XXXI

A VALLA

Trazei mortos á valla; a hydra está com fome
E deve ser-lhe longa a hora em que não come!
Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver,
Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
A amargura cruel da bocca desdentada
Que pede de comer!

Lançae ao monstro informe algum repasto novo!
Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo.
Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
E visto haver na fera abysmos insondaveis
Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis
Que morrem sem lençol!

Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
A preza que lhe inveja a gula dos chacaes.
Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
Da triste procissão cruel e dolorosa
Que vem dos hospitaes.

Um velho esquife chega: em duas taboas toscas
Um pobre semi-nú coberto já de moscas,
N'um riso deixa ver não sei que tons crueis!
Emquanto nos sorria a luz das noites bellas,
Talvez que elle varresse a lama das viellas
E o lixo dos bordeis!…

E poude, em fim, dormir no seio bom da morte!
Apoz, como se fôra a livida consorte
D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem,
Trazendo por sudario os seus vestidos rotos,
Uma triste mulher caída nos esgotos
Sem bençãos de ninguem!

Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
Reune-os em consorcio e dá-os de presente
Á larva que partilha as ancias do teu ser!
Aguça o teu desejo!—A garra infecta lança
Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança
Que a mãe te vem trazer!

Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado
A fila tenebrosa! O espectro do soldado
A par do que vergou cançado de cavar:
E o mineiro sem luz, o martyr legendario;
E amparando-se a custo ao velho proletario
A flôr do lupanar!

Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
Bem vês que vem chegando um corpo de donzella
Que pela candidez recorda uma vestal!
Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco
E traz viçoso ainda um grande lyrio branco
No seio virginal!

Ó monstro sensual na sombra tripudia!
Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim!
N'um beijo os labios colla á frigida epiderme
E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
Que viva e gose emfim!

Eu quero ver-te farta, em halitos profundos,
Dormindo o somno vil dos animaes imundos,
De ventre para o ar; serpente infecta e má!
E ámanhã, na estação dos candidos amores,
Veremos rebentar n'um tapete de flôres
O lixo que em ti ha!

E a santa mocidade; as languidas mulheres;
Virão depois colher os gratos malmequeres,
Pizando-te sem medo e cheias de desdem,
Em danças sensuaes; o fato em desalinho;
Compondo-te canções; regando-te de vinho;
Sem pena de ninguem!

E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha;
Que não mostras pudor; que não sentes vergonha;
Que és a campa-monturo e não pódes ser mais;
Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas,
Terás dado um perfume ás almas namoradas,
E pasto aos animaes!

XXXII

Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos,
Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes,
N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes.
Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;

Que bom que era sonhar nos pallidos castellos,
Á noite, á beira mar, nas solidões distantes,
Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes
Á lua confiava os intimos anhelos!…

Agora sois gentis, despepticas, vistosas;
Pagaes por alto preço as exquisitas rosas;
Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;

Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
Emquanto cae na rua a somnolenta chuva,
Scismaes no Deus-Milhão,—no Creador da moda!

XXXIII

Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas
D'uma rosa de fogo aonde vão libar,
O mel das illusões, quaes timidas abelhas,
Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar.

Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo,
Tocado pelo sol, em mim poude nascer
Este bando cruel que dentro do meu craneo
Não faz ha muito já senão roer, roer?!

Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas;
Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos;
E volta a demolir as trémulas ruinas
Do templo onde crepita a luz dos dias meus!

Ó grande flôr suave! e n'isto se resume
A constante batalha, o sempiterno afan!
Aspira a minha essencia ao teu grato perfume;
Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã!

Oh, volvamos á terra; aos placidos logares,
Aonde os hymeneus fecundos e reaes,
Produzem, dia a dia, os fetos singulares
E as sãs vegetações dos candidos rozaes!

E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases
D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos,
Nas grandes expansões dos fugitivos gazes
Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus.

Forçoso é separar os dois rivaes antigos,
Na batalha cruel que em nós se reproduz.
Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos;
Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz!

XXXIV

NOS CAMPOS

A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
O mundo era um altar; as serras grandes aras;
E os canticos da paz corriam nas searas
Em honra do bom Deus.

No solemne silencio immersa ia minha alma
Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
Que sente germinar os frescos vegetaes.
De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
Detive-me um momento; olhei:—era o viatico!
De noite a horas taes,

Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
Trazido pela mão d'um padre sem batina
Roubado ás sensações d'um longo resonar?
Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
Movia-se a rezar.

Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
Um pobre cavador, mordido pela febre,
Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
Tentavam-se esconder na velha saia rota
Da mãe louca de dôr!

A voz do sacerdote a custo resoava.
A palavra d'amor que ali se precisava,
Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
Falava o Deus severo e forte dos castigos,
Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
Um dia ajoelhou?

Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
Latiam tristemente em volta do cazal:
E o levita lançava áquella noite escura
A benção derradeira, erguendo a mão segura,
N'um gesto machinal!

Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
Sahia sem deixar da sãa verdade humana
O balsamo suave, o dom consolador!
Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
Sósinha a mesma dôr!

Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
Havia aquelle albergue apenas solitario,
E frio o pobre lar!

E o rude agonisante, o triste moribundo
Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
Talvez ao presentir o fim da insana lida
Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
E contra nós tambem!

E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
Se batem contra os reis!

Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
Que sagram toda a vida aos ideaes severos
Da justiça e do bem; caíndo com valor,
Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
Varados pela dor!

Ó pobres multidões! as grandes noites frias
Não cessam de morder, famintas e sombrias,
N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
As petalas de luz!

Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
E vejo dia a dia a despontar mais puro
O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
Recordo-me que sois a productiva leiva
Aonde já circula uma opulenta seiva,
De grandes creações!

XXXV

O ULTIMO D. JUAN

D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
Podiam-vos contar as violações brutaes!
A gula com que morde as mais sagradas cousas
D'horror faz recuar os trémulos chacaes.

Não descanta á viola, á noite, os seus enleios:
Elle vive na sombra e eu sei também que vós,
Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios,
Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.

Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
As monjas virginaes, uns pudicos dragões;
Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
E ás noites de luar os vossos corações;

Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
Nas grandes solidões irá dormir comvosco,
Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!

E o que elle adora muito ó virgens romanescas
Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal:
Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
Deixando o resto a vós damnados do ideal!

Não vive como nós de candidas mentiras:
Não communga do amor esse illuzorio pão:
Devora com fervor as pallidas Elviras
E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
Maior do que o dos reis; adora as solidões:
Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro;
Mas vive como os reis das grandes corrupções!

Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
Do velho D. Juan, feroz conquistador,
A quem da vossa bocca um halito divino,
Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

Mas que um dia virá, na candida epiderme,
Na sagrada nudez dos collos virginaes,
Em hymnos de triumpho—o grande Cezar-Verme!—
Colher o que ficou de tantos ideaes!

XXXVI

Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
A aérea multidão de fadas quebradiças,
Gentis apparições dos bailes e das missas,
Desliza no fulgor das pompas seductoras.

No arfar da cazimira ha frases tentadoras
E maciezas taes nas languidas pelliças,
Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças,
Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!

E muitos hão de ter uns extasis divinos
Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos,
A vaga introducção d'uma balada aerea;

Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
Se escuta, a martellar na sua barricada,
Sinistra rota e fria, a livida Miseria.

XXXVII

ANTIGO THEMA

Passae larvas gentis na rua da cidade
Aonde se atropella a turba folgazã;
A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade
Mas o tedio mortal precisa a claridade
Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!

Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas
D'um corrompido mar as Deusas menos vis!
Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas,
E vindes pela rua enlamear as azas,
Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

A pallida Miseria em seu triste cortejo
Precisa as contracções de muitos hombros nús:
E vós ides sorrindo ao lubrico desejo,
Do carro da desgraça arremessando um beijo
Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

Embora! caminhae deixando um grande rasto
D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes:
E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro;
Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro
Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme,
E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés!
A grande multidão,—a vaga, a onda enorme,
Que oscilla sem cessar, e gira multiforme
Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina,
Adore a immensa luz, em vós, constellações,
Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina,
Vagando no rumor da aérea musselina,
Em plena bacchanal fingindo de vizões?

Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia
De tedios se consome e sente febres más!
Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia
Que exhala aquella flôr que vem na decadencia
E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

Do seculo a voz rude apenas diz—trabalha!—
Ao poste vil amarra o lubrico ideal
Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha
Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha
Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!

XXXVIII

A MÃE

Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto
Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr,
Que vem d'Eva a Maria—a doce mãe de Christo—
Formando a stalactite immensa d'uma dôr!

Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel
Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes,
Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel,
Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes!

A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia,
Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
Com elles repartis a vossa parca ceia;
E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

D'inverno quasi sempre as noites são mordentes.
Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem:
Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes,
Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe!

Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia
A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
Podeis então dormir um tanto mais feliz.

Mulher quanto é suave e longo esse poema
Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel,
Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
A pallida mulher que rompe a multidão,
Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola
Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir:
E a ella qualquer codea a farta e a consola
Comtanto que sem fome os filhos vão dormir!

E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira
No fumo dos festins revoa em turbilhão,
Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
Do palacio á cabana o vosso doce olhar,
Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
D'um raio creador o berço a illuminar!

No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo,
Da moda traja agora os novos ouropeis,
E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias,
Se aquella santa flôr das grandes commoções,
Apenas tem logar nas vossas elegancias.
Como um enfeite de mimo amado nos salões;

Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
Sonhando a sagração dos heroismos novos,
Resplendente de luz; vistosa de metaes:

Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem
Por entre a saudação das alas cortezãs,
Levando as seducções da vossa doce imagem
Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
Palpita ingenuo e bom na paz da solidão,
E o vosso amor levae á opera e ao passeio
A fim de que elle arranque um bravo á multidão!

E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
Maior do que nenhum podemos encontrar,
Intenta seduzir pela medalha d'ouro
Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!

XXXIX

Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas
Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!…
Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas;
Dá saudades á lua.

Um beijo em cada estrella!… Espera que eu sou louco!
Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos!
Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco:
Boas noites adeus!

XL

SANTA SIMPLICIDADE

Na serena missão de paz que tu cumpriste
Ó suave Jesus, ó doce galileu,
Que santa singeleza e que perfume triste
Do teu casto perfil no mundo rescendeu!

Havia no teu verbo aquella unção divina
Que a velha harpa de Job soltou nas solidões,
E o bello, o puro sol da antiga Palestina
Suave contornou, de luz, tuas feições!

Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores
Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé,
E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
Sentado nos portaes da pobre Nazareth.

Da tua Galiléa os valles percorrias
Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar,
E o grande olhar suave e terno das judias
Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!

E mais simples na morte, apenas a tua alma
Transpunha as regiões purissimas do sol,
Tu que havias colhido a immorredoura palma
Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!

Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto
Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis,
Os que se dizem ser apostolos de Christo
Não precisam trajar os infimos bureis.

Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos
Envoltos na estamenha, apedrejados, sós,
Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
Convertendo o gentio ao som da sua voz.

Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
Dos palacios reaes, nas grandes recepções,
E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!

Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
Afim d'honrar melhor a primitiva fé,
Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
Polvilham-se melhor os homens da libré!

E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
Fataes scintillações de vinhos e rubins,
Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
Lampejos de cristaes, insidias de setins!

Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
Façam peso de mais na barca do Senhor,
Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
Mal podem segurar o leme salvador!

Por isso quando avisto o espaço que negreja
E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã
Do fendido baixel da tua velha Egreja
Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!

XLI

O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
Descançam no torpor d'um mundo corrompido.

No puro céo christão, de estrellas revestido,
No entanto ha muito já que chora e que trabalha,
Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado
E senta-te, mulher, no throno abandonado
Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

Depois inda maior, mais pura e mais serena,
No sangue de Jesus molhando a tua penna
Explica a nova lei no fim dos evangelhos!

XLII

OS PALHAÇOS

Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
Eu gosto do vossês,
Por que amo as expansões dos grandes rizos francos
E os gestos d'entremez,

E prezo, sobretudo, as grandes ironias
Das farças joviaes,
Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias,
Á turba arremeçaes!

Alegres histriões dos circos e das praças,
Oh, sim, gosto de os ver
Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças
Do povo enlouquecer,

Ungidos para a luta heroica, descambada,
De giz e de carmim,
Nas mimicas sem par, heroes da bofetada,
Titães do trampolim!

Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico
Por entre as saudações
Da turba que festeja o semi-deos elastico
Nas grandes ascenções,

E no curso veloz, vertiginoso, aerio,
Fazei por disparar
Na face trivial do mundo egoista e serio
A gargalhada alvar!

Depois mais perto ainda, a voltear no espaço,
Pregae-lhe, se podeis,
Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços
Lusentes como reis!

Eu rio sempre ao ver aquella magestade,
Os tragicos desdens,
Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade,
A troco d'uns vintens!

Mas rio ainda mais dos histriões burguezes
Cobertos d'ouropeis
Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
A serio os seus papeis.

São elles, almas vãs, consciencias rebocadas,
Que, em fim, merecem mais
O comentario atroz das rijas gargalhadas
Que ás vezes disparaes!

Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
Nas comicas funcções,
Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
De riso as multidões!

E eu que amo as expansões dos grandes risos francos
E os gestos d'entremez,
Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos,
Eu gosto de vossês!

XLIII

A HYDRA

Ha muito que desceu das orientaes montanhas
A hydra singular que espalha nas ardencias
D'uma luta febril scintillações estranhas!

Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
E corre descrevendo em giros caprichosos
Na leiva popular um indefinido traço.

Prefere aos antros vis os focos luminosos
E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

Passou pelo paiz da candida Utopia:
Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
E sem temer sequer a lugubre vizeira
Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
Trataram d'acender a livida fogueira.

E ao galope lançando os esquadrões cerrados
Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
A cumplice fatal dos lividos Pecados!

Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
Derrama cada vez mais bellos e fecundos
Os intensos clarões da lucida pupilla,

E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
Os despotas crueis, acolhem com desdem,
A hydra immensa—a Idéa—a farejar nos mundos
Ainda a garra adunca afia contra alguem!

XLIV

OS NOVOS LEVIATHÃS

Dos antigos Titães, o mar,—fera indomavel,
Agora verga o dorso ao peso colossal
Dos novos leviathãs que em bando formidavel,
Nas grandes explosões da colera insondavel,
Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!

Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
Em halitos de fogo, á nossa voz fieis,
E como o combatente erguendo a lança a prumo,
Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo
Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!

Que sopro creador, que força omnipotente
Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
Ó novos leviathãs provindes tão somente
Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!

Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
E as sereias gentis não fazem como d'antes,
Ao som da sua voz, perder os navegantes;
O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

Ó alma antiga dorme inerte no regaço
Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador
Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço
Outra alma inda mais larga,—o novo Deus-Vapor!

XLV

Sua alteza real o pequenino infante
Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira:
Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira
Que sua alteza vinha á diversão galante!

Ó vergontea gentil! quando um tropel distante
De subito acordar os echos da clareira
E uma preza cansada, em rolos de poeira,
Varada, a vossos pés, caír agonisante,

Acercai-vos então da pobre fera exangue
Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue
Sem que um grito de dó nos corações acorde!

No entanto não fiqueis na doce gloria absorto:
O velho javali parece ás vezes morto
Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

XLVI

VERSOS A *

Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
O triste sonhador que o teu olhar cantou,
E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
Fugir como o luar d'um astro que expirou!

Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
E tempo é já, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido
E só da vida sae depois de me roubar!

Eu devera amarral-o á braga do forçado,
Como a Justiça faz aos despreziveis réos,
E lançal-o depois á valla do passado
Aonde o fulminasse a colera dos céos.

Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos
Ao som d'uma canção das quadras juvenis,
E amortalhar depois—em doces pensamentos—
No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando elle seguir ás regiões saudosas,
Aonde todos nós iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

Ninguem profanará seus restos adorados,
Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;
E quando alguma vez já hirtos, regelados,
Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;

Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,
E não te escutarei… porque também morri!

XLVII

Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
Formando os batalhões da bellica avançada!

E o trajo em desalinho, a face illuminada,
Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
Que separam de nós os braços justiceiros
Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.

Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa.
Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta,
Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos;
Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos
Como fios de luz, ao manto da Justiça!

FIM.

APPENDICE

Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.

O autor das Radiações da Noite, intenta sobretudo mostrar que o seu espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se, tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas acções do nosso tempo. Das Radiações da Noite á Alma Nova poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae seguindo a arte contemporanea.

Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á individualidade litteraria do autor das Radiações.

Guilherme d'Azevedo

TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA

a preposito das

RADIAÇÕES DA NOITE

do sr.

Guilherme d'Azevedo

O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado. No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.

Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um deslustre aos olhos da historia?

Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia, cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva, social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado, individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente. Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.

Ainda ha muita gente que sente, chora, crê, e aspira, á maneira dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem, historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é já como então, um convencimento violento dos direitos da propria loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se criam os verdadeiros poetas.

Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo phantastico da sentimentalidade d'outr'ora, em face d'uma sociedade, que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões, uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se acabassem de fazer uma acção má.

E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.

Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas, das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva e social? Será um ser poetico o homem do nosso tempo?

Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente, d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo; que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém.

E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal, não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos luminosos da rasão.

Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções, que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.

Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E, sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações, os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.

Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança n'um melhor futuro.

Anthero de Quental.

NOTA

Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63, devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.

INDICE

INDICE

I—Eu poucas vezes canto os casos melancolicos
II—Eu vi passar além vogando sobre os mares
III—Velha farça
IV—Graça posthuma
V—Historia simples
VI—A meza do festim cercada de formosas
VII—Os sonhos mortos
VIII—Falta a ordem
IX—Ó lyrios da cidade, ó corações doentes
X—Miseria santa
XI—Astro da rua
XII—Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
XIII—As victimas
XIV—Evocacas
XV—Boas noites, coveiro, a tua enxada
XVI—Flor da moda
XVII—Ó machinas febris, eu sinto a cada passo
XVIII—A Christo
XIX—Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o
XX—O grande templo
XXI—A um certo homem
XXII—Á hora do silencio
XXIII—Eu quizera depois das lutas acabadas
XXIV—O velho cão
XXV—As velhitas
XXVI—As vizões
XXVII—Melancolias d'outono! eu quando além descubro
XXVIII—O velho mundo
XXIX—Eis a velha cidade, a cortezã devassa
XXX—Á noite
XXXI—A valla
XXXII—Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos
XXXIII—Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas
XXXIV—Nos campos
XXXV—O ultimo D. Juan
XXXVI—Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
XXXVII—Antigo thema
XXXVIII—A mãe
XXXIX—Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas
XL—Santa simplicidade
XLI—O velho Olimpo dorme o bom somno profundo
XLII—Os palhaços
XLIII—A hydra
XLIV—Os novos leviathãs
XLV—Sua alteza real o pequenino infante
XLVI—Versos a *
XLVII—O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
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