Tentugal?
Que manhã! E não quereres vir…
Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
É logo alli: quinze kilometros, é perto.
Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
Uma colonia de phtysicos, a ares!…
Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
Ver-vos-ei, la, um dia, onde se encontra tudo:
A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!
Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
Á natureza e o sol a semear Justiça!
Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
Mas o trem voa á desfilada…—Olá! arreda!
(Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
E assim n'este galope, a charrette rodando,
Já de Tentugal se vae quazi approximando:
S. João do Campo já nos fica muito atraz…
Assim, Malhado! puxa! Bravo, meu rapaz!
Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
Emfim!
Tentugal toda a rir de cazas brancas!
A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
E contrariado vou de todas essas vezes.
Venho ao convento vizitar a linda freira,
Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
Tem de recheio o coração da minha amada.
Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…—Traz?—Não!
Regresso a Coimbra só com o meu coração.
Coimbra, 1888-1889-1890.
*Para As Raparigas de Coimbra*
1
Ó choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nós:
És tal qual meu avôzinho,
Falta-te apenas a voz.
2
Minha capa vos acoite
Que é p'ra vos agazalhar:
Se por fóra é cor da noite,
Por dentro é cor do luar…
3
Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobraes, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do céu!
4
A sereia é muito arisca,
Pescador, que estás ao sol:
Não cae, tolinho, a essa isca…
Só pondo uma flor no anzol!
5
A lua é a hostia branquinha,
Onde está Nosso Senhor:
É d'uma certa farinha
Que não apanha bolor!
6
Vou a encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu'é da tua agoa?
Qu'é dos prantos que eu chorei?
7
A cabra da velha Torre,
Meu amor, chama por mim:
Quando um estudante morre,
Os sinos chamam, assim.
8
—E só porque o mundo zomba
Que poes luto? Importa lá!
Antes te vistas de pomba…
—Pombas pretas tambem ha!
9
Therezinhas! Ursulinas!
Tardes de novena, adeus!
Os corações ás batinas
Que diriam? sabe-o Deus…
10
Teu coração é uma igreja:
N'uma eça dorme, alli,
Manoel, bemdito seja,
Que morreu d'amor por ti.
11
Manoel no Pio repoiza:
Todos os dias, lá vou
Ver se quer alguma coiza,
Perguntar como passou.
12
Agora, são tudo amores
A roda de mim, no Caes,
E, mal se apanham doutores,
Partem e não voltam mais…
13
Aos olhos da minha fronte
Vinde os cantaros encher:
Não ha, assim, segunda fonte
Com duas bicas a correr!
14
Nossa Senhora faz meia
Com linha feita de luz:
O novello é a lua-cheia,
As meias são p'ra Jezus.
15
Meu violão é um cortiço,
Tem por abelhas os sons
Que fabricam, valha-me isso,
Fadinhos de mel, tão bons…
16
Ó fogueiras, ó cantigas,
Saudades! recordações!
Bailae, bailae, raparigas!
Batei, batei, corações!
Coimbra, 1890.
*Luzitania no Bairro-Latino*
Só!
Ai do Luziada, coitado,
Que não tem mãe, nem tem avó,
Que não ama, nem é amado…
Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
Que triste foi o seu fado!
Antes fosse p'ra soldado,
Antes fosse p'ro Brazil…
Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que S. Silvestre fazia andar…
Formozas cabras, muito pequeninas,
Loiras vaquinhas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
Meus bibes eram da sua lã…
Antonio era o pastor d'esse rebanho:
Com ellas ia para os montes, a pastar.
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto d'ellas era o meu jantar…
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Com essas boas irmãzinhas
A quem só mingoava a falla
Para serem perfeitas criaturinhas…
E quando na Igreja das Alvas Saudades
Que era da minha Torre a freguezia,
Batiam as Trindades,
Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava Ave-Maria…
E as doces ovelhinhas imitavam-me.
Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite…
Um dia, os castellos cairam do Ar!
As oliveiras seccaram,
Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
Sairam-me os ladrões, só me deixaram
As velas do moinho… mas rôtas e velhas!
Que triste fado!
Antes fosse aleijadinho,
Antes doido, antes cego…
Ai do Luziada, coitado!
Veio da terra, mail-o seu moinho:
Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
É negra a sua farinha!
Orae por elle! tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade…
Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanarios, ó luas cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que cegas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando…
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes mineraes,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!
Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?
Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca a fiar,
Cabello todo em caracoes!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzoes!
Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
Ó romaria do Senhor do Viandante!
Procissões com muzica e anjinhos!
Srs. Abbades d'Amarante,
Com trez ninhadas de sobrinhos!
Onde estaes? onde estaes?
Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
Cidade triste agazalhada entre choupaes!
Ó dobres dos poentes, ás Ave-Marias!
Ó Cabo do Mundo! Moreira da Maia!
Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
Fortalezas de Lipp! ó fosso do Castello,
Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
Onde se enroscam como espozos as lagartas!
Sr. Governador a podar as rozeiras!
Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!
Que é feito de vós?
Fallaveis aos barcos que andavam, la fora,
Pelo porta-voz…
Arrabalde, maritimo da França,
Conta-me a historia da Princeza Magalona,
E do Senhor de Calais,
Mais o naufragio do vapor Perseverança,
Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
Ó pharolim da Barra, lindo, de bandeiras,
Para os vapores a fazer signaes!
Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
Diccionario magnifico de cores!
Alvas espumas, espumando a fragua,
Ou rebentando, á noite, como flores!
Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
Cheias de brigues como pinhaes…
Morenos mareantes, trigueiros pastores!
Onde estaes, onde estaes?
Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
Cuja Abbadessa secular é a Lua
E cujo Padre-capellão é o Vento…
Agoa salgada d'esses verdes poços,
Que nenhum balde, por maior, escua!
Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!
Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadaver ainda com véu…
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta…
Boccas abertas que ainda soltam ais!
Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!
Onde estaes, onde estaes?
Ó Boa Nova, ermida á beira-mar,
Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da Senhora, coberto de luzes!
Ó poentes da Barra, que fazem desmaios…
Ó Sant'Anna, ao luar, cheia de cruzes!
Ó logar de Roldao! villa de Perafita!
Aldeia de Gonsalves! Mesticoza!
Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
Agoa fresquinha d'Amoroza!
Rebolos pela areia! Ó praia da Memoria!
Onde o Sr. D. Pedro, Rei-soldado,
Atracou, diz a Historia,
No dia… não estou lembrado;
Ó capellinha do Senhor d'Areia,
Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
Algas! farrapos do vestido da sereia!
Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
Poveiros, que ides para as vinte braças,
Sol-por, entre pinhaes…
Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!
Onde estaes?
2
Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
Traze o teu livro, toma as tuas notas:
Oh as lanchas dos poveiros
A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que extranho é!
Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
Á espera da maré,
Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos á uma. «Agôra! agôra! agôra!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar,
Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rozario de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:
S^{nra} Nagonia!
Olha, acolá!
Que linda vae com seu erro de ortographia…
Quem me dera ir lá!
Senhora Da guarda!
(Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
Senhora d'ajuda! Ora pro nobis! Calluda! Sêmos probes! S^{enr} dos ramos! Istrella do mar! Ca bamos!
Parecem Nossa Senhora, a andar.
S^{ra} da luz!
Parece o pharol…
Maim de Jesus!
É tal qual ella, se lhe dá o sol!
S^r dos Passos! Sinhora da Ora!
Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
Parecem ermidas caiadas por fóra…
S^{nr} dos Navegantes! Senhor de Matuzinhos!
Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
A mail-os quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar…
Senhora aos aflitos! Martyr Sao Sebastiao! Ouvi os nossos gritos! Deus nos leve pla mao! Bamos em paz!
Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!
Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jéques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos rythmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
«As armas e os barões assignalados…»
Lá sae a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira…
Como ella corre! com que força o vento a impelle:
Bamos com Deus!
Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
Por esse mar de Christo…
Adeus! adeus! adeus!
3
Georges! anda ver meu pàiz de romarias
E procissões!
Olha essas moças, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
Gula e luxuria dos Maneis!
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anneis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta coraçoes!
Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
Toca a bailar!
Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
Que hão de gostar!
Tira o chapéu, silencio!
Passa a procissão.
Estralejam foguetes e morteiros.
Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
Honestos e morenos cavalheiros.
Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
Parecem Torres de David, na amplidão!
Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!
Os anjinhos!
Vêm a suar:
Infantes de trez annos, coitadinhos!
Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
Que elles mal sabem andar…
Esta que passa é a Noite cheia de astros!
(Assim estava, em certo dia, na Judeia)
Aquelle é o Sol! (Que bom o sol de olhos pintados!)
E aquella outra é a Lua-Cheia!
Seus doces olhos fazem luar…
Essa, acolá, leva na mão os Dados,
Mas perde tudo se vae jogar.
E esta que passa, toda de arminhos,
(Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
Leva, sorrindo a Coroa dos Espinhos,
Flor de criança que os não tem.
E que bonita vae a Esponja de Fel!
Mal ella sabe, a innocentinha…
Nas suas mãos a Esponja deita mel:
Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
Lá vem a Lança! A bainha
Traz ainda o sangue da Sexta-feira…
Jezus!
Que maravilha de criança!
O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…
Passa o ultimo, o Sudario!
O corpo de Jezus, Nosso Senhor…
Parece o sol-por!
E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
É o Oceano Atlantico!
O bom povinho de fato novo,
Nas violas de arame soluça, romantico,
Fadinhos chorozos da su'alma beata.
Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.
Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
Como a velha cabeça aureolada de Deus!
Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.
Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas! Pão de ló de Margaride! Agoinha fresca da Moirama! Vinho verde a escorrer da vide!
Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
E uma netinha com um ramo de loireiro
Enxota as moscas, do moribundo…
Dança de roda mail-as moças o coveiro.
Clama um ceguinho:
«Não ha maior desgraça n'esta vida,
Que ser ceguinho!»
Outro, moreno, mostra uma perna partida!
Mas fede tanto, coitadinho…
Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
Labareda de cancros em fogueira,
Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
Ó Georges, ve! que excepcional cravina…
Que lindos cravos para por na botoeira!
Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
Tragicos, uivam «uma esmola plas alminhas
Das suas obrigações!»
Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…
Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
Onde estão elles que não vêm pintar!
Pariz, 1890-1891.
*Os Figos Pretos*
—Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
Vós sois odiadas desde os seculos avós:
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!
—Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
Deixae-o fallar!
Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
Que bom que é amar!
—O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.
—Quando eu for defunta para os esqueletos,
Ponde uma ao meu lado:
Tristinha, chorando, darà figos pretos…
De luto pezado!
—Os aldeões para evitar vosso perfume
Sua respiração suspendem, ao passar…
Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
Os carpinteiros não vos querem aplainar.
—Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
Que incensa o Senhor!
Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
Para o meu amor…
—As outras arvores não são vossas amigas…
Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
Com essas folhas, sois como velhas mendigas
N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!
—Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
E cheias de figos!
Os ricos là passam e não vos dao nada,
Vos daes aos mendigos…
—Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
Utilizada para as forcas, onde as ha…
—Que màs creaturas! que injustas sois todas
Que injustas que sois!
Serà de figueira meu leito da bodas…
E os berços, depois
—Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!
—Tambem era negro, de negro cegava
O pranto, o rosario,
Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
Alguem, no Calvario…
—E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
Se os figos caem de maduros, pelo chão:
Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
A chorar, a chorar sua alta traição!
—Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
Deixae-o fallar!
Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
Cantar e bailar…
Coimbra, 1889.
*Febre Vermelha*
Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
Para que em vosso seio o labio meu se atole:
Beber até cair, bebedo, para o lado!
Quero beber, beber até o ultimo gole!
Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
As ondas como o oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ophelias de luar…
Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…
Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
E eu ando a construir meu cortiço de mel…
Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
Tintos da mesma cor os corações e as balas!…
Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…
Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!
Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
O triste fado que me deu Nosso Senhor…
Scismo já farto de velar minha alma doente,
Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
A uivar, como os leões quando os ataca a sede!
Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
Por um Titan de bronze atirado a esses céus!
Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…
Leça, 1886.
*Poentes de França*
—Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!
—Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
Ó poentes de França! não vos amo, não!
—Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!
Ó sol, às Trindades, atraz dos pinheiros,
Á hora em que passam branquinhos moleiros,
Levando farinha p'ra cozer o pão!
—Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!
—Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
Ó poentes de França! não vos amo, não!
—Arco da Velha, a rir rizos de sete cores!
Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!
Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
Quando vem das sachas o Sr. Joao…
—Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
Varaste os corações d'um exercito em fila!
—Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
Ó poentes de França! não vos amo, não!
—Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
E roxos e cardeaes e amarellos e azues!
—Ó hora em que passam moças e meninas
Que, em tardes de Maio, vão às Ursulinas,
Com rozas nos seios e um livro na mão…
—Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
A tua saude erguer a minha taça ardente!
Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!
—Eu amo os poentes, mas sem agonias,
Ó poentes de França! não vos amo, não!
—Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
A tua porta os marinheiros vão bater:
Lá vejo os astros por seus calices de prata,
Na Taverna do Occaso, a beber, a beber…
Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
Ó céus como escarros, às Ave-Marias!
Ó poentes de França! não vos amo, não!
Pariz, 1891.
*Pobre Tysica*!
Quando ella passa á minha porta,
Magra, livida, quazi morta,
E vae até á beira-mar,
Labios brancos, olhos pizados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração poe-se a chorar…
Perpassa leve como a folha,
E suspirando, ás vezes, olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupillas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as azas para voar!
Veste um habito cor de leite,
Saiinha liza, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
«Noiva feliz, que vaes cazar…»
Triste, acompanha-a um Terra-Nova
Que, dentro em pouco, á fria cova
A irá de vez acompanhar…
O chão desnuda com cautella,
Que Boy conhece o estado d'ella:
Quando ella tosse, poe-se a uivar!
E, assim, sósinha com a aia,
Ao sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bébés, que é o seu logar…
E o Oceano, tremulo avôzinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vem ter com ella a conversar…
Fallam de sonhos, de anjos, e elle
Falla d'amor, falla d'aquelle
Que tanto e tanto a faz penar…
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»
Sarar? Mizerrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encommendar:
Corpinho d'anjo, casto e inerme,
Vae ser amada pelo Verme:
O bichos vão-na desfructar…
Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fuzos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar…
E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
Eu julgo ouvir n'uma officina
Taboas do seu caixão pregar!
Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam igneas chammas…
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautella! O outomno está a chegar…
Leça, 1889.
*A Poezia do Outomno*
Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!
Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!
Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando…
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!
O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.
E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!
Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes…
Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!
Porto, 1886.
S.^{ta} Iria
N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
Pequenino baixel, a santa vae boiando…
Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
E, diluido, ve-se as agoas aloirando.
Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
E, com a graça etherea e meiga das crianças,
Formosa Iria vae boiando, vae boiando…
Á lua, cantam as aldeãs de Riba-Joia,
E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»
Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
A mãe do pescador, rezando a ladainha
Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…
Leça, 1885.
*Enterro de Ophelia*
Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
(Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
Como padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…
Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla,
D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…
O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…
Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!
Leça, 1888.
*Ballada do Caixão*
O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte…
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer,
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!…)
—Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva?—Vamos ver…
Olhou, mexeu na caza toda…
—Eis aqui um e bem barato.
—Está na moda?—Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda…)
—Quando posso mandar buscal-o?
—Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o…)
Ó meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!
Pariz, 1891.
*Á Toa*
O Primeiro Homem
Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.
A Montanha
Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
E veias do meu corpo os azulados rios.
Os Rios
Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!
A Lua
Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…
A Terra
E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!
A Macieira
Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
Abanae a macieira e cairão estrellas!
A Estrellas
No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
E formamos, assim, as Estrellas-do-mar…
O Mar
Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
Accendei meu altar, relampagos vermelhos!
Os Relampagos
Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…
O Infinito
Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…
A Esperança
Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.
Os Cyprestes
Para apontar os céus, como dedos funereos,
Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…
Os Cemiterios
Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!
Os Mortos
Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!
Porto, 1885.
*A Vida*
Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
Ó olhos negros como noites, como poços!
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
Ó puros como o céu! ó tristes como levas
De degredados!
Ó Quarta-feira de Trevas!
Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que vão na diligencia pela serra!
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha…
Olhos tranquillos e serenos como pias!
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias
Cheias de Luz! Olhos sem par e sem irmãos,
Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
E milagrozos, e misericordiozos,
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…
Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
De que te serve ter uns astros sem eguaes?
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
O mar a uivar! A espuma verde das marés!
Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
A arder entre clarões de coleras! O orgulho
Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
Quantos suores sem proveito! quantas taças
A trasbordar veneno em espumantes boccas!
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
E aquella que não sae por ter uzada a saia!
E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
Olha essa procissão que passa: um torturado
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
E para ser feliz fez todos os esforços…
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
Como dez annos de prizão maior-cellular!
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
Olha o bébé que teve Torre de coral
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
Olha esse olhar que têm os homens da politica!
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
Olha esse que não tem talento e o julga ter
E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
Olha um velhinho a carregar com a farinha
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
Olha a sair a barra a galera Gentil
E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…
Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!
Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
A Terra!
Ó meu amor! antes fosses ceguinha…
Pariz, 1891.
*O Somno de João*
O João dorme… (Ó Maria,
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar…)
Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria… um morango!
Podia engulil-o um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores…
Mas os astros são menores!
O João dorme… Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho…
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar…
O João dorme… Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
Não acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é…
Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir…
Tudo vae sem se sentir.»
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… até morrer!
E tu vel-o-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! Que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo…
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João… ficarão menores!
Mas para isso, ó Maria!
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar…
E os annos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha tambem)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas:
Morrerá sem o sentir,
Isto é deixa de dormir…
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde elle veio…
Mas para isso, ó Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais davagar:
Não vá o João, acordar…
Pariz, 1891.
*Ao Canto do Lume*
Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen o d'estas noites immortaes!
Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
E quando todo se extinguir na aurea chamma,
Eu botarei (para que serve? já não ama…)
As cinzas brancas, meu vermelho coração!
Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
Cautella… Orçae! Largae a escota! Ave Maria!
Cheia de Graça… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
Que triste ver defuntos a boiar!
Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
Nada ha peior que este somnambulo abandono!
Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!
A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
Que felizes, sois prestes a partir!
Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…
Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…
Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
—Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
Coitado de quem fica… Adeus! adeus!
Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
—Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
E a Agueda beber agoa do Botareu…
Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
Paizes raros, Neves, Areiaes;
Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
Armei na França minha tenda de campanha…
E tedio, tedio, tedio e nada mais!
Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
Tal como aspirações irrealizaveis, ai!
Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
Agora, trago uma medalha sobre o seio
Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.
Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!
Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
Pelo luar da lua de Canaan:
Quero passar o além que para além se alteia,
A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
E um logarejo a Estrella da Manhã!
(E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen mortal o d'estas noites immortaes!
Pariz, 1890-1891.
*A Sombra*
Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
Que já a lua, a sentinella, rende
Na esplanada do céu, ás portas do Castello…
Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
Com o cabello separado ao meio,
Todo caido para traz, como o de Christo!
Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
Quantas lembranças d'este peito arranco!
Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!
Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!
Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
Terá ainda a mesma voz tranquilla?
Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…
Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
«Anda commigo…»
Coimbra, 1888.
*O Meu Cachimbo*
Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu, meu thuribudo sagrado!
Com que, bom Abbade, incenso
A Abbadia do meu passado.
Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que lá vae,
Quando fumava, ainda criança,
Ás escondidas do meu Pae.
Vejo passar a minha vida,
Como n'um grande cosmorama:
Homem feito, pallida Ermida,
Infante, pela mão da ama…
Por alta noite, ás horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para fallar comtigo a sós.
E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
Alli, mettido no buraco,
Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.
Chorando (penso e não o digo)
Os olhos fitos neste chão,
Que tu és leal, és meu amigo…
Os meus amigos onde estão?
Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
Os trez, os intimos, Aquelles,
Estão na Morte, no extrangeiro…
Dos mais não sei, perdi-me d'elles.
Morreram-me uns. Por elles peço
A Deus, quando está de maré:
E, ás noites, quando eu adormeço,
Phantasmas, vêm, pé ante pé…
Tristes, nostalgicos da cova,
Entram. Sorrio-lhes e fallo…
Deixam-se estar na minha alcova,
Até se ouvir cantar o gallo…
Outros, por esses cinco oceanos,
Por esse mundo erram, talvez…
Não me escreveis, ha tantos annos!
Que será feito de vocês?
Hoje, delicias do abandono!
Vivo na paz, vivo no limbo:
Os meus amigos são o Outomno,
O Mar e tu, ó meu Cachimbo!
Ah! quando for do meu enterro,
Quando eu partir gelado, emfim,
No meu caixão de mogno e ferro,
Quero que vás ao pé de mim.
Santa mulher que me tratares,
Quando em teus braços desfalleça,
Caso meus olhos não cerrares,
Embora! Que isto não te esqueça:
Colloca, sob a travesseira,
O meu cachimbo singular
E enche-o, sollicita enfermeira,
Com Gold-Fly, para eu fumar…
Como passar a noite, amigo!
No Hotel da Cova sem conforto?
Assim, levando-te commigo,
Esquecer-me-ei de que estou morto…
Coimbra, 1889.
*Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*
Memoria
A J. d'Oliveira Macedo,
Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.
Ás horas do crepusculo, ao Bemdito,
Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
Vae dar o leite ás cazas do Infinito…
Ás horas das Trindades, á noitinha,
Quando ha milagres e sublimes couzas
E caza o rouxinol com a andorinha…
Quando a alma das virgens religiozas,
Triste se envolve n'um burel de magoa
E os anjos noivam mail-as suas Rozas…
Quando o luar azula a espuma, a fragua,
E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
Como que tem os olhos razos de agoa…
N'essa hora indeciza, augustiada,
Em que o universo está, meio ás escuras,
Que não se sabe se é antes a alvorada:
Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
Essa radioza lagryma de pranto
Que despedem, morrendo, as criaturas.
E ao vir da noite, livido de espanto,
Vi uma estrella a mais no azul do céu:
É que um poeta, um justo, um bom, um santo,
Ás horas do crepusculo… morreu!
O simples coração de Julieta
Dentro da alma clara de Romeu!
Uma criação de Deus, mas incompleta:
Aguia, encerrando um coração de pomba,
Cedro que dava folhas de violeta!
Ah, quando vejo alguma flor que tomba
Meu coração estorce-se de dor,
De Deus minha alma inconsolavel zomba!
Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
Aos ventos, aos relampagos, ficou
N'este Valle de Lagrymas, Senhor!
Quem lhe dera a mortalha que levou
Toda coberta do cabello loiro
Da mystica menina que elle amou!
Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
Na janella que deita para o mar,
Soltas ao vento as suas tranças de oiro!
Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
Deixae do céu a vossa luz tombar!
Ó aves, que trazeis a primavera,
Para cobrir o solitario ninho,
Ide buscar á sua campa a hera!
Ó pombas de luar, pombas de linho,
Que ides tão alto, divagando errantes,
Quazi mortas, perdidas no caminho:
Do vento sobre as azas triumphantes
Prendei a aza e, assim, acompanhae
O scismador que vos cantava d'antes!
Elle precorre victoriozo, olhae!
Entre espumas de brancas andorinhas
O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!
Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
E beijos com as pallidas mãozinhas…
Mas elle vae boiando nos espaços,
Sendo o seu corpo uma subtil galera
Com leves remos de marfim, seus braços…
Onde vae elle? a que ditoza esphera
Velhinha Morte a sua alma guia?…
Que vida immensa, lá no céu, o espera!
Para ganhar o pão de cada dia
Cuidará da lavoira, mais das flores,
Lavrando as terras da Virgem Maria!
Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
N'uma herdade do céu, entre charruas,
A cavar entre simples lavradores,
Semeando estrellas e plantando luas…
E ainda o choram, que feliz desgosto!
O vento passa a uivar por essas ruas…
E um oleo algente, excepcional composto,
Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.
E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
Não chores mais estrella azul do Norte!
Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
E, como a juba d'um leao hirsuto,
O cedro curva, em tempestade, a fronte;
Os pallidos jasmins vestem de luto…
Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.
Formozo, branco, meigo, sorridente,
Com esses olhos que parecem soes,
Vaes repoizar na cova, eternamente.
O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
E allumia-te a bocca de criança,
O sorrizo dos virgens, dos heroes!
E o corpo teu na cova, essa esperança
Eterna como os seculos e as flores,
Entre verduras, afinal, descança…
Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
Abrem as campas, lugubres cavernas:
O coveiro é o melhor dos constructores!
Covas que elle abra são cazas eternas.
Leça, 1885.
*Quando Chegar a Hora*
Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
Olhe: eu mesmo lh'a meço…
O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
Que m'a venha elle abrir.
E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
A minha alma é dia!
Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
De padres farão.
Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
Em tiras, para o ninho!
E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
Sugae! sugae! sugae!
Raro têm de comer. A pobreza consome
As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas…
De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato,
No dia em que nasci.
Seixo, 1886.
*Certa Velhinha*
1
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
Cautella, velhinha, não vás tropeçar!
Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da Barra puxado do sul?
Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!
Contava-me aquella que a tumba já cerra,
Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem…
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes!
Quaes velas accezas que a vêm a guiar…
Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
É o céu estrellado vestido do envez…
Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor…
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
So no céu ha uvas com aquella cor…
A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha…
Que noite de inverno que parece verão!
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a Torre de Marfim, a andar!
Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a Torre de Marfim, a andar,
Que pela tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite destas, eu vejo passar…
Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é…
—Jezus! Jezus!
2
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Já não é a velhinha que vae a passar:
Um grande cortejo cheiinho de luzes,
Anninhas da Eira que vae a enterrar.
Falla d'um pastor:
«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
Cantae, raparigas, cantae e chorae!
Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
Como um passarinho, sem soltar um ai.
Quando era pequeno, levava-me á escola,
E quando, mais tarde, cresci e medrei,
Oh danças nas eiras, ao som da viola!
Nas danças de roda, que beijos lhe dei!
Os annos vieram, os annos passaram,
Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
Perdi-a de todo, nunca mais a vi…
E além, na tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite d'estas com vento a ventar,
Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!
Olá! bons senhores, vestidos de preto,
Deixae a defunta, que a levarei eu!
O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
O caixão de Anninhas é tambem o meu!
Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
A rezar por ella, sob o temporal!
Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
Cruzes da tapada, em forma de punhal!»
Mas os bons senhores, de preto vestidos,
Cigarros accezos, e velas na mão,
Lá passam ao vento, com sete sentidos,
Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…
«Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
Com suas mãosinhas, agora tão frias,
Irá na viagem a dizer-me adeus…
Ó vento que passas! corcel de rajada!
Assenta-nos ambos no mesmo selim:
Quero ir mais ella na longa jornada…
Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!
Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
Quero ir como ella, assim de mãos postas…
Quero ir com Anninhas para onde ella for!
Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»
3
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes…
Aonde irá ella? Quem irá buscar?
Pariz, 1891.
*Males de Anto*
A Ares n'uma aldeia
Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
Comia terra, embebedava-me com luz!
Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
(Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.