Hospicios

Nas salas dos hospicios encontram-se no seculo XV e no XVI a disposição que já indicámos na grande sala do hospicio de Tonnerre, e em outros; esta disposição é tambem a mesma nos hospitaes d'esta epoca, em Flandres. Porém limitemo-nos a citar um dos mais bellos monumentos conhecidos d'este genero, o hospicio da cidade de Beaune, fundado em 1442.

A aza do meio-dia e a de leste eram divididas até a altura do telhado por uma galeria com dois andares: o primeiro andar d'esta galeria, que faz lembrar os claustros das abbadias, corresponde ás aberturas do plano terreo; o segundo dava serventia aos quartos superiores, formando uma especie de varanda, como era uso construirem-se em um sem numero de casas de madeira dos seculos XV e XVI.

O telhado que cobre esta especie de attica, fica interrompido por grandes trapeiras symetricamente collocadas em duas ordens differentes, cuja disposição dá a esta parte do edificio a apparencia da decoração oriental. As empenas formadas de tres resaltos com duas, tres e até quatro aberturas, são compostas de madeiros reunidos de maneira engenhosa; d'estas especies de frontões recortados se levantam outros tantos grimpos formados por hasteas de ferro cobertas dos mais delicados ornamentos de chumbo. Sobre a fileira veste um delicado arrendado do mesmo metal.


Figura
Figura 248: Especimen da aza meridional do hospicio de Beaune

Na aza do norte, que tem frente para a rua, está situado o salão para os doentes. Imagine-se uma espaçosa e magnifica nave com o seu santuario, os quadros transparentes das suas vidraças de côres, a abobada aquilhada, as vigas servindo de linhas do madeiramento e guarnições pintadas com decoração simples, mas accusadas com franqueza; a grande ogiva da abside, campas tumulares, tres altares do uso oriental, tribuna, cadeiras do côro em forma de cubiculos com rendilhados, além de duas filas de camas com docel: eis o quadro magestoso que offerecia á vista, na origem, esta soberba sala.

Segundo o plano, que dâmos, comprehender-se-ha a disposição e a reunião d'estas salas. No pateo havia um poço com armação de ferro, tendo uma graciosa corôa sustentada por tres hastes de ferro, e rampas com ornatos arrendilhados, as quaes reunidas ao centro formam um telhado conico.


Figura
Figura 249: Plano do hospicio de Beaune

O portal do hospicio do lado da rua (P), tinha como remate um lindo alpendre, especie de baldaquino, em cima do qual, sobre pediculos, estavam as estatuetas de Nossa Senhora, de S. João Baptista e de Santo Antonio.

Armazens—Depositos

Os armazens e depositos continuam no seculo XV a apresentar construcções extraordinarias e com grande elevação. Citaremos para exemplo o de Nuremberg. A porta principal d'este vasto armazem é muito elegante; o tympano tem um escudo de armas e a data da construcção, 1498. O primeiro corpo d'este edificio, para o qual o portal dá saida para a rua, é o mais elevado; sendo dividido até ao telhado, em tres andares, e em quatro se comprehendermos os famosos subterraneos abobadados; depois apresenta seis andares ou galerias sobrepostas umas ás outras.


Figura
Figura 250: Vista exterior d'uma parte do armazem de depositos, em Noremberg

Chafarizes

Os chafarizes com feitio de urna não eram raros no seculo XV. O pedestal d'onde saia a agua caia em tanques e apresentava fórmas bastante variadas; construiam-nos algumas vezes em metal.


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Figura 251: Vista do chafariz de Cully (Calvados)

Entre as fontes sómente com tanque, podemos citar a de Cully, cuja nascente, corre por duas aberturas circulares, nas quaes se vê um pequeno nicho com arcada de feitio trifolio.


Palacios, casas e residencias campestres

Muitos palacios nas cidades, e as grandes residencias campestres, que encerravam todo o necessario para um estabelecimento agricola, offereciam uma importancia tamanha como a dos edificios publicos.

O palacio de Jacques-Cœur, em Bourges, era um dos monumentos civis mais sumptuosos da segunda metade do seculo XV. Citaremos ainda como exemplo aquelle de Cluny, e grande numero de grandes palacios dos seculos XV e XVI. Damos na pagina seguinte a vista geral de uma casa de campo, onde a habitação senhorial está junta á propriedade rural.

N'estas residencias campestres onde se occupavam de agricultura, as diversas casas para esse serviço cercavam o pateo, ora quadrado, ora de forma irregular; e ahi estabeleciam as cocheiras, as cavallariças, os celleiros e os curraes, além da habitação do proprietario.

Nos palacios e nas residencias do campo construidas de cantaria, a escada ficava collocada mui frequentemente em uma torrinha saliente sobre a fachada do edificio, grav. pag. 262 [fig. 253]. Esta torrinha de arestas chanfradas era coberta com telhado em duas aguas, e para se construir esse telhado davam á parte superior da torrinha a forma quadrada, para o que era necessario fazerem-lhe duas abobadas pendentes, afim de ligar os lados cortados com o quadrado de telhado.

As inclinações d'estes telhados eram guarnecidas de crochets em relevo.

Não obstante, havia outras torres que conservavam a mesma forma que tinham na base até ao telhado.

As casas do seculo XV e do principio do XVI, são ainda hoje muito numerosas nas cidades das provincias, as quaes não soffreram, como na capital, transformação completa; apresentam inteiramente os mesmos detalhes na ornamentação, como havia nos outros edificios da mesma época. As esculpturas dos cardos postos nas linhas inclinadas, as folhas de repolho encrespadas, e outras molduras similhantes, ornavam os portaes em ogivas, e algumas vezes tambem as cornijas. As paredes divididas em almofadas guarneciam parte d'ellas.


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Figura 252: Grande solar com casas de exploração rural em Cully (Calvados)

As janellas, quasi todas quadradas e subdivididas por uma cruzeta de pedra, tinham em roda muitos renques de nervuras prismaticas; um cordão descançando sobre caryatides lhe servia de remate.

As janellas abertas no madeiramento, ou trapeiras, eram coroadas por frontões pyramidaes extremamente delicados e por vezes acompanhados de contrafortes ou arcos butantes com recortes e pinaculos cheios de crochets e lavores. Este systema de ornamentação existiu durante a primeira metade do seculo XVI. Encontramos um bello especimen no palacio de justiça em Ruão.

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Figura 253: Torre e escada sustentada por abobadas pendentes

Em certos sitios, onde seria facil achar-se boa pedra, as casas de madeira foram menos numerosas que as casas construidas de cantaria.

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Figura 254: Palacio de Justiça de Ruão


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Figura 255: Casa de cantaria em Saint-Pierre-sur-Dive

N'aquellas que ainda existem, os andares são bastante salientes, ficando em sacada uns sobre os outros, e as partes reentrantes, que apparecem no comprimento da edificação, são ornadas com molduras. Nas gravuras das paginas 266 [fig. 256] e 267 [fig. 257] vêem-se essas sacadas progressivas dos andares uns sobre os outros; nas cidades de grande população viam-se muitas vezes dois andares superiores ao rez-do-chão, e um terceiro andar posto ainda sobre o telhado, o qual recebia luz por grandes trapeiras. O maior numero das casas particulares tinha a empena voltada para o lado da rua; esta disposição era menos frequente nos palacios ou nas habitações das pessoas abastadas.

Damos, por exemplo, duas casas do fim do seculo XV, construidas de cantaria, primeiramente aquella que existe em S. Pedro-sur-Dive, pag. 264 [fig. 255], na margem do rio, e dependentes do mosteiro dos benedictinos: suppõe-se que serviam de tribunal de justiça d'aquella ordem. A torrinha octogona que guarnece os angulos encerra um oratorio muito elegante. As vigas apparentes do tecto das casas, principalmente as das grandes salas, eram ornadas com obras de talha no gosto da época.

A outra casa é mais consideravel com pateo no interior, o qual mostra galerias e escadas com corrimões de pedra rendilhados, communicando com differentes andares, pag. 266 [fig. 256]. A disposição e a parte saliente d'essas galerias produzem n'essas construcções (como em muitas outras, em que o risco é quasi egual), o seu melhor e mais pittoresco efeito. Ás vezes tambem no plano terreo ha arcadas em roda dos palcos.

As duas casas de madeira do Poids-Royal, em São Ló, foram construidas em 1494, e a outra que ainda existe pertence a Honfleur.


Taboletas e esculpturas emblematicas

Nas casas construidas de madeira, sobre os prumos dos angulos era que muitas vezes se esculpiam as figuras emblematicas para servirem de taboleta, como a de S. Julião do Sault, em França. Na praça vê-se outra casa que no seculo XV servia de hospedaria, onde ha esculpluras symbolisando a applicacão que tem a casa; no cunhal do norte, collocaram uma figura de rosto jovial e como offerecendo com uma das mãos um cangirão e com a outra um copo, em que parece convidar a provar do vinho da adega. Por cima, em duplo nicho, via-se a imagem de S. João com o cordeiro e a pelle do camello; e tambem a imagem de S. Thiago de Compostella com o seu bordão e chapêo de peregrino, allusão bem evidenle ás viagens e aos viajantes.

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Figura 256

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Figura 257: Casa de madeira do Poids-Royal, em Saint-Lo

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Figura 258: Casa de madeira, em Honfleur


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Figura 259: Esculpturas sobre uma casa de madeira, em Saint-Julien-de-Sault (Yonne)

No outro cunhal apparece a imagem de Santa Barbara com o livro, a torre e a palma do martyrio, e na parte inferior a imagem da loucura representadas em alto-relevo; a presença d'esta ultima figura equivaleria a ter certamente o seguinte letreiro: Aqui ha diversões e abrigo para os viajantes.


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Figura 260: A cruz de ferro de Saint-Quentin

Juntemos que as taboletas salientes postas da parte de fora das casas, estavam seguras a braços de ferro, mais ou menos ornamentados, os quaes eram bem acceitos no fim do seculo XV. Uma cruz de ferro muito antiga que servia de taboleta á casa que tinha esse mesmo nome, estava collocada proximo dos paços da camara de S. Quentin: essa cruz tinha as extremidades do feitio de ancora, executada no estylo chammejante.


ARCHITECTURA MILITAR

Os progressos da civilisação dispuzeram cada vez mais os poderosos e os nobres para darem ás suas residencias aspecto menos severo, tornando-as mais commodas, diminuindo-lhes as altas muralhas que as desfeiavam e pareciam isolal-as das povoações circumvisinhas.

Uma circumstancia bastante poderosa fizera diminuir, além d'isso, a importancia dos antigos castellos, cuja fortaleza consistia principalmente na altura das muralhas: queremos fallar do uso da artilheria e das armas de fogo que veio a ser geral no seculo XV. As elevadas torres com seteiras, e trincheiras formidaveis, não podiam resistir ao fogo das peças; conjecturou-se que o systema de defensa seria transformado em pouco tempo, e que uma revolução ia introduzir-se na arte de guerra; então devia ligar-se muito menos importancia ao que dera antes tanta força ás praças fortes e aos castellos feudaes.

Todavia, grande numero de castellos pertencentes á segunda metade do seculo XV apresentava ainda na parte exterior certa apparencia de força; a entrada era defendida por torres com portas e pontes levadiças; as muralhas guarnecidas tambem de torres e besteiras.


Forma geral

A forma mais geral no fim do seculo XV, foi a quadrada. Havia fortalezas cujas casas rodeavam completamente o pateo central; em outras construcções não occupavam mais do que os tres lados do quadrado, ficando o quarto fechado por um muro. Outros castellos occupavam sómente um dos lados do recinto. Os fossos, que cercavam estes castellos, sem agua, tinham geralmente pequena profundidade;—seria pois um obstaculo mui facil de transpôr.

Na verdade, no seculo XV, não procuravam já os logares mais eminentes para se estabelecerem os castellos; tinham reconhecido os inconvenientes, de mais um genero, causados por essas elevadas posições, sempre com entrada dificil, e por isso haviam descido para as planicies e os valles, onde a agua, tão útil ás necessidades da vida, se encontrava com abundancia.


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Figura 261: Detalhes do castello de Montsereau

Ornamentação

No interior, os castellos não se differençavam quasi nada dos palacios, das casas nobres construidas nas cidades.

Eram, além d'isso, as molduras inteiramente similhantes áquellas que apresentamos na archilectura religiosa e civil da mesma época, taes como nervuras prismaticas muito multiplicadas, arabescos, folhagens profundamente indicadas, crochets, almofadas, arrendados nas pedras, grandes folhas reviradas, cujo movimento fazia lembrar a forma de uma cabeça de elephante, pinaculos apoiados na construcção, nichos, torresinhas pendentes, etc. etc. etc. Até os telhados não ficavam sem ornatos, sendo o espigão guarnecido de cristas, de crochets, ou diversas molduras executadas em chumbo; acima dos telhados conicos das torres apresentavam egualmenle pinaculos as espigas imitadas no chumbo, no ferro ou em argilla.

As seleiras firmavam-se em construcções salientes e em falso, das quaes podiamos apresentar muitas variedades, além dos exemplos que damos a pag. 272 [fig. 261].

Melhoraram as construcções antigas, reconstruiram as portas pondo-lhes pontes levadiças de balanço, cujo uso veiu a generalisar-se; e augmentaram, melhoradas, as muralhas que eram rematadas por não interrompida fileira de seteiras, que ás vezes fechavam o recinto.

Todos os castellos existentes nas margens do Loire pertencem á segunda metade do seculo XV.

As duas torres, de que damos os desenhos na pag. 274. [fig. 262] são tiradas do castello de Langeais, e a outra do de Plessis-Bourré, quasi similhantes; mostrando o gosto d'aquella época, aliás mui elegante.

A parte cylindrica da torre eleva-se para formar um andar (B), por cima da galeria das besteiras (A), de maneira que a torre era dividida em duas partes em logar de ser coberta pelo mesmo telhado. Este systema, consistindo em estabelecer assim muitos andares de defeza pelas torres e tambem pelos muros entre os baluartes, fora adoptado desde o XIV seculo; porém mais geralmente empregado no XVI; posto que, em algumas partes, sejam vistos os dois systemas de construcções no mesmo castello.

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Figura 262: Uma das torres do castello de Langeais


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Figura 263: Uma das torres do castello du Plessis-Bourré]

Os castellos, que citamos, cujas datas são verdadeiras, apresentam-nos o typo de muitos outros edificios em diversas localidades, durante a segunda metade do seculo XV e nos primeiros annos do XVI seculo.


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Figura 264

 
CAPITULO VII

ESTYLO DO RENASCIMENTO

Chama-se Renascimento, a arte que voltou a tomar as fórmas antigas da architectura, como se a arte tivesse ficado paralysada durante a era ogival ou roman.

O estylo ogival, que percorrêra os diversos periodos de aperfeiçoamento e de generação, chegava então ao seu termo, durante o segundo quartel do seculo XV. A arcada traçada por tres pontos ficava abandonada no XVI, para se reproduzir com a volta inteira, que igualmente fôra antes posta de lado pela introducção da ogiva desde o seculo XII: portanto, uma extraordinaria revolução ia pois operar-se na architectura.

As guerras dos francezes na Italia em tres successivos reinados, levaram a flôr da nobreza áquelle paiz, e ahi recebeu ella o gosto de tudo, que o renascimento italiano produzira nas artes e nas letras; o genio de innovação e reforma que tanto agitava a republica, não sómente os artistas, mas tambem os theologos, preparára os espiritos para esta grande mudança.

Porém, a architectura chamada do Renascimento não foi geralmente empregada nas construcções religiosas do XVI seculo. A fórma da ogiva tinha recebido para estes edificios uma especie de consagração, e muito tempo depois da adopção do estylo classico para as construcções civis, fôra preferida depois para os monumentos religiosos, e até do seculo XVII se encontram exemplos do emprego da ogiva. Na verdade, estava então o estylo ogival privado dos seus ornamentos, mostrando grande pobreza decorativa; apparecia apenas o esqueleto do antigo estylo; porém a ogiva era ainda usada sómente para as janellas e arcadas.

Poderiamos citar centenares de igrejas edificadas n'este estylo, quando o do Renascimento ostentava já todo o seu brilho nos palacios acastellados e nas construcções civis.

Como quer que fosse, as construcções do Renascimento foram mais civis que religiosas: isto é, construiram-se n'este estylo menos igrejas que palacios e casas.


ARCHITECTURA RELIGIOSA

Plano das igrejas

O plano das igrejas do seculo XVI foi pouco mais ou menos o mesmo que no seculo antecedente.

Monumentos

As almofadas e frizos, as pilastras e os outros membros architectonicos foram cobertos de grande profusão das imitações do reino animal e vegetal. Genios representando amor, figuras diversas, muitas de phantasia, se entrelaçavam em contornos caprichosos; porém sempre em combinações graciosas que foram chamadas arabescos, denominação extravagante, porque os arabes proscreveram a natureza animada das suas obras de imitação.

A igreja de Semur offerece-nos magnificos arabescos. Os arabescos, para nos servir d'este termo improprio, que tem prevalecido, eram imitação das decorações a fresco que se acharam em muitos monumentos antigos, e que se vêem ainda hoje nas galerias e abobadas sombrias dos banhos de Tito, em Roma. 

Janellas

Muitas vezes as janellas eram de volta perfeita, e sem cruzetas de pedra; as portas e arcadas igualmente tinham a fórma semicircular.

Figura
Figura 265

A janella, que representamos, foi tirada da igreja de S. Pedro de Caen, apresentando o estylo do Renascimento mais bem caracterisado, não sómente na sua fórma, mas igualmente nos seus accessorios (contrafortes, pilastras, campanariosinhos, candelabros, etc., etc.), nas figuras, nos modilhões, os quaes formam o remate; e nos entablamentos com balaustrada que corôa o edificio. Esta balaustrada com os seus graciosos entrelaçados e com as figurinhas nuas, reproduzem um dos typos d'este genero mais elegantes do XVI seculo.

Do mesmo modo que no seculo XII, uma architectura de transição se formou quando deixaram o arco ogival: apparecia outra que tornava a usar a volta inleira, resultando d'ahi um estylo mixto pelas combinações das fórmas classicas com os ornamentos do seculo XV. A volta perfeita da architectura romana, ostentava-se então coberta de vistosos enfeites do estylo ogival, e a ogiva ligava-se aos arabescos e frontões antigos.

A janella da igreja de-la-Ferté-Bernard (França) dá-nos um exemplo d'este mixto architectonico, apresentando-nos divisões no estylo do Renascimento, no meio de uma grande ogiva lavrada com molduras no estylo do seculo XV: pag. 280. [fig. 266]


Abobadas

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Figura 266: Uma janella da igreja de la Ferté-Bernard

N'esta época, as abobadas conservam a fórma ogival, porém tendem a baixar a sua elevação, e por vezes são de volta perfeita; os arcos ramificam-se, vendo-se cobertos de ornatos as abobadas pendentes, como se observa nas da igreja de Saint Étienne-du-Mont (França), de que damos a gravura, e cuja construcção, principiada em 1517, não estava concluida em 1563.

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Figura 267: Igreja Saint-Étienne-du-Mont


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Figura 268

Muitas igrejas ruraes, e até outras de maiores dimensões, tinham no seculo XVI, unicamente abobadas imitadas com madeira, e como estes forros cheios de obra de talha são importantes pela sua construcção, seria conveniente fallarmos d'elles; tinham como nos edificios civis da mesma época, collocadas as vigotas sobre a grossura das paredes, ao que chamam freixaes, e os pontaes formando a ogiva ou a volta perfeita.

Estes eram firmados sobre vigas transversaes, chamadas linhas. O pau de fileira era sustentado de distancia em distancia por peças de madeira, penduraes, erguendo-se verticalmente das linhas até ao tecto de forma abobadada.

O forro que occultava os curvos e formava o contorno apparente da abobada era coberto de pinturas, e as juntas das linhas ficavam dissimuladas por fasquias ornamentadas.


Altares

O estylo do Renascimento mudou tambem, como deve suppôr-se, o systema da ornamentação dos altares, e as fórmas antigas foram modificadas.

Existem ainda, em algumas igrejas ruraes, retabulos em madeira do seculo XVI, no genero d'aquelle de que apresentamos a gravura na pag. 284 [fig. 269], encimado com docel horisontal. Não será nunca demasiado, recommendar-se a conservação dos antigos altares, e se esse livro chegasse ás mãos dos reverendos parochos, rogar-lhes-hiamos que tivessem isto em attenção, embora, infelizmente, estejam sempre dispostos a destruir tudo o que é antigo, como aconteceu ultimamente ao bellissimo tecto da igreja matriz de Maravilla, em Santarem, para o substituir por trabalho moderno de mau gosto e sem nenhum estylo!

Alguns retabulos representam a vida de Jesus Christo, ou a do orago da igreja, figurando em uma serie de composições cujas figurinhas são modeladas com delicadeza extraordinaria e bom colorido.

Muitos retabulos de madeira com figuras do seculo XVI, ficaram desprezados e escondidos nos forros das igrejas, depois de terem sido substituidos por pessimas pinturas, e ahi ficarem até que os especuladores os descobrissem para separar as peças umas das outras, e vendel-as por bom preço inculcando-as como objectos raros.


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Figura 269: Altar de madeira do seculo XVI

Pias baptismaes

Appareceram pias baptismaes, novamente collocadas, sendo cobertas de folhagem e cercaduras. Em algumas, a circumferencia é dividida em quatro almofadas encaixilhando composições religiosas executadas em baixo-relevo. Outras, como esta de que dâmos exemplo, foi ornada com medalhões. Porém, as pias baptismaes com fórma de calix hemispherico são sempre em maior numero.


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Figura 270: Pia baptismal do seculo XVI

Tumulos

Dispondo-se n'essa época de bellos materiaes (marmores, alabastros, porphyros, etc.), que os artistas no renascimento podiam empregar nas construcções de limitadas dimensões, facilitando ás esculpturas a maior delicadeza na sua execução, os haviam preferido para os monumentos funebres. Os tumulos destinados aos papas, cardeaes, aos reis, principes e nobres, construidos na Italia, França, e Belgica, são n'este genero o que ha de mais sumptuoso e primoroso.

As pedras das campas tiveram igualmente mudanças nas fórmas dos desenhos gravados ao traço, como na architectura. A volta perfeita, durante o curso do seculo XVI, substitue a ogiva pela arcada que moldura a effigie do finado; estas molduras eram muito simples, comparadas com as que se faziam antes; as regras e a ornamentação das duas architecturas eram tão diversas, que não podiam deixar de produzir de outra maneira essa influencia.


ARCHITECTURA CIVIL

Os primeiros ensaios do estylo do Renascimento, no qual a multiplicidade das ordens era um dos principaes caracteres, appareceram em França em 1498, e em Portugal em 1559, sendo o principal exemplo d'este estylo no reino a capella-mór da igreja dos Jeronymos, em Belem.

Esta architectura desenvolveu-se muito em França, como se vê no augmento dos palacios de Blois e de Chambord, chegando á perfeição pelo talento do archiecto Philibert de Lorme e o esculptor Germain Pilon. Posto que continuasse a florescer com mais ou menos acceitação, até que Perrault, no reinado de Luiz XIV, seguiu o exemplo dado por Miguel Angelo, delineando a fachada do palacio do Louvre, tendo portanto abandonado a multiplicidade das ordens e as minudencias do periodo antecedente, empregando n'aquelle edificio uma unica ordem, em maior escala e em estylo mais ousado.

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Figura 271: Casa no estylo do Renascimento, em Périgueux

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Figura 272: Escada no estylo do Renascimento, em Périgueux

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Figura 273: Janella no estylo do Renascimento, no castello de Puy-Guilhem (Bordogne)

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Figura 274: Fragmento d'uma casa de madeira, em Lisieux

Na Inglaterra, o estylo da Renascença obteve voga muito depois que em França. Durante o longo reinado da rainha Isabel conservaram sempre nos seus palacios e villas, o estylo gothico, na mesma época em que já o esculptor João Goujon igualava quasi a execução do antigo nos ornamentos do pateo do palacio do Louvre. Foi sómente em 1608, que appareceram em Oxford (Inglaterra), os primeiros ensaios do estylo da Renascença no portal da sua Universidade, tendo as cinco ordens sobrepostas.


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Figura 275: Fragmento d'uma casa de madeira, em Caen

Uma casa que se conserva em Périgueux (França), d'este estylo [fig. 272], em que se notam as janellas das trapeiras, que se destacam sobre o telhado, são de uma notável elegância.

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Figura 276: Chaminé do seculo XVI

Outro exemplo, na mesma localidade, em que se vê o corrimão de cantaria e as abobadas pendentes, ornadas de figuras em baixo-relevo, patenteiam a importancia que se dava no seculo XVI a esta parte dos edificios, grav. da pag. 288 [fig. 272]; assim como o desenho d'uma vistosa janella do palacio de Puy-Guilhem (França), grav. da pag. 289 [fig. 273].

As casas construidas de madeira são algumas vezes mais cheias de ornamentações que as outras edificadas de cantaria; e os entalhadores d'aquella época desenvolveram superior talento na execução de lavores dos madeiros que molduravam as janellas, as trapeiras e os prumos dos cunhaes.

Ahi está a fachada de uma casa de Lisieux [fig. 274], cidade que possue ainda bellos exemplos em architectura do seculo XVI; assim como outro fragmento, representado pela gravura de pag. 291 [fig. 275], da decoração de uma casa de Caen. Estes dois exemplos, tomados ao acaso entre mil, bastarão para demonstrar como o estylo do Renascimento ficou assignalado sobre a madeira nas construcções civis do seculo XVI.

Muitas vezes os grandes aposentos se distinguem por decorações especiaes e por magnificas chaminés. Finalmente, as cristas, as espigas construidas em chumbo ou barro cozido que coroavam os telhados, apresentam no seculo XVI extraordinaria elegancia e excessiva altura.


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Figura 277: Castello de Chevillon

ARCHITECTURA MILITAR

Os castellos do Renascimento, posto que cercados de fossos cheios d'agua e muitas vezes guarnecidos de torres, todavia já não são praças fortes na verdadeira accepção da palavra, mas elegantes habitações, nas quaes tinham em vista sómente conservar as apparencias feudaes. É o que facilmente se comprehenderá examinando a perspectiva do castello de Chevillon (França), pag. 293 [fig. 277], cujas torres, que se reflectem na agua, não mostram absolutamente nada de fortaleza que podesse resistir aos ataques da infanteria e muito menos da artilheria.

A architectura dos castellos, além das muralhas que os cingiam e os seus fossos cheios de agua, confunde-se muito com a architectura civil; as salas, as escadas, as galerias não são menos ornadas do que os palacios e as casas das camaras; os arabescos e as molduras são até, ás vezes, prodigalisadas com excesso, como indica a grav. da pag. 295 [fig. 278].

Grande numero de castellos compõe-se simplesmente de um pateo quadrado, rodeado de construcções ruraes, no fundo do qual está collocada a habitação senhorial; as janellas d'estas casas quasi sempre foram depois mudadas ou alteradas, mas conservando quasi intacta a torre com os angulos cortados que encerra a escada, e que occupa o meio do edificio: estas fidalguias, como eram designadas ás vezes, são bastante communs nos campos.

A França possue ainda centenares de notáveis castellos do seculo XVI, mui conhecidos dos touristes. Lembram os typos mais grandiosos e magestosos das construcções d'esta ordem. Limitar-nos-hemos a apresentar dois lindos monumentos do Renascimento: taes como, o castello de Azay-le-Rideau, distincto pela sua rica ornamentação, e o de Bernesq, pag. 296 [fig. 279] e 297 [fig. 280].

Em seguida apresentamos um especimen dos modestos solares de que ha grande numero edificados no paiz.


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Figura 278: Ornamentação do castello do Chantelou (França)

Os castellos, construidos de madeira, continuaram a ser notaveis no seculo XVI, nas localidades onde esse material de construcção estava mais em uso; com torres nos angulos, defendidos por fossos cheios d'agua, e lendo cantaria só na base. Até o pombal senhorial, que fazia parte do recinto, era tambem de madeira.

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Figura 279: Vista geral do castello d'Azay-Rideau (Indre-et-Loire)


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Figura 280

Para entrar no pateo d'estes solares rodeados de agua, era preciso geralmente atravessar um torreão desligado das outras habitações, tal como aquelle que existe ainda em Beuvillers, do qual em seguida damos a gravura.


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Figura 281: Vista geral do castello de Bellou (Calvados)

Estando os castellos menos expostos que as casas urbanas ás mudanças e reconstrucções, teem por este motivo conservado melhor os madeiramentos elevados, e os espigões de chumbo ou de barro cosido.


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Figura 282: Entrada do castello de Beuvillers

Para vermos qual a importancia d'este ornato, copiamos aqui o especimen de um espigão do Renascimento da antiga fabrica de Prédauge, pag. 300 [fig. 283], proximo de Lisieux: ha ainda muitas outras n'esta localidade, não obstante o subido preço que os adelos offerecem para os obter, mas o atilado juizo dos seus possuidores não sacrifica de certo os objectos d'arte ao vil interesse.


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Figura 283: Fabrica de Prédauge (França)

 
CAPITULO VIII

PERIODO MODERNO

Diremos apenas algumas palavras ácerca do periodo moderno da architectura.

No seculo XVII e no XVIII procurou-se imitar uma certa disposição architectonica, que havia prevalecido na Italia nas fachadas das igrejas, no ultimo quartel do seculo XVI, consistindo em collocar o portal no meio de columnas que abrangessem a largura da nave principal e as duas lateraes; depois em sobrepôr outra Ordem de architectura por cima da primeira, ainda que não correspondesse ao espaço occupado pela nave principal, onde as suas abobadas se erguiam acima dos telhados inferiores pertencentes ás naves lateraes.

Esta diminuição de largura dada á fachada, na parte superior, era disfarçada por um ornato accessorio do feitio de um S deitado, quartellas, para ligar a elevação da segunda Ordem com a parte inferior que decorava o portal, e ao mesmo tempo servia-lhe de contraforte.

Os jesuitas, que construiram n'essa epoca as suas igrejas adoptando esta disposição, foram os promotores principaes de tal incoherencia, sobrepôr as columnas que não correspondiam ás divisões dos andares. Por este motivo ficou designada Estylo dos Jesuítas, que foi adoptado nas igrejas do seculo XVII.


ARCHITECTURA RELIGIOSA

Para exemplo dâmos a gravura da igreja da Sorbonna (França), construida por ordem de Richelieu, de 1635 a 1659, a qual se compõe de uma Ordem corinthia na parte inferior, tendo por cima outra Ordem composita, limitada por um frontão, e sobre os lados as quartellas servindo de contrafortes para esconder a falta de ligações das naves lateraes com a decoração principal da fachada. A torre, com feitio de cupula, apresentava um tambor cylindrico.

Figura
Figura 284: Igreja da Sorbonna

Em Portugal, em todas as igrejas d'essa época, imitaram egual disposição. Os planos foram delineados sob a mesma influencia religiosa, e assim se construiram as igrejas de Santo Estevão, a do Espirito Santo, o seminario de Santarem, etc.


Disposição interna nas igrejas

Figura
Figura 285: Interior da igreja de S. Sulpicio

A fórma interna era, em geral, muito simples. Constava de arcadas macissas separadas por pilares, algumas vezes decoradas de pilastras; pondo em communicacão essas arcadas da nave principal com as outras lateraes. Uma unica ordem de janellas se collocavam na parte superior, por cima d'essas arcadas; e ora de volta inteira, ora de verga horisontal, davam claridade á nave. As naves lateraes e as capellas correspondentes ás aberturas das arcadas recebem luz por janellas de egual feitio.

O interior da igreja de S. Sulpicio (França) mostra esta disposição, que era a mais seguida; portanto, não mostravam indicio algum do triforium, nem logar para a galeria, como se costumava construir no seculo XVI.


Torres

Edificaram-se torres de differentes fórmas. A cupula da igreja da Sorbonna mostra-nos as que ficam mais usuaes para os grandes edificios; para as outras de menor grandeza, adoptavam as torres em abobada hemispherica e lanternim, como se vê na gravura; as quaes foram muito communs até o final do seculo XVIII.


Figura
Figura 286

Altares

Os retabulos ornados com columnas e frontões foram empregados em toda a parte para decorarem os altares-móres, desde o fim do seculo XIII, e formavam verdadeiros monumentos na architectura moderna, que a moda havia introduzido tambem dentro das igrejas ogivaes. Foi d'elles que derivaram os elementos para as fachadas das igrejas modernas, as quaes, ainda que combinadas com arte, produziam todavia effeito um tanto theatral, pouco proprio da magestade da casa de Deus, não obstante terem apparencia vistosa, como se poderá julgar pela gravura da pag. 305 [fig. 287].

Apezar de que estes altares são muitas vezes pouco harmoniosos no estylo, convirá comtudo conserval-os como exemplar da original decoração da época.

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Figura 287: Grande retabulo do seculo XVII