Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica,
Se em Belleza sorri na máscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve,
Mais obscuro se faz quanto mais o investigo;
—Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve,
Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem,
O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça,
Da treva apenas sae, dissipada a vertigem,
Um immenso clamor que blasphema e soluça!

És o raio de sol, a tempestade e o vento;
Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada;
Ancia no coração, lava no pensamento,
O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,—és Tudo e és Nada!

Mão potente, que a rocha endurecida escarva,
Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores;
Fada occulta que tece o casulo da larva
E aos insectos iria as asas de esplendores…

Beijo d'onde a traição como um veneno escorre;
Riso que se desfaz num amargo travor;
Larga estrada sem fim que a Ventura percorre,
Como um cego a cantar pelo braço da Dor!

Quem quer que sejas,—tudo ou nada,—eu te bemdigo!
Pelo esforço immortal da tua heroica belleza,
Que, no revolto chão do soffrimento antigo,
Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse,
Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos,
A onda humana através da historia se lançasse,
Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo!
Occulto coração, graça, illusão suprema!
Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo,
—A solução que importa? O que é grande é o problema!…

HYMNO Á BELLEZA

A Eugenio de Castro

HYMNO Á BELLEZA

Onde quer que o fulgor da tua gloria appareça,
—Obra de genio, flôr d'heroismo ou sanctidade,—
Da Gioconda immortal na radiosa cabeça,
Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

—Como um pagão subindo á Acropole sagrada,
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
Ou seja o Heroe que leva uma aurora na Espada,
Ou o Sancto beijando as chagas do Leproso.

Essa luz sem egual com que sempre illuminas
Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio
Do mesmo foco em mil parábolas divinas:
—Raios do mesmo olhar, ancias do mesmo seio.

Alta revelação que, baixando em segredo,
O prisma humano quebra em angulos dispersos,
Como a água a caír de rochedo em rochedo
Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

É audácia no Heroe; resignação no Sancto;
Som e Côr, ondulando em formas immortaes;
No mármore rebelde abre em folhas de acantho,
E esmalta de candura a flora dos vitraes.

Oh Belleza! Oh Belleza! as Horas fugitivas
Passam deante de ti, aladas como sonhos…
Que importa onde ellas vão, d'outra força captivas,
Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente,
Brilham as aves como estrellas, e as estrellas,
Como flores enchendo a noite refulgente,
Deixam-se resvalar sobre quem vae colhê-las…

És tu que ás illusões dás juventude e forma,
Tu, que talvez do ceu, d'onde vens, te recordes
Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma
Dissonáncias de dor em immortaes accordes.

Vejo-te muita vez,—luz d'aurora ou de raio,—
Com um gládio de fogo a avançar no horizonte;
Ou então, em manhãs transparentes de maio,
Naiade toda nua a fugir d'uma fonte.

Outras vezes, de noite e a occultas, appareces,
Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,
Trazendo no regaço inexgotaveis messes,
Que Elle por tuas mãos sobre a miseria espalha…

Podesse eu revelar-te em estrophes aladas,
Que partissem ao sol refulgindo em lavores,
Com rimas d'oiro, em blau e purpura engastadas,
Como versos que vão desabrochando em flores!

Mas a lingua não é sumptuosa bastante
Para nella deixar teu génio circumscripto;
Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,
E a voz nem mesmo tem a eloquencia d'um grito!

Mas se para o teu culto, em esplendor externo,
Não encontro uma prece altamente expressiva,
Por ti meu coração arde d'um fogo eterno,
Como chamma a tremer de lampada votiva!

HYMNO Á DOR

Aos Condes de Sabugosa

HYMNO Á DOR

Sorri com mais doçura a boca de quem soffre,
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar, onde como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não ha para nós consolação mais doce,
Que o regaço de quem muito amou e soffreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua,
Ao nosso coração nunca pode chegar…
Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime
Uma augusta expressão… mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna immorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.

HYMNO Á ALEGRIA

A Carlos Malheiro Dias

HYMNO Á ALEGRIA

Tenho-a visto passar, cantando, á minha porta,
E ás vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se á minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quasi meiga, apesar do seu riso constante,
D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos,
A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante…

Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o sol d'inverno um brilho encantador;
Mas o brilho é fugaz,—scintilla na penumbra,
Sem que d'elle irradie um facho creador.

Quando menos se espera, irrompe d'improviso;
Mas foge-nos tambem com uma presteza egual;
E d'ella apenas fica um pállido sorriso
Traduzindo o desdem d'uma illusão banal.

Onda mansa que só á superficie corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda!

No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza!

Pensar, é certo, eleva o espirito mais alto;
Soffrer torna melhor o coração; depura
Como um crysol: a chispa irrompe do basalto,
Sae o oiro em fusão da escoria mais impura.

A Alegria é fallaz; só quem soffre não erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve;
A Alma, na oração, desprende-se da terra;
Jamais o homem é vão deante de Deus que o ouve!

E comtudo,—illusão!—basta que ella sorria,
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como ébrios, Evohé! atrás d'ella a cantar!

Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

Ás vezes, essa luz de tão fragil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um iris de paz numa névoa de pranto,
Crepitação, fulgor d'uma estrella perdida.

Então, no resplendor d'essa aurora bemdita,
Toma corpo a illusão, e sem áncias, sem penas,
O espirito remoça, o coração palpita,
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

Mas ephémera ou vã, a Alegria… que importa?
Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, echôa á nossa porta,
Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

Momentánea ou fallaz, é sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer…
Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno!
Momentáneo, fallaz encanto de viver!

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental lingua que nós falamos,
Só a Dor e a Paixão têm accordes sublimes!

HYMNO Á SOLIDÃO

Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima

Vive ut vis, sed cum aegrotabis
Justis lachrymis damnabis
Omnes mundi insulas.
O beata solitudo,
O sola beatitudo,
Piis secessicolis!

Cornelius, Martyr.

HYMNO Á SOLIDÃO

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existencias povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
—Sonhos puros que nelle em belleza revoam
E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vae germinar na Palavra,
Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso creador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que elle se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou,
E em cuja creação o seu sangue palpita,
Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.

Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades
Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora…
O passado e o porvir são ancias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não attinge,
Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge,
E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, innundando essa penumbra dôce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação d'um ser divino fôsse,
Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguem para ouvir um coração que bate?
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nelle em ancias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella,
Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo…

E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a esculptura,
O mármore recebe a sua alma—a Belleza.

Se soffrer é pensar, na paz do isolamento,
Como d'um calix cheio o liquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio,
Á superficie nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza accumulada nella.

Corações que a Existencia em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrae do minério candente,
No silencio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente…