Por donde voy me sigue como memoria
tierna
tu imagen que en mi pecho
conduzco en un altar;
¡y mi cerebro canta como una estrofa
eterna
el coro que tus árboles entonan á la mar!
Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã
aldeã, quando o sol começa a subir na linha ainda
indecisa do
horisonte:
A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim,
e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o
ceu em cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava
harmonias
estranhas que iam despertar tudo, a côr da paizagem e a
musica dos ninhos,
cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos.
Manhã de
verão, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um
movimento extraordinario de azas—passarada alegre que saía
agora dos ninhos e voava a
matar a sede á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam
as suas
casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos
convísinhos onde
a vegetação era mais rica de seivas e mais facil
a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte,
tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques
verdejantes, gente em
mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos,
viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
taleigos, e berrando-lhes cada
cho! que se ouvia
na outra ladeira.
Já
nas povoações proximas, sinos chamavam para a
missa
de alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os
tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando
rompeu, solemne e
triumphante no ceu immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda
a Natureza
accordada para a labuta interminavel do dia.»
«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr.
Paulhan sobre a descripção pittoresca,
então
habilmente apreciados os elementos constitutivos da pintura do meio, em
todas as suas maneiras diversas na
qualidade e na intensidade.
«Chama-se imaginação
sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo
qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta
representação, como tem sido ha bastante tempo
notada, não
é,—principalmente se considerarmos só certas
classes de
imagens,—senão uma copia enfraquecida d'uma
sensação. Por exemplo, se eu
trato de me representar um momento, um quadro, uma estatua, qualquer
coisa que imagino, se as minhas recordações
são bastante
nitidas, é uma especie de copia enfraquecida da
sensação que eu terei, se vi
realmente o monumento, o quadro ou a estatua. A
imaginação, tomada
até no sentido restricto que lhe damos aqui, varia muito
d'uma pessoa para outra, quer em intensidade, quer em qualidade. Por um
lado, certas pessoas teem as imagens, as
representações muito mais
enfraquecidas, mais vivas, mais concretas; em uma palavra, as suas
imagens approximam-se muito da sensação; outras,
pelo contrario, são
inclinadas para as idéas abstractas e teem necessidade d'um
esforço para se
representarem as sensações d'uma maneira um pouco
nitidas. Tem-se
reparado que a visão mental, nitidissima em geral nas
creanças e nas mulheres,
torna-se muito fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas
sobretudo de ideias abstractas, ou habituadas a não exercer
a sua
imaginação visual. Eis uma pequena experiencia
indicada por Wundt, que, mostrando as analogias entre a imagem e a
sensação,
parece
pôr em relevo tambem as differenças individuaes
com relação
á intensidade com que a imagem concreta é
percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por
algum tempo n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma
superficie parda, vemos uma mancha corada da côr complementar
da primeira. Se o
objecto era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente;
se o
objecto azul indigo, a mancha será amarella, etc. Ora
é
possivel, mas isto não succede a toda a gente, perceber esta
côr complementar
não só depois de ter fixado um objecto corado,
mas simplesmente depois de o ter imaginado. Póde-se, por
exemplo, pensar n'uma cruz vermelha:
lançando em seguida os olhos para um papel pardo, deve-se
ver uma cruz verde, se ha
uma boa imaginação visual.»
«Essa imaginação parece tel-a o sr.
Trindade Coelho. A vivacidade, tonificada quiçá
por um poucochinho de nostalgia,
do seu descriptivo, que nos dá conjunctamente a
impressão da forma,
da côr, do som, e até ás vezes do
aroma, representa um phenomeno especial de
evocação sensacional. E o maior encanto da sua
obra é esse, e, depois
d'esse, a intima satisfação que faz aflorar, aos
labios do
leitor inteligente, um sorriso de doce commoção,
a cada singelo episodio
das suas narrativas, todas frescas e sadias, e cujo menor merito
não
é, decerto, o de serem escriptas n'uma linguagem airosa e
despreoccupada, mas tersa e legitimamente portugueza.
O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser
sujeito a longas analyses introspectivas, o papel da critica perante
Os meus amores
é bem facil, porque ella deve quasi cingir-se á
affirmação do seu applauso incondicional, ou ao
registo da repulsão do processo do
escriptor, o que póde muito bem representar uma livre
depravação de gosto.
Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel
recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas
bellas novellas rusticas, todas impregnadas d'uma ideal
graça campesina,
tilintando d'um ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre
mansamente por entre margens baixas, bordadas de sécias e
papoilas: e, para a
minha sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o
livro e o caso do
Sultão.—
Armando
da Silva.»
Tim Tim Por Tim Tim:—«Um
grande poder
d'observação e uma enorme justeza
d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes
qualidades litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma
de verdadeiro artista, aberta á comprehensão
ampla
da natureza, e fundindo os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um
conjuncto nitido que se desata em descripções
opulentas de vida e de
calor, fulgurantes d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o
melhor crystal de Veneza não teria reflectido tão
bem, avigoradas
em onomatopeias possantes que prendem o espirito mais inculto e o
obrigam, alli, a
fixar e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar.
E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que
compõem
Os meus amores,
realçadas ainda pela
fina emotividade que o delicado sentir do auctor transmittiu a cada
scena onde o
coração tem parte, ou seja o
coração de qualquer d'aquelles
dois pequenos do
Idylio rustico, ou o da
Russa,
a bella cabra que
no meio de mil angustias
de mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a
elle proprio, a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta,
viva e sentida,
vejam o affecto que irradia d'aquelle
Para a escola,
quando falla da
velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras.
Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das
descripções naturaes, que mais o apaixonam,
Trindade Coelho desce a brincar um pedaço caricaturando uns
typos com tanta sobriedade de
charge que mais nos parece estar fazendo retratos,
saem-nos
então
figurões como os da villoria da
Comedia na
provincia, que
entreteem a tarde na
praça a dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro
nos
croquis como
nos habitos. E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes,
aquella
Vespera da festa exemplifica
vantajosamente o que elle sabe
fazer.
No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das
Batalhas
domesticas, onde me pareceu descobrir uma novissima
orientação do auctor, inspirada porventura n'uma
atmosphera densa
d'innovações que vae por ahi. Claro que o seu
talento adapta-se mais essa fórma
com a malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma.
O que o livro é, em summa, é um conjuncto de
bellezas que tem sido largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e
oxalá seja
apenas a promessa de muitos outros, que pennas como aquella
não devem
calotear-nos na contribuição que nos devem.
—Mas,—perguntou-me um dia d'estes alguem—porque
Os meus
amores, e
não qualquer outro titulo?
Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho
esse nome ao livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe
são
saudosos e em que lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de
rapaz que nenhuma lama d'este mundo é capaz de
conspurcar.—
Santos
Gonçalves.»
Revolução de
Setembro:—«
Os meus
amores, contos e balladas por Trindade Coelho.—Um livro
peregrino,
que se lê com encanto e
que nunca mais se esquece. É um talento e é um
artista quem
escreve assim. Uns contos singelos, attrahentes, delicadissimos,
admiraveis de
observação e de honesto realismo. Esbocetos
apenas; mas que admiravel simplicidade
de colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade!
Uma bella obra d'arte e uma altiva lição.
Alli está como se póde chegar ao naturalismo na
litteratura, sem estropear a lingua e sem chegar ás torpezas
da pornographia.
Para attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do
seu
talento, para conquistar o applauso sincero dos que lêem,
Trindade
Coelho não precisou de escrever
extravagancias, nem de
escalavrar pustulas, nem de
escancarar bordeis.
Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar
d'elle, se o tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao
seu
auctor.»
Correio Elvense:—«
Os
meus amores.—Com
poucos dias
d'intervallo as lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de
livraria.
Depois de apreciar o
Barão de Lavos,
obra de analyse, de
profunda observação, resentida do exaggero do
naturalismo
e do caracter quasi scientifico que actualmente se pretende imprimir
aos livros, que devem ser exclusivamente litterarios, mas que,
não obstante este
pequeno senão, confirmou plenamente todas as
esperanças
que o nome de Abel Botelho creára com os seus livros
anteriores, a critica tem
de render respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo
como aquelle
e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu
espirito, pela sua notavel orientação litteraria
e pelo
esplendor de fórma que caracteriza todos os seus escriptos,
mesmo os mais despreoccupadamente feitos.
Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas
linhas. Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que
se
reconfortam os que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na
faina improductiva e ingloria do jornal.
Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem
intimas relações de confraternidade e sympathia e
ao ter de formular o meu juizo conheço que posso manifestar
o mais incondicional
louvor e applauso sem que se suspeite que as minhas palavras
são
reflexo d'um sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta
e verdadeira
d'uma admiração justamente sentida, solidamente
baseada.
O livro a que me refiro intitula-se:
Os meus amores.
E em tudo
corresponde ao encanto d'este titulo.
Com que saudade li as ultimas paginas!
Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o
delicado prazer que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar
a naturalidade das descripções, a limpidez e o
crystallino do
estylo emocionante e simples, tão delicado e ao mesmo tempo
tão
poderoso que dá vida aos mais diversos sentimentos desde o
pavor do remorso do assassino
José Gaio, até á
recordação saudosa e
terna que o auctor sente do primeiro dia em que entrou na aula
d'instrução primaria da sua
modesta aldeia.
Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram
Os meus amores, não vou referir-me
demorada e
especialmente a cada
um dos pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente
consolador. Na epoca actual quando os vicios da sociedade e a
decadencia dos nossos dias nos gravam no espirito, a cada hora, um
carimbo de desanimo e descrença, quando a litteratura,
obedecendo á
vertigem mais do que nervosa,
allucinada, que caracterisa o
fin de
siècle, cria
as escolas mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as
ideias, em apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora
consagradas
da arte, e em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas
mais escuras
e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo,
desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem
sobeja talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa
sã,
eminentemente sentida, deliciando-se na
descripção das scenas
mais simples e tocantes, na apotheose da natureza em toda a sua
magnificencia e no
convívio da vida campesina, tão cheia de
sinceridade e de encantos,
tão livre das convenções e
pretenciosidades que dão
um tom falso e mentido aos sentimentos da sociedade em que vivemos.
Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de
perfeições de cada um dos contos e balladas que
formam
Os meus amores. Não
representa este proposito ideia de menos
consideração pelo livro
ou por quem com tanto amor o escreveu. Ao contrario, sinto que
não posso, a
não transformar este artigo n'um hymno laudatorio,
referir-me especialmente a cada um d'aquelles contos e balladas. Mais
do que este motivo domina-me o de
não poder alongar demasiadamente a
apreciação que
estou fazendo.
Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro
já as haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas
em differentes jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso
estylista dos
Meus amores pelos seus trabalhos
jornalisticos,
já na
bohemia coimbrã, já em pequenas folhas de
provincia e ultimamente nos jornaes
da capital, trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a
correcção que nunca abandonam os verdadeiros
artistas.
Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a
opinião de que elle se podia alistar sem desdouro ao lado do
Conde de Ficalho, de Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no
meu parecer,
são, em Portugal, os mais distinctos escriptores
contemporaneos d'este genero, na apparencia tão ligeiro, mas
no fundo tão
complexo e difficil, a que se denomina:
Contos.
A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião
formada.
Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos
typos,
pela
naturalidade do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria
sem o minimo esforço a todas as impressões que
pretende
transmittir, o auctor dos
Meus amores prova que
não
desconhece nenhum dos segredos
do genero de litteratura que tão brilhantemente cultiva, e
que
não é inspirada na amizade a opinião
dos que, não obstante elle
terçar agora quasi as primeiras armas, o consideram
já como um escriptor
distinctissimo e n'um futuro muito proximo um mestre consagrado.
O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim
desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado
ás bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com
uma riqueza oriental.
Não obstante o meu proposito de não me referir
nomeadamente a nenhum dos pequenos quadros, não posso deixar
de dizer rapidamente da
impressão que me causou a
Ultima dadiva,
um primor de
sentimento, uma pagina
emotiva arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão
variadamente se divide a tragedia em que se debate a humanidade; o
Vae victoribus, onde passa um folego de epopeia,
em que o estylo
attinge alturas quasi desconhecidas, casando se com uma verdade
admiravel a grandiosa ideia
em que se inspira o conto;
Para a escola, quadro
delicioso a cuja
leitura cada um de nos sente accordar uma
recordação
muito querida de infancia descuidada e alegre, e por ultimo: os
Arrulhos, em que Trindade
Coelho ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo
tão
malleavel e tão justo.
