Folhas dispersas dos meus
annos de oiro,
Vivo enxame das minhas
alvoradas,
Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
As
Desdemonas sois de um outro moiro.
Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade
do aphorismo—o habito não faz o monge—, porque o
Idylio
rustico, com que abre esta bella
collecção de
contos,
não seria bastante para justificar o titulo sob que se
enfeixam.
Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e
a tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se
que se ha na urdidura dos varios contos muitas
situações que nos pintam o ridiculo, a
desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que
nos prendam o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma
Julieta.
Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente
verdadeiro é que os contos do sr. Trindade Coelho constituem
uma das mais bellas collecções que no genero
conhecemos.
Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
preceitos da arte.
Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à
naturalidade das situações e dos dialogos.
Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem
fielmente costumes, a pôr em jogo com a maior verdade os
vicios e as virtudes do
povo.
Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade
Coelho são a fiel expressão da vida rustica do
nosso povo, e facil é de comprehender a importancia moral
que estes livros terão
quando as gerações
que nos succedam queiram
inventariar nas
suas tradições o modo de viver, de sentir e de
pensar das populações
sertanejas, n'este periodo historico em que vamos.
Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside
como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma
verdade inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a
toda a prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na
narração e nos personagens.
E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François
Copée e Theodore de Bauville, a artistica
encenação que,
sem desvirtuar-lhe a naturalidade da fórma e do fundo, lhes
imprime o attractivo
romanesco que falla à imaginação do
leitor.
O
Idylio rustico, com que o livro abre,
é de uma suavidade
deliciosa, e de uma naturalidade tão justa quanto
encantadora.
A
Ultima dadiva é a
expressão fiel de muitas
scenas que a emigração multiplica cruelmente
pelas nossas provincias do norte.
A acção d'este conto é conduzida com
uma tal uncção de sentimentalidade, que nenhum
leitor, por mais rebelde que seja a
commoções, se poderá esquivar a
partilhal-a.
O conto—
Typos da terra é a
descripção fiel, fidelissima, da mesquinha
intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
provincia.
Os Preludios de festa são de um comico
admiravel;
Maricas é de um sentimentalismo
commovente;
Vae
Victoribus de uma moralidade edificante;
Arrulhos,
Mãe,
Tragedia Rustica, tudo,
tudo n'este livro é bom, e de util e agradabilissima
leitura.
A forma—já o dissemos—é correctamente vernacula
e elegantemente rendilhada.
A titulo de amostra, para aqui trasladámos do
conto—
Sultão—este
bello
croquis de uma tarde de
agosto:
«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as
arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda
o poente as suaves e brandas pulverisações
doiradas da ultima
luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro
levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e
meigo, raiado de listrões de uma
coloração leve de
laranja.
Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve,
cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do
azul.»
E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa
reputação do auctor.
A redacção da
Nova Alvorada
congratula-se com o
seu illustre collega por tão brilhante
producção, e d'aqui
lhe envia um cordealissimo aperto de mão.»
A Independencia:—«
Os
meus amores.—Acabamos
de ler o
primoroso livro de Trindade Coelho,
Os meus amores.
Sem largas
aspirações, modestamente, apenas com a
consciencia tranquilla de quem escreve bem e
com criterio,—Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
que acaba de dar á estampa, algumas
producções litterarias que a sua vida de
jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de revistas e
diarios.
Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e
homogeneo o que se nos offerece para apreciar: são pequenas
joias litterarias,
buriladas por mão de artista e d'um fino sabor de
naturalismo.
Considerado assim, sem dependencia de escola e
confrontação de originaes, o livro é
bom.
As suas descripções são perfeitas,
correctas, desenhadas por quem se acostumou, desde creança,
a ler muita e a adivinhar mais na
biblia riquissima e inexhaurivel da Natureza.
Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as
tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão
passando sob os olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos
outros,
deixam-nos uma impressão agradavel de realismo, e alta
comprehensão. São typos exactos, sem os grandes
enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que
enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das
nossas aldeias, basofão e vingativo, prompto,
olá! a
gastar as ultimas moedas da venda do ultimo gado e a deixar fulo e
arreliado o seu antecessor; e
a deliciosa ballada
Mãe é
uma preciosidade
litteraria, magnificamente pensada escripta, digna da penna dos nossos
primeiros escriptores.
Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo
que elle é digno de figurar ao pé das mais bellas
producções dos nossos escriptores mais
consagrados.»
Correio de Portalegre:—«
Os
meus amores,
contos e balladas
por Trindade Coelho.
Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois
não?
Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma
que Trindade Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento
algumas antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os
senhores jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É
por isso
que escolhemos para encetar esta secção a
producção brilhante do distincto litterato,
editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor
escrupulosissimo.
Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a
attenção do nosso cerebro, á
contemplação da nossa alma; e essa leitura, feita
n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão
breves, deu-me d'
Os meus amores a agradabilissima
impressão d'uma
caricia, que persiste a sorrir consoladora.
Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do
Commercio
e
da
Gazeta, tem, como viram, o poder invejavel de
dar á
ideia,—algumas vezes injusta, dirão alguns,—a mais
correcta
fórma, iriada sempre da limpidez mais viva; e isso, n'um
trabalho feito agora para apparecer amanhã, à
pressa sempre, n'uma fugida aos
calhamaços manuscriptos que demandam a sua
attenção de magistrado, e em que o
periodo mais suggestivo é o do
Anno do Nascimento
de Nosso
Senhor Jesus
Christo.
É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do
auctor desbasta, romodela, lima, muito tranquillamente, muito
socegadamente, sob a vigilante direcção do seu
delicado gosto
artistico.
Os meus amores teem poesia, e teem verdade; e na
maioria dos seus
differentes quadros, adoravel descripção das
scenas simples da vida do campo, da natureza singellamente formosa, o
sentimento vibra intensissimo, e é encantadora a phrase, que
um conhecimento
profundo dictou, de que uma subtil observação
resáe. Ha alli retratos d'um brilho sem limite,
typos
que
resumem um estudo fidelissimo.
É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa
embaraçadissimo, se queremos escolher
alguma,—tão valiosas são
todas.
Todavia,—e isto é uma modesta opinião
perfeitamente pessoal,—
Vae victoribus, de
tão grandiosa
ideia, e de tão
elevado estylo,
Para a escola, tão
grata, a evocar uma
saudosa
recordação dos bons tempos de creança,
e os admiraveis contos de fina graça e
tão verdadeiros,
Preludios de festa e
Typos
da
terra,
são os meus
eleitos, depois d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre
tantos quadros da perfeição mais rara, e onde a
Maricas e
Arrulhos captivam tambem a minha
admiração.
O livro é, como todos os sahidos na
Collecção Antonio Maria Pereira,
esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
percalina.
N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'
Os
meus
amores receber o preito da nossa homenagem, prestada
tão
agradavel como sinceramente.»
O Nordeste:—«Editado
pela casa Antonio Maria Pereira, de
Lisboa, em volume d'impressão nitidíssima,
escrupulosa, foi
recentemente publicado o primeiro livro de Trindade Coelho—
Os
meus
amores, que vieram
pôr em relevo as complexas e brilhantissimas qualidades
litterarias do auctor,
um
novo que já hoje occupa, por
direitos justamente
adquiridos, um logar proeminente entre os nossos melhores escriptores.
Os meus amores teem obtido na imprensa do paiz uma
acolhida
enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos
leitores do
Nordeste não dessemos
conta da
apparição d'esse livro, juntando ao
côro unisono d'applausos as nossas sinceras
saudações.
Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses
contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a
espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas
historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas
por vezes d'um sentimentalismo suave, lyrico...
A nós, que temos por Trindade Coelho uma
vivíssima sympathia, um affecto antigo e vehemente, seguindo
com interesse quaesquer particularidades
da sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem
glorificado o seu nome e com a sua merecida
reputação de magistrado intelligente e
trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o
seu livro, e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o
correio nol-o trouxe. E, agradabilíssima coincidencia!
succedeu-nos
deparar com o conto
Para a escola, quadro
tocantissimo que marca
distinctamente os dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a
altura em que entra
na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial,
de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com
as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de
continuo evidenciará as suas superiores qualidades de
talento e caracter diamantino.
Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio,
deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto—sem pejo o
confessâmos...—de lagrimas espontaneas nos marejarem os
olhos, tão enternecedoras são essas paginas que
evocam em
nós as reminiscencias queridas d'um passado que
não volta, e no espirito nos
reproduzem, com uma precisão photographica, completa, scenas
eguaes da nossa
infancia, como de certo acontecerá a todos quantos lograrem
a
felicidade de lêl-as e sentil-as...
Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente,
que
devorámos o livro, onde o auctor,
n'um esbanjamento
prodigo de verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras
narrativas, descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e
rhythmica, apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em
flagrante,
d'après nature, com uma extraordinaria
lucidez
d'observação, e um outro
caso
humano trasladado
para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente artista, e que
são uma eloquente
affirmação da distincta personalidade de Trindade
Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados cultores da
prosa portugueza.
Não querendo, e não nos sobejando
espaço para tanto, ampliar esta breve noticia a uma critica
a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar
todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as
impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso
caloroso para todo o livro, sem predilecções por
este ou por
aquelle conto; e d'aqui, d'esta columna de modesto jornal de provincia,
enviamos ao nosso queridissimo Trindade Coelho, n'uma
effusão d'acrisolada
estima, com um aperto de mão, as
felicitações que
merece, fazendo votos para que não
deixe de ser um cultor
assiduo da litteratura nacional, e continue a honrar o seu nome,
já laureado, com a
publicação de novos e bons
livros.—
José Pessanha.»
Da Revista do Minho:—«
Os
meus amores.—Poucos
livros
terão vindo á luz da publicidade ultimamente em
Portugal tão esplendidos
como aquelle cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as
suas paginas
se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e
estimavel debaixo de todos os pontos de vista.
Este volume pertence á formosissima
collecção Antonio Maria Pereira, e é
devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais
festejados escriptores—Trindade Coelho.
Não precisâmos alongar-nos em chamar a
attenção do publico para esta obra, pois
é ella sobejamente já bem conhecida
dos amadores de bons livros.»
Revista Illustrada:—«
Os
meus amores.—Ha
tempo,—não ha muito,—começou um jornal de
Lisboa a publicar, de quando em
quando, umas cartas de provincia,—
Cartas alemtejanas,
nos
parece,—assignadas pelo nome, então desconhecido, de
Trindade Coelho. Lida por
nós a primeira, nunca mais nos descuidámos de
procurar as outras,
e foi com verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até
deixarem
de apparecer de todo.
Essas cartas eram a revelação de um formoso
talento; eram a alvorada jubilosa e cantante de um bom escriptor.
Trindade Coelho entrava nas lettras portuguezas pela porta aurea dos
victoriosos, apresentando natural e simplesmente a sua individualidade,
como a fundira n'uma
só peça o seu talento alliado com a sua
observação e o seu estudo, sem esgrimir com os
que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que
avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem
charamellas de apaniguados e sequazes.
Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas;
escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á
mão, das scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do
sentimento que a sua
alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um
ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á
solidão do seu eremiterio, sempre com acerto, propenso ao
louvor, despido de invejas. Era um talento e era um caracter.
Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que
deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua
formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as
impaciencias do amor proprio, sacrificando ás altas
occupações do seu curso os brilhos attrahentes da
facil nomeada. O escriptor experimentara
já o pulso; agora conhecia a sua força e sabia e
podia esperar.
Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e
glorificando n'um processo de rehabilitação a sua
toga de
magistrado. O caso deu-lhe celebridade, e ensejo para ser recordado o
nome de homem de lettras,
que elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros
trabalhos.
Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal
bem lançado e bem redigido, avigoraram no conceito publico o
renome conquistado, e Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da
paiz, o logar a que tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem
contestar.
Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos
apresentação mais prometedora e mais sympathica.
Os meus amores são uma
collecção de
esbocetos, alguns dos quaes, como o
Idylio rustico,
Ultima dadiva,
Vae victoribus!,
Abyssus abyssum,
chegam a
ter a
perfeição, o acabamento
de verdadeiros quadros. Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o
auctor os trabalhou, solicito na sua obra, no empenho de uma
execução
immaculada. Não porque se conheça o
esforço; mas sim porque se sabe que
sem elle era impossivel conseguir tão completo effeito,
tão seguro
resultado.
O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento,
erudito, original e variado. Não tem reminiscencias d'este
ou d'aquelle, e
realisa uma das condições essenciaes que deve ter
em mira todo o
escriptor consciencioso: conservar uma feição
propria e
individual, sem se afastar da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo
o retrocesso archaico, e contribuindo para a
evolução progressiva d'ella.
Trindade Coelho, por uma intuição que nos
não cançaremos de louvar, em vez de se cingir a
modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria facil assimilar, em
vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, procurou modo de
illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na fonte natural de
todas as inspirações. Penetrou,
para isso, nas camadas mais primitivas do povo campezino, enriquecendo
n'esse manancial o thesouro das locuções, e
trazendo de
lá, simultaneamente, scenas e quadros do um sentimento
encantador, e de uma singeleza nativa e adoravel.
É de indiscutível belleza a pastoral com que abre
o volume. Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A
descripção da madrugada na aldeia, o encontro dos
dois pastores, Gonçalo e
Rosaria,—Daphnis e Chloe,—teem um sabor antigo, como o de uma
narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo
tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias.
É de um bom gosto supremo a fórma subtilmente
delicada como o narrador,
deixando primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma
brutalidade instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da
candura a
uma situação divinamente sublime.
E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce
e prolongada abstracção, seguindo com os olhos do
espirito aquelles dois
vultos de creança a esfumarem-se nas
distancias do
espaço e do tempo, longe, muito longe, n'uma paizagem ideal,
vista nos dias da infancia, vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio
ou Theocrito, talvez mais longe ainda, na Biblia...—seguindo, com os
olhos da alma, em esquecida
contemplação, longe, muito longe,
«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas,
voando, voando.»
Em
Vae victoribus!, outro quadro de mestre, ha
como que um mixto do
tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão.
Não é vulgar a concepção do
assumpto, nem vulgar, tambem, o
desenvolvimento que o escriptor lhe deu, o scenario é
horrivel e magnifico.
Está bem descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro
se annuncia, depois
se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma
convulsão pavorosa e enorme; bem descripto o terror
angustioso e suppliciante do misero assassino, o qual vê, na
chamma de cada relampago,
projectada a cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende
os
pés ao chão, emquanto o seu ouvido, allucinado
pelo terror, lhe
dá a sensação de uma voz insistente,
que detraz de cada arvore, da espessura de cada moita, de cima de cada
pedra, da resonancia de cada trovão,
o chama inexoravelmente pelo nome:—Ó José Gaio!
Ó José Gaio! Ó José Gaio!
Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho
fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe
não engeitaria o assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria
com muita maior
perfeição. Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas
tão engenhosas como
as da
Genese de um Poema, para alguma
composição
tão extraordinaria e tão transcendentalmente
bella como
O corvo ou
Ulalume.
Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se
quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade
das suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos
mais
perfeitos moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras,
detem-se na commovente e lacrimosa narrativa da
Ultima dadiva
e nas
ligeiras e facetas descripções dos
Typos da
terra, dos
Preludios de festa, do
Sultão,
onde transparecem dotes
de
observação sarcastica, de ironia graciosa e de
bem humorado espirito.
Um livro de tantas promessas não póde ser,
comtudo, e por isso mesmo, um livro definitivo. Trindade Coelho
experimenta apenas a mão
para se abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso.
Já no final do presente volume, em nota do editor a um
trecho intitulado:
Batalhas domesticas, se annuncia a
transição da presente
phase litteraria e artistica do auctor, para uma outra phase
progressiva.
Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos.
Qual ha-de ser, porém, a predominante caracteristica d'essa
phase? Póde a critica
conjectural-a
desde já? Talvez o pudesse; mas seria
arriscado fazel-o.
Porque, a verdade é que o seu talento tem recursos com que
lhe
é dado contar, que o seu temperamento litterario tem
energias que lhe hão de
abrir novos caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha
já
precedentes, que enormemente o obrigam.
Temos confiança em que a sua prosa, já segura e
elegante, despir-se-ha ainda de um ou outro francezismo escusado, e
ha-de adquirir novos dotes
de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe
onde procural-os. Não é em lexicons, nem em
alfarrabios, nem em cartapacios. É na escola, aberta sempre
a todos os investigadores, onde
aprenderam a falar o portuguez do povo, os seus typos populares.
Não se póde ser bom prosador, sem se ter o
sentimento profundo do som, da melodia. Uma das maneiras de adquirir
pericia n'esta
fórma de escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer
bons versos
é um exercicio util para chegar a fazer boa prosa.
Não
é, porem, indispensavel, bem entendido.
Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades
completas de escriptor, aquelle que só d'uma das duas
fórmas
da arte de escrever seja conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da
prosa, são os
que praticaram largamente no manejo da
metrificação e
da rima.
Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase
e maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso,
embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe
vale a pena empregar todos os esforços para attingir uma
perfeição, que não está
longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade
continuamente o approximam.—
Fernandes Costa.»
Aurora do Lima:—«
Os
meus amores, contos
e balladas, por
Trindade Coelho. Quando prometti á
Aurora do Lima
esta
ligeira
noticia bibliographica ácerca do livro do brilhante
escriptor e meu
querido amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença
me
obrigasse a retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me
encontrar entre os ultimos da ultima fila, nas
saudações
enthusiasticas á obra e ao seu auctor.
Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se
começou a fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria,
cruel, desoladora. Os
que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida—e estes
constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as
obras consoladoras, de cuja leitura fica uma
sensação
delicada, uma recordação docemente suave. Assim,
Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, apezar do enorme
réclame que antecede sempre a obra do
velho mestre da escola realista.
Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras
consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero,
que prende pela emoção intima, que interessa pela
simplicidade elegante com
que está trabalhado, que
impressiona pela
correcção impecavel do seu estylo, malleavel e
harmonico.
Abre-se o livro e depara-se com o
Idylio rustico,
que é
uma soberba tella, amoravelmente tratada, denunciando logo
ás primeiras
linhas um alto valor artistico, na verdade rigorosa da
observação, na delicadeza suave do colorido, na
simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.
Segue-se-lhe o
Sultão;
e em boa verdade direi que me
parece ser este um dos contos mais formosos do volume, em que pese
ás
opiniões contrarias e até ao proprio auctor, que
não perde
occasião de o depreciar.
Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A
descripção da eira, do labutar alegre, da
paizagem e dos personagens d'este
pequeno quadro, são um primor notabilissimo de
execução artistica, de rigorosa e completa
observação.
Ultima dadiva, um episodio commovente, completa a
primeira parte do
livro, a que se segue a
Comedia da provincia,
onde ha preciosos
estudos da vida provinciana; as
Balladas, onde se
depara com o
formoso conto
Para a escola, de um alto valor
litterario;
Arrulhos,
uma esplendida phantasia, etc.
Eis uma ligeira noticia do volume de contos
Os meus amores,
que
tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que
lhe foram dispensados.
Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a
crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do
paiz, especialmente no
Portugal, onde escreve
como o pseudonymo de
Ch. A. Verde, e na
Revista Illustrada,
do editor Antonio Maria
Pereira.
É um infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais
frivolo
assumpto um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o
espirito do leitor.—
Luiz Trigueiros.»
Os Gatos:—«Vem
a proposito de historias, fallar, bem sei que
tarde, dos
Meus amores de Trindade Coelho, como
do moderno livro
portuguez que mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em
polyedros de multiplices aptidões. Os contos dos
Meus
amores
são pela maior parte uma bagagem de vida academica,
assimilativa (Trindade Coelho, muito novo, findou ha quatro ou cinco
annos o curso juridico) e como tal
sahem da penna do escriptor ainda sem uma
crystallisação homogenea de fórma e de
processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o
ascenso d'um espirito buscando a perfeição com
escrupulos d'eleito; de
sorte que o volume até como auto-biographia se insinua, elle
precisando as phases, notulas, e predilecções
litterarias do contista, e emfim,
depois de hesitações, emancipando-o n'um dos mais
delicados microscopistas do
coração, das nossas lettras. Como é
provinciano, provinciano d'aldeia, e
natureza contempladora
inda por cima, Trindade Coelho captiva-se
principalmente dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana,
tempestades de campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o
não
faça por diletantismo de escriptor avocando de
cór dramas lambidos,
senão por esse estro de visão retrospectiva dos
melancholicos
despaizados em terras hostis, e que protestam contra o egoismo
ambiente, recluinde-se no passado, como n'um sanctuario de mumias
adoradas. É a
tendencia geral dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida
dos humildes, especialmente dos campos, materia prima para seus contos
e poemetos. Em
poucos porém a predilecção se
escóra na sinceridade e conhecimento pratico da vida
rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma autopse sagaz da
natureza psychica e moral do camponez. Grande parte
dos que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os
andrajos n'um scenario de convenção, e com o
fazer fallar
aos bonequinhos mancos que resultam, aravias mais ou menos inventadas
d'um pictoresco sorna,
em cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter
profissional, d'individualismo typico, ou de paixão. Se
alguma vez tiverem
pachorra, mandem vir a collecção dos contistas
rusticos
portuguezes, e riam á larga das fantasias lorpas que
lá virem. Em dialagos
amorosos ha por exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam
ás
namoradas protestos de paixão, em linguagem que seria
preciosa até na
bocca d'um pisa-flôres do Martinho e da Havaneza. Ellas, de
lhes retrucar em phrase equivalente, e de se mecherem em scena com os
ademanes que a
Dama das Camelias consagrou na cachimonia dos
auctores, como os mais proprios para mimar o amor que as
enchaquéca.
Em paizagens e descripções d'interior, a mesma
ausencia de detalhe certo e de visão propria, que reduzem
esses quadros, a
méras caganifancias d'aguarellistas amadores. De tal maneira
que o grupo de
campestres a quem a arte confia a
missão de
leccionar aos desregrados
habitantes das cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de
persuadirem os
seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como
uma banal imitação da Rua do Ouro, e o camponez
como uma
arreglo grotesco do alfacinha.
Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da
paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade
Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do
problema, em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente
vão crescendo á vista do leitor, que
não mais lhe perderá de vista os
vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus
quadrinhos de genero, colhidos em
prolongadas estações nas duas mais typicas
provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha
assím nos
Meus amores, a par
d'algumas benignas composições representativas da
transição critica do rapaz para o homem, e do
debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, sobrias,
seguras, que não hesito em as apontar como modelos,
e dentro da minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras
obras primas.
Typos da terra e
Preludias
de festa,
por exemplo,
são
duas narrações que mordem fundo a
attenção de quem nas
lê, e que por sua admiravel sobriedade, intuito pictural, e
observação
ridente sobre o vivo, cuido que ficarão modelarmente
apontadas aos collecionadores de
litteratura typica.
Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas
duzias de paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis
de
bonhomia, e d'uma saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o
seu auctor.
Ahi está effectivamente revelado não
só um talento plastico e bastante rico em cambiantes, como
tambem a pura agua d'um caracter cheio das
mais finas intenções.
Typos da terra
é o
quadro satyrico d'uma má lingua d'aldeia, tendo por club a
porta da tenda, por scenario a
praça publica, e por personagens o pessoal burocratico e
elegante da terriola.
Preludios de festa
é um estimulo de
festeiros preoccupados
de qual fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons
são leves, os typos rapidos, a
descripção dita a correr, mas no
conjuncto ha um tal equilibrio esthetico, a meia tinta é
tão fluida,
e as intenções ironicas sublinhadas
tão de manso, que se adivinha logo um mestre
miniaturista, Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os
semsaborões que por ahi medram, e certamente fadado a uma
supremacia qualquer no moderno romance portuguez.—
Fialho
d'Almeida.»
Jornal de Santo Thyrso:—«
Os
meus amores.—Foi
penhorante e
commovente para nós a gentilissima offerta que Trindade
Coelho nos fez
do seu adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta
singela
noticia.
O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado
quando o brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade;
hoje, porém, apparece mais radiantemente no seu precioso
livro,
onde a primorosissima fórma se allia com o mais delicado
criterio
d'artista d'
élite e com a fina
observação d'um
talento verdadeiramente superior.
O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa
humilde e obscura penna não está—seja este o seu
unico
merito!—habituada a vir entregar ao sagrado lume da imprensa os
elogios sandeus que cada dia se
prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as
ondas d'esse barato incenso.
Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença
do trecho que lhes offerecemos como mimo de rara valia.»
Diario Illustrado,
(com o retrato do auctor):—«Trindade
Coelho.—N'esta aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras
que ninguem sonha,
ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,—que nem a todos
é dado experimentar, accrescente-se.
Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,—na
elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador
prestigio do talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de
adivinhar, logo aos primeiros passos, a revelação
de Alguem,
que vae ser unanimemente admirado.
Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo.
Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o
livro
Os meus amores, que foi como que a subita
illuminação do seu nome.
Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a
sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso
encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do
estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...
O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de
rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de
identificação, vive no livro de Trindade Coelho,
com um singular relevo de verdade,
com um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos
argutos
dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do
provinciano e
do camponio, escreve dos
Meus amores o nosso
grande critico Fialho
d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente
traduzem o seu criterio do problema, em fórma de arte, e dos
que mais
progressivamente vão crescendo á vista do leitor,
que
não mais lhe perderá de vista os vôos
poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus
quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas
estações nas duas
mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e
Traz-os-Montes.»
Antes dos
Meus amores, Trindade Coelho
começara a affirmar
a sua poderosa, individualidade em uma secção do
Diario Illustrado,
Cartas alemtejanas,
chronicas expedidas de
Portalegre, em um arranque de talento, com exuberancia de fantasia,
modos de ver e dizer, flagrantemente modernos, traços de
soberbo humorismo
á Vacherai, velados a espaços de um ligeiro fumo
de melancolia, que lhe avivava
a frisante originalidade.
Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio
das suas funcções de delegado, em Portalegre, a
tarefa humanitaria de arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que
injustamente o condemnara.
E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
vôos, fez-se um côro de
bençãos, como que uma apotheose de amor, que
deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da
sua alma effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos,
superiores a todas
as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto.
Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o
caracterisam e lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam,
uma dualidade,
verdadeiramente phenomenal.
É que, sendo elle um artista, na rigorosa
accepção titular da palavra, namorado do ideal,
amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na extatica
adoração de tudo quanto ella sobredoira
do seu brilho immortal, é ao mesmo tempo um funccionario
exemplar, um delegado do
procurador regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de
tal sorte Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter
e no correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa
soberania da Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito,
quando se trata de aquilatar o merito de um auctor:
«Ahi está effectivamente revelado não
só um talento plastico e bastante rico, em cambiantes, como
tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas
intenções.»
Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de
saudade nostalgica ou treme de frio... legal.
É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta
allusão, meu caro Trindade Coelho?) «Ah! que
apertada gaiola esta, em que vejo
fechado, o meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o
meu dever.
Mas como eu ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo!
Não faz
idéa, não! Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E
là fóra, e
lá em cima—que amplo céo azul para
voar!»
Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda
o esperam, meu illustre amigo?—
Guiomar
Torrezão.»
Revista de Portugal:—(Excerpto
de um artigo critico ácerca
do
Só de Antonio
Nobre).—«Alma doente, o sr.
Antonio Nobre soube
extrahir da sua doença effeitos de Arte singulares e
ás vezes
intensos. Outros attingiram o mesmo objectivo pela
descripção das
emoções naturaes e pelo appello aos instinctos
sãos do coração
humano. Acabo de rêler o livro d'um escriptor tambem novo:
Os meus amores de Trindade Coelho. Com casos da
vida corrente e com
sentimentos que podem ser comprehendidos por qualquer dos seus
leitores, uma despedida, a
affeição de dois pastorinhos perdidos na
solidão do campo, os remorsos de um
homicida junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma
cabra que
se deixa morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o
narrador interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha
atravez d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do
suor dos lavradores. Demonstração cabal de que a
Arte
é vasta e a capacidade pessoal decisiva para a belleza das
obras.—
Moniz Barreto.»
Da Vid'Airada:
«Trindade Coelho.—Uma vez na sua frente, face
a face, olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,—o que não
seria
difficil mesmo no caso de que a medida dos homens se tirasse a
palmos—fixando o olhar
no seu olhar, e não perdendo uma só das suas
palavras na mais simples conversa de algum quarto de hora,—ao
separar-se elle de
nós, porque
já então a gente
não se atreve a separar-se d'elle,
tem-se adquirido a certeza de que aquillo é o que
é, e chegado
á mais solida convicção de que toda a
verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
coração de homem, nunca se manifestaram mais
expressivamente, mais insubmissas ao menor proposito do menor disfarce,
do que na sua physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho
intensíssimo do seu olhar muito limpido, muito penetrante,
se expressam toda a sinceridade, toda a verdade do seu grande
coração
e do seu impetuoso temperamento.
E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e
rijo, a cabeça alta, assentando com firmeza o pé
pequeno,
despejando caminho que dá gosto vel-o, não
resistem os olhos ao desejo
de acompanhal-o de longe, até que o percam na dobra da
primeira esquina, e a
gente diz ou pensa:—«Demonio!... Com meia duzia assim,
poderia fazer-se
alguma coisa ainda!...»
Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas
perversões vão espalhando em redor de si, fazendo
estremecer os honestos quando com elles se cruzam, e tentando para o
mal os fracos quando passam—só a presença de
homens bons e
sãos poderá melhorar este sólo e
purificar esta atmosphera.
Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
da sua vida,—o mundo litterario e o mundo judicial—affigura-se-me
elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o
indelevel cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos
documentos
para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este
agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio
Publico contra os altos reus de certas causas celebres,—ora imprimindo
n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da
fórma é posta sempre ao serviço das
emoções
mais dôces e das mais penetrantes, esse outro cunho, d'essa
outra individualidade que n'elle ha, e
tão diversa é, tão original e
tão rara,
tão comtemplativa e tão terna.
...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande
coração e do seu impetuoso temperamento!
No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas
palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio,
não tardará que á serena
exposição dos primeiros
articulados succeda a expressão calorosa, indomita, sempre
crescente, da
indignação, e da colera, que lhe provocam e
açulam os factos e as razões de
que vae deduzindo a tremenda accusação contra o
réo—...esse réo que alli está, alli!
sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos
pés! Agita-se-lhe a circulação do
sangue, a
respiração accelera-se, a face ruborisa-se, todas
as veias do pescoço e fronte se
distendem, o peito enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A
excitação do cerebro vigorisa-lhe os musculos,
affirma-lhe a energia, parece transportal-o
ao imperio da força,
n'um arrebatamento em que os dentes
rangem, e as unhas se crispam, punhos cerrados, braços
erguidos, completamente
desordenado a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe
na garganta, quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem
ferir de arripios a espinha dorsal do auditorio... Já
não
é para a justiça dos homens que elle appella;
não lhe bastam, não o
saciam as penas maximas dos Codigos! Quer o castigo do Céo,
quer a
justiça de Deus!
...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte
civil, bem peor que a morte natural, um desgraçado que a
cegueira da
justiça humana havia condemnado por assassino e
ladrão—o pobre Manuel
Barradas. Muito commentou a imprensa o facto, espantada de que um
agente do Ministerio Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos
agoniados da sua
vida em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a
collecção desses jornaes, e legou-a em vida ao
filho, ao Henrique, pondo-lhe no principio estas palavras:
«Meu filho, pela lei de Deus, a
vida é só um pretexto para boas obras. Observei
um dia a lei do Senhor, e Elle, em premio da minha obediencia,
concedeu-me o poder legar-te um
pedaço vivo do meu coração. Queres
ouvil-o bater? Ausculta
essas folhas... Bemdito seja Deus! serão ainda minhas as
tuas lagrimas enternecidas,
e, ainda depois de morto, viverei na tua commoção
e na tua
alegria, para a commoção e para a alegria da
minha
obra...»
Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto
austero do magistrado, cedendo o logar á delicada
individualidade do
homem de lettras, o desembaraça da toga e o deixa que
vá,
em mangas de camisa, muito á vontade e á fresca,
pelas tardes serenas
do seu bom humor, a vaguear pelos campos do seu sonho—sonho feito de
saudade, d'essa muito
viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista
dá, e que a sua prosa tão sentidamente traduz, a
recordação de felizes tempos que não
voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais
esquecem,—recordação a que andam para sempre
ligados, n'uma doce e meiga
associação de ideias, certos logares, certas
pessoas, certas orações,
certa ermidinha e certo olmo, que já lá estavam
quando elle nasceu, que o
embalaram nos primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos;
que ao baptismo o levaram, e o conduziram á escola;
alegrando-se
com as suas alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas...
N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da
sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte,
vê-se pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a
serenidade meiga de
um sorriso, como que o doce agradecimento á alma de sua
mãe,
que tivesse vindo, muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o
leito, aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a
amorosa caricia dos seus beijos...
Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade
essas emoções e excitações
violentas, em que a tremura dos musculos e a effusão das
lagrimas realisam o phenomeno das
emoções reaes.
Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta
convicção em que elle está, quando me
diz, bem medindo e pezando cada
uma das suas palavras:
—«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais
nada, que o escriptor preste na sua obra o culto que é
devido
á sua lingua. Depois, deseja que o commovam, que honesta e
consoladoramente o emocionem, preferindo que o assumpto do quadro seja
a
exploração das coisas triviaes da vida,
certamente porque reside no Simples a formula mais natural da
Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem
está fatigado d'essa confusão do
romance com o
estudo, e
convenci-me, emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro
dever, e como
condição primeira de agrado, de ser consoladora e
suave, tocada sempre de uma pontinha ligeira de poesia que
vá direita ao
coração e entretenha, em quem lê, as
faculdades emotivas, de
preferencia, mesmo, ás faculdades
intellectuaes...»
Releio
Os meus amores, o livro dos seus contos.
É o
primeiro d'elles,
Idylio rustico, de uma
deliciosa simplicidade de
aguarella, parece
que feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr
de
sovaco de andorinha e não sei com que singular sabor
eucharistico de primeira
communhão... É um sonho de absynto, que serve de
aperitivo divino para a leitura soffrega de todo o livro. Dois
pastoritos ingenuos, a Rosaria e o Gonçalo, encontram-se e
approximam-se, n'uma indecisa
alvorada de derriço, cheios de boas
tenções e
puros ideaes. Acontece, porém, que por viverem longe, raras
vezes se falam, e quando essa ventura lhes
é dada, imaginem os que como elles se amem a alegria que
inunda aquellas duas almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias
longas, quiz Deus
que os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam
levando
seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
juntos os corações traziam, e desde que nasce o
sol até que o sol se põe, vagueam nas frescuras
marginaes do rio, a par, e
sós, elle dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com
murmurios d'agua correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz
d'alma idylica de illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe
immenso a separação, o Gonçalo a
convida a
continuarem juntos, deixando que as ovelhas durmam em mistura e que
passem elles a noitada sobre o mesmo colmo, ao abrigo da mesma cabana.
Não sem certa instinctiva
reluctancia, Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro,
tornando as mantas cobertor commum, e pousando as cabeças
nos bornaes
unidos, parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo,
e os bons dos namorados, n'uma placida
orchestração
final que se smorza, referem-se casos de moiras encantadas, e assim
pegam no somno e adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar:
sente a tristeza
da maldade nossa.
Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que
vamos bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante
algumas
horas bem fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos
provincianos que elle nos pinta, tão real e verdadeiramente
como se
lá estivessemos; em companhia d'aquelles typos que elle
retrata, tão
photographicos, tão nitidos, que é estar a gente
a vel-os, a ouvil-os, a
falar-lhes, a deitar-lhes o braço pelo hombro...
Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao
serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão
estranhas, tão novas, tão encantadoras surprezas!
Quizera eu, inedita, bem fresca,
pela primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante
comparação:—dir-se-ia traçada com uma
penna d'aguia... arrancada d'uma aza de pomba.
Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que
parecem possuir o raro condão de nunca envelhecerem no
espirito de
quem os lê. Relêr o que elle escreve é
sentir o mesmo prazer,
sempre renovado, de quando se contempla pela centesima vez algum
querido, precioso objecto,
que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse
de eterna seducção, que só disfructam
as obras
em que o artista deixou pedaços da sua alma.—
Alfredo
Mesquita.»
Do Poema do Ideal: