Arqueaduras na ornamentação
Os arcos continuos servem de remate aos frontões triangulares; e ás vezes são ornados com enfeites de fórma de colchetes.
Vêem-se tambem as paredes ornadas com estas arqueaduras fingidas collocadas em ponto muito elevado, subdivididas por delicados pinasios de pedra, tendo o cimo com rendilhados como se executavam nas janellas. Este genero de decoração foi muitas vezes empregado sobre grandes superficies lisas, principalmente no fim do XIV seculo e no seculo seguinte.
Os colchetes eram collocados mais profusamente sobre os logares que já designámos, ficando menos separados uns dos outros, como se praticava no seculo XIII. Alguns se transformavam em folhas largas arqueadas.
Triforium
No seculo XIV uma alteração muito notavel se manifestou na galeria do triforium: em logar de ficar tapado como era d'antes, veio a ter claridade por meio de janellas que correspondiam aos arcos da galeria inferior.
O especimen acima mostra um triforium tendo luz por baixo de uma grande janella de clerestory: então as paredes ficavam verdadeiramente rendilhadas, como se vê na cathedral de Strasbourg, no convento da Batalha em Portugal, etc. Alguns triforiuns com claridade são attribuidos ao segundo meado do seculo XIII; porém a maior parte pertence ao XIV e XV.
Columnas
A disposição das columnas é a mesma no seculo XIV que no XIII; aquellas que estão enfeixadas principiam a tornar-se de aspecto mesquinho, e não se destacam sufficientemente como as precedentes dos pilares quando se faziam em grupos. Ao principio do seculo XIV não era raro encontrar ainda capiteis, que faria suppôr pertencerem ao XIII; porém depressa o açafate se desformou, e as folhagens mudaram de natureza. Não se vêem no meado do século XIV, esses colchetes que se arqueavam em volutas e que formavam de certo modo o ornamento obrigado dos capiteis do XIII.
No seculo XIV, as folhagens eram dispostas nos capiteis de modo a formar dois ramalhetes sobrepostos, e a dividir assim o açafate em duas partes quasi iguaes. Esta combinação era tambem muito caracteristica do seculo XV. Succedia, ao mesmo tempo, na forma das bases, um trabalho de transformação d'onde devia sair um typo novo.
Essas bases não apresentam mais os escapulados tão profundos como no século XIII; até desapparecerem inteiramente, e os dois toros ficam mui separados um do outro.
Os socos tem a importancia nova nos pilares do seculo XIV. Muitas vezes mostram tantos socos repelidos quantas são as columnasinhas, e são de fórma octogonaes ou prismaticas. Quando o soco tem muitos resaltos, esses resaltos ficam separados por molduras reentrantes; algumas vezes, emfim, a parte inferior do pilar é formado por um massiço no qual os socos parece que são embutidos.
Janellas
No seculo XIV, muitas columnas servindo de pinasios verticaes dividiam essas aberturas no sentido da largura, e o centro da arcada apresentava muitos compartimentos em feitio de flôr de trêvo, folhas de quatro pontas ou em florões.
A combinação mais usual era aquella que se vê na figura A: duas ogivas gemeas encimadas por um oculo polylobado, enche todo o vão da janella. Cada uma das duas ogivas se decompõe em duas outras partes ou em duas novas aberturas, tendo por cima um florão; de maneira que o todo da janella apresenta em ponto grande a imagem das duas ogivas gemeas que emmolduram, e que representara portanto o mesmo feitio das janellas do seculo XIII. Nos edificios de ordem interior, a janella B é muito frequente a sua applicacão no seculo XIV. A gravura seguinte mostra uma janella muito grande, pertencente ao seculo XIV; tal como se vê algumas vezes na extremidade dos cruzeiros das igrejas, ou na sua fachada occidental, as mais importantes.
Portaes
As portas do seculo XIV differem pouco das do seculo XIII: as voltas e os tympanos são igualmente cheios de pequenas figuras em baixo-relevo; os frontões triangulares que lhe servem de remate tem rendilhados, em logar de ficarem lisos ou cheios como no seculo XIII; são tambem ordinariamente mais elevados e ornados de crochets. Sobre os tympanos de algumas portas, a flor de trêvo, as folhas de quatro pontas, ou florões, substituem as figuras em alto relevo.
Arcadas
Não se encontram as molduras tão excessivamente pronunciadas e executadas alternativamente, ora redondas, ora concavas, que ornavam no seculo XIII as archivoltas das grandes arcadas; os toros são muito menos boliados e por vezes tem feitio ellyptico, não produzindo o contraste da luz e sombra que dava tão notavel distincção aos arcos repelidos do primeiro estylo ogival.