Além d'estes contos, que especialmente destaco pela
admiração que me inspiraram, são
modelos de humorismo e de verdade os dois
Preludios de festa e
Typos da terra.
Quem escreveu os
Preludios de festa e
especialmente os
Typos da
terra, é porque estudou com muita
attenção, com muito cuidado, os personagens que
mais avultam na vida das nossas aldeias e terras pequenas.
São typos tirados do natural, com uma
perfeição photographica em que Trindade Coelho
denota o mesmo rigor de
execução que demonstra na
descripção da natureza nos seus mais variados
aspectos.
Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de
má lingua realisei o cumulo de escrever um artigo
só de palavras encomiasticas
e sem a minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei
do
Sultão, lastimando que
Trindade Coelho gastasse tantas
paginas d'um estylo formosissimo n'um assumpto que sem duvida
é verdadeiro, mas
que não commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim
o julgamos, a
minima impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar
todos
os seus recursos d'estylista, não precisava realmente do
Sultão.
O livro faz parte da edição mensal d'obras
portuguezas, editada por Antonio Maria Pereira, um trabalhador
incansavel a quem as lettras portuguezas devem assignalados
serviços.
Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado
e esmero a que nem sempre estamos habituados.
Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras,
fazemos votos para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas
horas
á semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros,
tão
perfeitos como este, para honra do seu nome de escriptor já
tão justamente laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do
seu livro, archivando a dedicatoria que elle contem como nova prova
d'uma amisade a que somos profundamente gratos, e devotadamente
retribuidores.—
Lourenço Cayola.»
Tribuno Popular:—«
Os
meus amores.—Recebemos
o volume da
Collecção Antonio Maria Pereira,
que sob
aquelle titulo contém alguns
contos do apreciado contista Trindade Coelho.
Pela rapida leitura de dois d'elles—
O Sultão
e
Typos da
terra, parece nos que a collecção
é
estimavel, e que os contos são joias de grande
preço da nossa litteratura, pela linguagem pura
genuínamente portugueza, e pela graça da
contextura originalissima,
nacional, sem laivos d'imitação estrangeira, em
que se pintam
scenas e episodios, cheios de verdade e de encantadoras
descripções,
da vida portugueza nas provincias.»
O Seculo:—«
Os
meus amores, por Trindade
Coelho.—É um livro de contos, editado pela casa editorial
do Antonio Maria Pereira, a publicação recente
que mais tem emocionado, com
justo motivo, o nosso meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no
fundo, sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de
não
ser rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem—diga-se a
verdade.
Parece uma contradicção; mas não
é. Se o nosso bom publico fosse dado a esbanjamentos de
emoção artistica, não
o sobresaltaria tanto a pessoalidade, e o imprevisto.
O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado
severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de
ser homem de lettras, nas suas horas de remanso.
É só, porém, como homem de lettras,
que nos compete em tal logar aquilatar-lhe a esthésia, e as
faculdades de
emoção, ou de attenção
artistica.
Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A
fórma adapta-se perfeitamento ao fundo, e é
sempre fluente,
vernacula, concisa, e precisa. É sóbrio no
descriptivo, e
não raras vezes enternece. Não commette a
velharia de desenterrar obsoletos
termos classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem
côr, muito parecidos com o latim, mas que no fundo
não são nem latinos,
nem portuguezes, nem onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto.
Nem perpetra tambem
o mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na
linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a
sua lingua, como raros: e o conto, que é, quanto a
nós, a
forma mais perfeita, mais completa, e mais delicada da prosa, e tambem
a mais transcendente e lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado
interpetre. Os contos
Sultão,
Maricas,
Typos da terra,
Mãe e
sobretudo
Para a escola, não contam
muitos rivaes na
lingua portugueza nem
nas estranhas.
O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de
centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem
rememorar o titulo sequer.—
Gomes Leal.»
Revista Illustrada:—«
Os
meus amores, de
Trindade
Coelho.—Que deliciosa impressão me deixou aquelle livro,
tão
adoravelmente simples e sentido!
Antes, porém, de começar a analysar, conto por
conto, esse fino trabalho
de Trindade Coelho, preciso dizer duas
palavras explicando a
razão porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de
nome
conheço só.
Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre,
notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito,
distincto em todos os exames.
Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de
que—o delegado de Portalegre—era um excellente rapaz.
E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar
sempre muito novos aquelles que são da nossa edade...
Depois,
graças a uma amiga minha, escriptora de grande talento soube
que Trindade Coalho era um grande admirador de Loti—o meu preferido
romancista!—admiração enthsiasta que elle
descrevia em cartas deliciosas de uma
vibração que fazia pena não ser
repercutida mais longe... Fazia pena ser
indiscrição publical-as!
Traduzia elle então o «Pescador de
Islandia»; tradução esplendida que a
Gazeta de Portalegre publicou e que o trazia
empoigné.
Para elle era já uma suggestão, aquelle trabalho
primoroso.
E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um
artista. Dava a Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente
alguem se comprazia em querer negar ao academico gentil.
Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de
Antonio Fogaça—uma flor ceifada ao desabrochar!—Eram meia
duzia de
palavras cortadas por soluços:—eu sei, infelizmente, quando
se
escreve assim!...
Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á
cadeia de Portalegre. Um preso que era um innocente, e que, como tantos
outros, estava condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da
justiça...
Publicavam tambem o effusivo telegramma em que Trindade Coelho
agradecia ao nosso magnanimo rei o seu perdão.
E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem
põe a lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu
coração ao serviço da humanidade que
soffre...
O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente
na minha alma.
Eu só fixo o nome dos bons.
E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle
homem! Os filhos herdam, geralmente, o coração
das
mães...
Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr.
Pedi-o rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego.
Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz
Osorio—uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos
filigranados e vibrantes...
Segue se o
Idylio rustico—um amor—atravez do
qual nós
vêmos subir lentamente a estrella d'alva que illuminava,
coando a sua
dôce luz pelo colmo da cabana, duas cabecinhas gentis,
adormecidas junto uma da outra...
Depois o
Sultão um
conto singelíssimo cheio de
naturalidade, em que o Thomé nos communica a sua alegria
contagiosa levada
á loucura com a volta do... amigo—bem mais fiel do que
muitos outros!
A
Ultima dadiva, um braçado de goivos
atirados por
«um simples» a uma sepultura onde lhe
ficára preso o
coração para sahir de lá no dia em que
teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
Brazil.
A
Comedia da provincia, magnifica de
côr local.
Magnífica, principalmente para quem conhece typos
semelhantes e já tem
visto a
Morgadinha de Valflôr—essa
perola!—representada
pelo
Marques do correio... vestido de saias! Para quem dá todo o
valôr a esse esplendido estudo de costumes provincianos.
Vae victoribus, uma sugestão de remorso
primorosamente
traçada...
Maricas, uma adoravel
poesia escripta em prosa.
Para a escola, um beijo de gratidão de
uma singelesa
adoravel.
Tragedia
rustica, um vibrantissimo estudo das miserias humanas.
Abyssus abyssum, o agonisar de dois anjos, sob o
olhar de uma
estrella...
Mãe, a flôr mais
linda do ramo,
enlevo e agonia de todas as mães que eram capazes de morrer
assim—sem abandonarem os
filhos... E, finalmente, as
Batalhas domesticas.
Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de
Trindade Coelho, que é, a par de um primor de delicadeza,
sentimento e arte,
um livro honesto, que não fatiga os homens nem faz
córar
as mulheres. Por isso aconselho a todos que o leiam.—
Margarida
de
Sequeira.»
Portugal:—«
Livros Novos.—A acolhida
feita ao
notabilísissimo livro
Os meus amores,
do nosso querido
amigo e illustre confrade, Trindade Coelho, tem sido a que em tempo lhe
vaticinámos: em toda a
linha o mais legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais
carinhoso
triumpho.
Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no
trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos
que na caça de sensações e effeitos
novos hoje pavorosamente desarticulam o
meio
litterario europeu, tem
uma força de
restringir-se a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e
tranquilla, a melodia emocionante, ingenua e simples do viver
aldeão; e
que por entre o estridulo
hallali de
obscenidades,
imprecações, blasphemias, dôres,
gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este
immenso hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema
arte de
fazer escutar, enternecedoramente, um doce
trillo
sentimental, uma ou
outra ligeira nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do
coração.
Bem haja.
Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a
imprensa tem celebrado a apparição d'
Os
meus
amores
transcrevemos hoje um magnifico artigo do
Correio Elvense,
devido
à penna d'um dos mais
lucidos e impetuosos engenhos da novissima
geração.» (
Seguia-se a
transcripção.)
Diario Illustrado:—«
Os
meus amores,
contos e balladas, por
Trindade Coelho.—A forja do tempo caldeia-nos o espirito á
proporção que envelhecemos. É por isso
que os rapazes se desdoiram
ás vezes de ouvir os velhos, e parece-me que teem
razão, porque nem sempre o
são juizo de uma experiencia larga, sabe limar as arestas da
caturrice no estudo circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando
e um pouco a rir com
singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e
com elle tenho vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias
litterarias, revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de
estylo, arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e
todo um
mundo novo, extravagante e phantastico tem surgido,—mau grado as
furias
rabídas de escriptores paleontologicos, apparafusados
á Arte e
á Critica de ha 50 annos e cheios de amor e melancolia...
Ora essa aprendizagem do meu seculo tem-me custado amarguras
aterrantes, desequilibrios de espirito
e um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto
irem-me
fugindo n'um
marche-marche triumphal, para nunca
mais voltarem,—ai!
para nunca mais voltarem!...
A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica,
dá-me a impressão tenebrosa dos contos de Poe,
postos
palpitantemente na vida real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo
ao pedaço de
chumbo de uma capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas;
Julio
Machado, de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem
amado do filho,—a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos
outros, bom Deus! Dir-se-hia que uma
má sina
persegue os
homens de
lettras:—quando não é a navalha de barba,
é o rewolver, é a
consumpção, é a tisica, é o
retrahimento amargo, é
o abandono proprio e alheio! Por isso o meu visinho Gervasio todo se
ufana, com certo profundo bom senso
pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um
artista
pintor—de portas, e de fóra de portas...
Na
troupe de escriptores em flôr do meu
tempo,—parece-me
que já lá vão 30 annos, e tudo isto
é apenas de
hontem!—havia, joeirados com singular amor de arte pura, uma duzia de
rapazes de incontestavel valor
litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de
rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam
triumphantes,—poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da
vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi
o mesmo, deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas
aptidões de plumitivos incipientes, nas minas
de oiro e de
ferro da lucta pela vida. Dos
felizes, dos que
triumpharam,—como
quem diz, dos vencidos da vida,—me sorria eu ás vezes em
horas de bom humor,
lembrando-me como elles com um livro de versos foram nomeados consules;
com um tratado sobre a cultura do repolho abriram o
Banco
Mineral do
Douro, por acções; com um drama em
D.
Maria
foram eleitos
deputados; ou como com uma critica do
Salon de S.
Francisco, se
guindaram a bibliothecarios das bellas artes e hortaliças
correlativas... Dos outros,
dos
perdidos pouco me lembra! Eduardo Salamonde
foi-se a espantar os
philisteus do Pará, applicando-lhes aos figados
hypertrophicos a vermelha
caudal da sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em
Paris pelo alçapão macabro da
correspondencia
barata;
Gualdino Gomes anda ahi amparando o seu rheumatismo a uma certa
maneira de má
lingua e a uma bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja
como medico da
armada; e Fortunato, quando as saudades lhe são mais
amargas, abandona
o Alemtejo, onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e
apparece
ás vezes nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a
olhar com tedio os
copinhos de cognac do
Leão...
De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa,
o que me traz mais doces recordações é
Trindade
Coelho,—porque eu ligara á minha a alma d'elle, n'um tempo
em que dos salgueiraes de Coimbra elle me fazia para uma folha alegre
de que eu era director, umas chronicas soberbas, vivas, rendilhadas,
cheias de colorido e de
affirmações de uma personalidade litteraria. A
sua prosa, a um tempo humana e lyrica, dava-me a impressão
de um romantismo degenerado... De
Coimbra, como sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos
vindo a
elite
das letras. É da tradição
universitaria, fazerem os doutores as
suas primeiras armas de litteratos e de poetas, na academia, a
intervallos do pesado estudo do Lobão e do direito publico,
esvurmado ás
cavalleiras do nariz de Pedro Penedo... Toda a nossa legião
distinctissima de poetas
e prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia
coimbrã:—Theophilo, Eça, Junqueiro,
João de Deus, Anthero, etc. É a
affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma:
Não
fazem mal as
musas aos doutoures.
E não fazem. Tem-se visto. Vão lá
inquerir a Junqueiro das bellezas do Codigo Civil, meio
metaphysicamente original e meio copiado dos codigos
de Napoleão! Ah, mas em compensação
que appareça ahi o primeiro advogado a escrever a
Morte
de
D. João e a
Musa em ferias!
Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras,
descripções n'uma bella prosa colorida e
transparente, trechos de psychologia
trasmontana, e um ou outro caso humano superiormente observado.
Sobretudo a
maneira do proceder litterario d'este escriptor
é
deliciosa de
côr
e de verdade, sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem
deslumbramentos de imagens
na apparencia côr de oiro, que, em regra, não
fascinam senão os saloios ingenuos dos cordões de
latão... Tem-se chegado
ahi, no abuso da originalidade do estylo, a fazer uma prosa
estrelicada, engommada, cabellinho á banda, com risca, como
os caixeiros de modas ao
domingo! O burguez já conhece os processos da
chinoiserie,
e d'ahi
não ha espantal-o com nephelibatismos doentios, de
importação barata; bem sabe elle que debaixo
d'essas bellezas está a oleographia reles
de porta de escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do
frade que enxota
a mosca do nariz,—muito de apreciar nos covis da municipal em
Alcantara...
O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho,
feito com honestidade e sem as preoccupações
deploraveis que levam os corypheus da escola modernissima, mais que
zolaista, á
descripção e estudo de pathologias e casos
sporadicos, ou não vivos, ou
pouco vívidos. Este livro á quasi um parenthesis
aberto
como uma clareira consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos
trabalhos apparecidos, do
sujet de um dos quaes,
que é em
todo o
caso a monographia de um caracter, assombrosamente executada, o
Gil
Blas dizia,—
qu'on ne peut lui serrer la main que
par
derrière...
A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me
que se define na parte do livro sub-titulada
Balladas.
Os
Arrulhos,
principalmente,
são uma duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e
Daudet. É
uma elegia... tragica,
encadrée n'uma
linguagem
côr
de opala, em que a gente parece estar vendo Hoffman braço
dado a...
João de Deus! É uma obra prima. Assim a
Tragedia
rustica e a
Mãe. Dos
contos destaco eu os
Preludios de festa,
Idylio
rustico,
os
Typos da terra, onde
ha paginas soberbamente observadas, suggestivas,
d'après
nature. Magnifico o assasino
José Gaio.
Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu
sei como elle chegou até aqui sem trazer na mala um volume
de
versos—
Florinhas de Luar, por exemplo!
Devemos-lhe o grande favor de
não
conhecer os diccionarios de rimas, senão a estas horas era
uma vez um
contista encantador... sossobrado!—
Ignacio da Silva.»
Nova Alvorada:—«
Meu
caro Trindade Coelho.—Sabe
você, amigo Trindade, que as palavras affectuosas que me
endereçou no
offerecimento do seu livro
Os meus amores,
vislumbraram no meu
espirito um mundo de saudosas recordações, como
se foram fugazes
emanações balsamicas d'uma quadra primaveril que
não volta mais—a vida
coimbrã?
Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco
baixa mas robusta, as
suas feições
masculas e
energicas, e a sua
allure um pouco
receiosa ao dobrar a soleira da
legendaria Porta Ferrea.
Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á
direita e á esquerda,
entrou você nos
Geraes
resignado a um diluvio de
troças, martyrios, horrores...
Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação
eu fazia orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez
porque
lhe não encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a
d'um Armelim, nem
um rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom
Raphael
do Ranhados.
Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados!
Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de
berloque, na corrente!
O amigo arrancou pressuroso a
pedra de escandalo,
de forma que a
tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato.
Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com
accentuações de academico fallado, o seu nome a
salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua
individualidade a destacar-se, como se fôra um
urso.
E
assim se fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó
por causa
dos versos, do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela
força, do Miguel Baptista—pobre amigo!—pelo talento e
pelas
abstracções, do Banalidades pela gralhadora
loquacidade, e tutti-quanti.
Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia—o Trindade—,
mas foi por causa d'um excellente resumo das
lições de
direito romano, d'um bello discurso no centenario pombalino, e
sobretudo das suas graciosas chronicas no
Diario Illustrado.
Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que
formámos «republica» na rua da Trindade,
tendo por creada a sr.
a Maria de qualquer coisa,
que denominavamos a
Gorda, matrona muito caroavel e de enxundiosas
formas?
Eramos uns poucos:
O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes
administrativos, espirito facil, perspicaz e alegre, nada para
massadas, que tinha orientações definidas em
politica partidaria e
expedientes reservados de galopim graúdo contra os
progressistas da Barca.
O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o
evangelho do
Correio da Noite, sempre em
questiunculas com aquelle
por causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e
jogador
de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente
dos theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada
pela
Gorda n'um cantinho do fogão.
E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario
plano, rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade?
Muito desconfiado e estudioso, só não encavacava
quando
lhe diziamos que elle se applicava... 25 horas por dia!
Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto
sournois,
olhos
á bufo,
que não fallava ainda que o esmurrassem,
pobre caloiro
silencioso e contumaz!
Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje
conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem
feições lavradas, muito guitarrista e risonho, se
bem que intelligente e applicado.
Eramos mais—você e eu. Você que se mettia muito
com a litteratura, fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...;
e eu, que por
signal dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas
de feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo
condescendia em o acompanhar na guitarra.
Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes
de Lisboa e eu no berço da monarchia.
Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus
bellos contos em um elefante volume—
Os meus amores.
E bellos na verdade, como todos dizem.
A
Mãe, aquella cruciante tragedia da
pobre
Russa,
morta
de terror e de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido
conto da sua
collecção.
Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca
Fortunata—é uma cabra!—; mas o amigo teve artes de
desmentir o erro grosseiro,
vingando as calumniadas affeições dos pobres
ruminantes.
Quem ler as angustias da misera
Russa, na
espectactiva do filhito
devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá
áquelle inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a
natural
comprehensão das suas obrigações de
mãe e
protectora.
E os
Arrulhos? Se me não engano
você escreveu
esse conto em Coimbra. Creio até que um dia, estando a
jantar, o amigo recebeu um
jornal qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella
producção vinha traduzida no idioma de Cervantes
com o titulo de
Palomas.
Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos
Vae Victoribus, o
Abyssus abyssum
e o
Sultão,
revela
o
amigo a força da sua educada phantasia, moderada por um
largo peculio de
observação; a sua poderosa
intuição artistica; o seu dialogo
curto, vibrante e natural; o seu estylo já caracteristico
pela
feição franca,
saccadèe,
de dizer e
narrar; a propriedade das locuções; o
bom emprego dos termos; a verdade das suas
descripções e pinturas, que,
ao contrario de muitos, não repete, tinta para aqui, tinta
para acolá e
vice-versa, n'uma pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos
virados ou coisa similhante.
Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria;
mas, emquanto me é licito exprimir a minha humilima
opinião,
dir-lhe-hei que você alarga cada vez mais e com mais rapidez
a sua
reputação de litterato distincto e de contista
precioso; e que este conceito é
merecido, attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua
elegante brochura recem-editada.
Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a
sua fineza com um abraço de—Velho amigo—
Eduardo
Carvalho.»
Nova Alvorada:—«
Os
meus amores.—Acabamos
de ser
distinguidos com a offerenda do novo livro de Trindade Coelho,—o
sympathico e distincto escriptor que de ha tempos se vae honrosamente
evidenciando no certamen
das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem
uma reputação firmada.
Os meus amores é o titulo que o sr.
Trindade Coelho
escolheu para o seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama,
segundo cremos, não é porque estas 200 paginas
sejam um
auto-historiographico dos idylios romanescos do auctor, n'quella aurea
quadra da sua vida academica, ou um repositorio de alheias aventuras
amorosas com acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario.
Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder
da affectividade psychologica do auctor para com a sua obra, e
induzimos isto do soneto com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja
primeira quadra diz: