Tumulos
Durante o periodo, de que tratamos, os tumulos eram notaveis pelo emprego de marmores de variadissimas côres.
Apparecem alguns com a fórma das antigas quilhas de navios, apresentando o bôjo dos dois lados; porém, as fórmas da época antecedente continuam ainda a ser seguidas, apparecendo por esta rasão as estatuas dos finados deitadas sobre as campas; porém o maior numero eram representados de joelhos como se estivessem em oração, pag. 307 [fig. 289].
Em Portugal são raros os tumulos d'essa época, em que appareçam representados em vulto os finados que n'elles jazem.
ARCHITECTURA CIVIL
Se lançarmos a vista sobre a architectura civil da França, da Allemanha e da Belgica, no seculo XVII, veremos que se construia grande numero de casas com elevadissimas empenas com os lados em fórma de degraus e rematadas por grandissimas quartellas, que datam do seculo XVI, pag. 308 [fig. 290].
Figura
Figura 290: Casa
allemã da primeira metade do seculo XVII
A empena da gravura que damos para exemplo d'esta especie de construcções é de 1620.
No seculo XVII, as casas mais importantes tinham as escadas com patamares mui espaçosos; e os pontos de apoio eram executados com demasiada grossura. Os balaustres da grade da escada tinham a fórma quadrangular e o seu corrimão era tambem de grande grossura.
As duas gravuras das pag. 309 [fig. 291] e 310 [fig. 292], mostram o estylo das casas do seculo XVII. Na primeira gravura, já as janellas não têem pinazios de cantaria, assim como as vidraças não têem os caixilhos guarnecidos de chumbo para segurar os vidros, sendo substituidos por pinazios de madeira. As trapeiras conservam as primitivas fórmas, mostrando os prumos recortados em fórma de quartellas, e os seus frontões de feitio circular ou triangular, conforme eram empregados no seculo XVI. Os pannos das chaminés tinham a fórma quadrangular, e terminavam em frontões.
A outra casa, que é de estylo mais adiantado, pois data de 1664, apresenta um bello portal terminado por frontão, os telhados com bastante elevação, e as chaminés extremamente altas.
Estas combinações são caracteristicas do seculo XVII.
Ha nos suburbios de Lisboa, no palacio de Palhavã (que foi por nós restaurado e ampliado no anno de 1862), um bellissimo portal, no estylo Toscano, de perfeita composição e obra de acabamento apurado, e haverá poucos nos outros paizes que lhe possam ser comparados, e sem duvida o celebre architecto Vignola não se negaria a firmar com a sua assignatura o desenho para esta construcção, tanto mais por ser delineado segundo a escola d'este artista.
O estylo da primeira metade do seculo XVII, o qual predominou durante o principio do seculo seguinte, apresenta um caracter grandioso, e os monumentos d'essa época distinguem-se, pelo seu nobre aspecto, das outras edificações mais importantes do tempo presente.
As outras gravuras apresentam construcções pertencentes ao ultimo quartel do seculo XVII, e seguem a ordem da antiguidade de suas edificações. A primeira gravura pertence a uma azenha, posto que na sua fachada parecerá um palacete. É do anno de 1664, pag. 311 [fig. 293].
As duas partes symetricas flanqueadas por pilastras e o frontão separado por muitas ordens de frizos sobrepostos, (de pessimo effeito) que occupa a parte central, parecem caracterisar uma data um pouco mais antiga, posto que este estylo se perpetuou, em alguns monumentos, até ao principio do seculo XVIII.
A parte da casa de Harcourt, que representa a outra gravura, pag. 312 [fig. 294], pertence ao principio do seculo XVIII, mas foi edificio delineado com mais talento e apresenta um aspecto mais regular e nobre. No seculo XVIII a architectura modificou-se sensivelmente, e o grande numero dos edificios d'esta época está bem patente, e será escusado descrever o seu caracter architectonico.
No actual seculo XIX, tem-se feito bastantes alterações na architectura, e por isso não apresenta um caracter bem distincto, o que se deverá attribuir ao estado presente social; portanto, não se póde definir a fórma do estylo que deverá representar a sua architectura.
Finalmente para que qualquer estudo offereça sempre interesse para ser cultivado pelos estudantes, é preciso não se explicar tudo aos principiantes, sobre a materia de que se occupam, mui principalmente n'esta moderna sciencia; para que a curiosidade de a profundar lhes desperte o desejo de se instruirem cada vez mais, o que lhes facilitará gradualmente o seu desenvolvimento; afim de evitar que uma demasiada applicação venha a produzir-lhes o cansaço em conhecer todos os segredos da archeologia, porque o estudo se não é facil, é sobejamente agradavel e util. Por minha parte, julgar-me-hei feliz se as noções que deixo n'estas paginas, poderem suscitar o amor a tão profícuos estudos, porque d'ahi, no meu entender, virá engrandecimento para o nosso fim.
[1] Dolmen é composto de duas palavras celticas, dol mesa, e men pedra.
[2] Menhir e peulvan derivam da língua celtica, e têem quasi a mesma significação; compõem-se de duas palavras men pedra, e hir longo; peul, pilar, vain ou maen, pedra: isto é, pedra alongada.
[3] Nome composto de duas palavras dos bretões: crom, curva; leck, pedra.
[4] Esta palavra é saxonia e significa «pedras enfileiradas.»
[5] Os antiquarios inglezes designam pelo nome de trilithos a mesma combinação de pedras, indicando um monumento composto de tres grandes pedras.
[6] King era da opinião de que havendo pedras erguidas no centro dos circulos, eram estes destinados para as assembléas civis; em quanto aquelles em que havia dolmen serviam para as ceremonias religiosas.
[7] Antigamente os orientaes tinham, como os celtas, veneração religiosa pelas grandes pedras toscas; assim como os hebreus, a ponto de Moysés lhes prohibir que as adorassem.
[8] É notavel que a relação da liga d'este metal, seja egual á dos bronzes descobertos em regiões tão distantes.
[9] Os machados e frechas achados na Europa comparados com os que usavam os selvagens da America e os da Nova Hollanda e da Nova Zelandia, causam admiração por terem as mesmas formas, e muitas vezes, egual materia.
[10] Collocavam tambem nas estradas pedras que serviam para descançar os viajantes, e para os cavalheiros montarem a cavallo.
[11] Talvez seja derivado da palavra musæ, as musas, porque era principalmente nos templos d'estas deusas que o pavimento de musaico fôra empregado.
[12] Como foi descoberto, n'este anno, no Outeiro de Ferreira de Zezere um forno romano, tendo dentro telhas curvas com lavôres.
[13] Actualmente está entulhada até a nascença do arco da abobada.
[14] As de oliveira para Minerva; as de murta para Venus; as do pinheiro para Pan, etc.
[15] No tempo do imperador Justiniano houve uma luta entre a facção verde e azul, em que pereceram 40:000 homens. Depois d'este horrivel acontecimento ficaram abolidas as côres.
[16] Caligula consentiu em que pozessem almofadas ou tapetes nos assentos de pedra.
[17] Os logares estavam numerados e gravados na pedra, e cada espectador entrava com um bilhete de forma circular tossera theatralis, que designava o logar que devia occupar.
[18] Foi Quinto Catulos o primeiro que mandou estender um toldo de purpura.
[19] Suppõe-se que o uso de immolar os primeiros sobre o tumulo dos guerreiros, e os escravos sobre a sepultura de seus donos, deram origem a estes combates.
[20] Pompeu foi quem introduziu este uso em Roma; e Mecenas quem construiu primeiro estes monumentos publicos.
[21] Nas thermas d'este imperador havia 1:600 banheiras de porphyro e marmore; e n'este edificio podiam 3:000 pessoas tomar banho.
[22] Havia em Roma 856 thermas.
[23] Veja-se na gravura da pag. 82 [fig. 69], os algarismos da planta que designam os diversos aposentos.
[24] Depois do incendio de Roma, no tempo de Nero, contavam-se ainda 48:000 casas, separadas umas das outras.
[25] O maior sabio agronomo da antiguidade, nascido no seculo I da era christã.
[26] A mais importante foi a do imperador Adriano, pois comprehendia uma superficie de dez milhas.
[27] O uso de se queimarem os corpos procedia de um mytho religioso que se conservou na Grecia e na Italia até o estabelecimento do christianismo.
[28] O maior cippo descoberto em Portugal foi achado em Citania (Guimarães). É de granito e de extraordinarias dimensões.
[29] Esta palavra de origem grega tem a mesma significação que os romanos davam ao cippo.
[30] Espécie de enxadão, de que os coveiros se serviam.
[31] Em Cetobriga (Setubal) existem cemiterios com os dois modos de enterramentos; o de incineração, estava collocado no centro de Troia, e o outro para os corpos sem serem queimados, existia na margem do Sado.
[32] Que é como a espuma: Venus saindo do mar.
[33] Latona, da qual nasceram, na ilha de Dellos, Apollo e Diana.
[34] Lucina, divindade romana que presidia aos partos.
[35] Como havia na Sé de Lisboa, e na igreja de S. Christovam de Coimbra.
[36] Veja-se a nossa obra, escripta em francez no anno 1868, com o titulo—Mémoire d'Archéologie sur la véritable signification des signes qu'on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal, in-4.º e avec 344 fac-similes.
[37] Mais proprio seria representar o vitello.
[38] Veja-se a nossa obra já citada na nota da pag. 126 e 127 [Nota 36].
[39] Nota-se um dos mais singulares exemplos que se possa imaginar, em um capitel das columnas que sustentam a abobada da sala antiga dos cavalleiros de Luiz XI, na antiga prisão da Conciergerie em Paris; é composto de duas figuras, uma de Heloiza e outra do Abeillard, o qual lhe mostra a mutilação que se lhe praticára!!
[40] Descripção das imagens e paineis antigos.
[41] O mais antigo exemplo em Portugal d'este uso apparece na igreja do famoso mosteiro de Alcobaça; todo o pavimento da igreja era formado de tijolos quadrados de pequenissima dimensão, e só vidrados na face superior, de côr esverdeada; estão presentemente soterrados a 0m,30 por baixo das lageas que cobrem o piso das naves.
[42] Os mais notaveis que possue Portugal são os sarcophagos d'El-Rei D. Affonso Henriques, e D. Sancho I, em Santa Cruz de Coimbra; o d'El-Rei D. Pedro e de D. Ignez de Castro, em Alcobaça; o do Marquez de Vianna em S. Francisco, em Santarem; o d'El-Rei D. Fernando I, no Museu do Carmo.
[43] Como está representado no sarcophago d'El-Rei D. João I, e de sua mulher D. Filippa, no jazigo do convento da Batalha.
[44] Encontra-se no livro da Chronica do Mosteiro a explicação d'esta singularidade, declarando-se ahi que os frades a tinham mandado pôr com o intuito de passarem por cima da figura representada de um abbade, visto que elle fôra em demasia severo para com elles! É textual esta referencia.
[45] Pudemos descobrir ter pertencido ao tumulo de um neto d'El-Rei de França, que fôra casado com uma filha d'El-Rei D. Diniz.
[46] Além de suas grandes dimensões e apropriada disposição, tinha a vantagem de atravessal-a um rio, o que facilitava conservar sempre o peixe vivo dentro da cosinha.
[47] Curvas descriptas com raio maior do que tem a largura da janella.
[48] Como se nota na primeira capella da igreja do Carmo de Lisboa.
[49] Temos exemplos na Sé Velha de Coimbra e na igreja da Batalha.
[50] N'este descobrimos nós o nome do canteiro na base das columnas do angulo sul, o qual estava encoberto debaixo da cal!
[51] Na antiquissima igreja de S. Miguel, em Guimarães, na nave unica que tem, está coberta de campas de granito, mostrando em relevo emblemas guerreiros com o escudo e a lança.
[52] Em Cintra, proximo do Ramalhão, ainda em 1872 existiam os vestigios de uma casa de leprosos, com a sua capellinha; quasi ao meio da estrada ha um tumulo de um bispo, que falleceu ali d'essa enfermidade. Saindo da estação principal dos caminhos de ferro em Setubal, encontra-se á direita, indo para aquella cidade, um bello portal, unico vestigio de uma outra gafaria, que houve n'aquelle sitio.
[53] Como ainda ha na praça de guerra de Elvas.
[54] Como foi construida a praça forte de Villa Viçosa: actualmente em completa ruina.
Tempos prehistoricos
Tempos
prehistoricos
Architectura dos tempos prehistoricos
Utensilios e instrumentos diversos
Objectos de barro
Mappa synoptico das antiguidades prehistoricas
Era gallo-romana
Era
gallo-romana
Architectura
Muralhas de defeza
Inscripções latinas
Idade media
Idade
media
Periodo romano primitivo
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
Era ogival
Era
ogival
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
Era ogival secundaria
Architectura
religiosa
Idem civil
Idem militar
Seculos XV e XVI
Architectura
religiosa
Idem civil
Idem militar
Estylo do renascimento
Estylo
do renascimento
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
Periodo moderno
Periodo
moderno
Architectura religiosa
Idem civil
N.B. As variantes de orthographia e as erratas de pouca monta abstivemo-nos de as indicar, porque facil será ao leitor emendal-as.
O QUE FOI E É A ARCHITECTURA, e o que aprendem os architectos fóra de Portugal, in-8.º, Lisboa, 1833.
NOVA MISCELLANEA RECREATIVA, obra dedicada às senhoras, in-18.º, Lisboa, 1844—Primeira publicação feita em Portugal com letras floreteadas.
REVISTA PITTORESCA DESCRIPTIVA DE PORTUGAL, com vistas photographicas, in-folio-grande, Lisboa, 1862.
DESCRIPÇÃO ARTISTICA das novas salas do real palacio da Ajuda, in-8.º, Lisboa, 1865.
MÉMOIRE DESCRIPTIF du projet d'une restauration pour l'église monumentale de Belem, et modèle fait pour l'Exposition Universelle de Paris, in-8.º, Lisbonne, 1867.
MÉMOIRE DE L'ARCHÉOLOGIE sur la véritable signification des signes qu'on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal, in-4.º, avec 156 figures, Lisbonne, 1867.
DISSERTATION ARTISTIQUE sur l'architecture en Portugal depuis le XII au XVIII siècle, in-8.º, Lisbonne, 1869.
L'ASSAINISSEMENT DE LA VILLE DE LISBONNE, mémoire lû dans le congrès pour l'avancement des sciences, à Bordeaux, in-8.º, 1872.
SOUVENIRS DU CONGRÈS INTERNATIONAL d'Anthropologie et d'Archèologie pré-historique en Bologne, en grand 8.º, avec quatre planches, Lisbonne, 1873.
ELOGIO HISTORICO do architecto civil José da Costa Sequeira, recitado na sessão solemne da Real Associação dos Architectos e Archeologos Portuguezes, in-8.º, Lisboa, 1873.
NOTICE HISTORIQUE ET ARTISTIQUE des principaux édifices religieux du Portugal, in-8.º, Lisbonne, 1873.
ELOGIO HISTORICO do architecto membro do instituto Mr. Victor Baltard, lido na sessão solemne da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, em Maio de 1874, Lisboa, in-4.º