Torres
As torres eram rematadas por uma agulha em pedra, e tinham passeio com parapeito e corrimão, como se vê quasi sempre entre a torre e a base da pyramide, que lhe fica superior, conforme se construia desde o seculo XIV. Até lá nos telhados pyramidaes das torres tinham posto poucos ornamentos: esculpiam-lhes unicamente modilhões curvilineos, ou telhas recortadas; mas no XIV, abriram-lhes buracos contornados como as flôres de trêvo, em florões, etc., cobriram-lhes os angulos de ornatos de forma de crochets. A reunião d'estes differentes caracteres podem servir para se distinguirem as grandes torres do seculo XIV das do XIII.
Ladrilhos
Os pavimentos de tijolos vidrados foram empregados nas capellas e nas igrejas, compondo magnificos florões.
Pinturas muraes
A pintura empregada nos seculos antecedentes, e que no seculo XIII cobria os portaes, as curvaturas e partes mais notaveis dos edificios, foram igualmente prodigalisadas no XIV. Existe d'essa época grande numero de decorações polycromaticas, infelizmente apagadas e muitissimo deterioradas.
Pinturas sobre vidro
Se se considera o effeito geral, a harmonia das tintas e o brilhantismo das côres, a bella época das vidraças coloridas, foi a do seculo XIII. Á medida que nos afastamos d'essa época, tão auspiciosa tambem para a architectura, as producções das pinturas sobre o vidro perdem do seu brilho, porém as figuras são de maior estatura e desenhadas com mais esmero.
Considerando, que no sul da França e nas margens do Rheno, os architectos estavam ainda no seculo XIII dominados pelos principios da escola do seculo XII, poder-se-hia suppôr que no seculo XIV deveriam ter adoptado o estylo ogival primitivo; porém não aconteceu assim: quando elles se decidiram a adoptar o estylo ogival, foram tomal-o no estado em que se achava. Assim vemol-o, no seculo XIV, na Allemanha e na Bélgica, com os caracteres quasi similhantes áquelles que dominavam em França.
Altares
Os altares do seculo XIV não differem dos do XIII, senão pela natureza dos detalhes de architectura que fizeram entrar na sua decoração, e que oferecem os mesmos caracteres que os dos monumentos da época.
Os armarios, ou tabernaculos, mettidos nas paredes, proximo do altar, imitavam, pouco mais ou menos, as mesmas disposições que no seculo XIII.
As credencias, por vezes gemeas, como se faziam no seculo anterior, não tinham todavia, no meado seculo XIV, senão uma arcada única e com uma só piscina.
Pias baptismaes
A mesma observação ha que fazer para as pias baptismaes como para os altares. As formas usadas no seculo XIII encontram-se no XIV; sómente com a differença de que as pias pedicelladas, com columnas auxiliares, eram mui raras, e as columnasinhas são applicadas como decorações sobre um apoio central e fazem corpo com elle, em logar de ficarem destacadas como antes se praticava.
Encontram-se muitas vezes pias oitavadas, como a que está representada na pag. seguinte [fig. 220], tendo cada um dos lados ornatos e compartimentos com o feitio de uma janella do estylo radiante: além das pias d'este typo, vêem-se tambem columnasinhas moldurando essas janellas e separando as faces umas das outras.
Sepulturas e tumulos
Os tumulos do seculo XIV distinguem-se dos do XIII unicamente pelo modo como os ornamentos são executados. Os caracteres que indicamos para a architectura do seculo XIV dão facilmente a conhecer os tumulos formados de arcadas collocadas ao correr das paredes.
Campas
As pedras tumulares, no seculo XIV, tiveram aprimorada execução; pois que todos os detalhes dos vestuarios estão reproduzidos com grande fidelidade, e as composições architecturaes destinadas a formar a parte ornamental, que encerrava a representação dos personagens, tomam o feitio das capellas ou das naves de igrejas. Tinham os seus typos correspondentes nas decorações do mesmo genero no seculo XIII, e nas vidraças pintadas com representações dos santos, que a igreja expunha á veneração dos fieis.
No norte, nos Paizes Baixos, e em outras nações, as lageas escolhidas eram de marmore de côr cinzenta ou preta; em grande parte da França, foram as campas feitas principalmente de pedra calcaria branca, como usavam em Portugal; tambem usavam as lageas amarellas ou jaspeadas, pertencendo ás formações secundarias e terciarias; finalmente, nas regiões graniticas e schistosas, serviam-se de lageas fornecidas d'estas rochas[51], porém eram menos empregadas, por causa da difficuldade com que n'ellas executavam os ornamentos.
ARCHITECTURA CIVIL
A architectura monastica conservou no seculo XIV as disposições geraes adoptadas precedentemente; modificaram apenas a ornamentação: portanto nos claustros apparecem as arcadas com muitos vãos, tendo como remate oculos ou espelhos, como se praticava nas construcções das janellas; e assim o mostra a gravura da pag. 226. [fig. 222]
Pode-se dizer outro tanto dos paços archiepiscopaes, e outros grandes edificios civis; notando-se, todavia, que foi no seculo XIV que principiaram a apparecer as grandes janellas com cruzetas de pedra, fig. B, pag. 225 [fig. 221], que vieram a ser depois tão communs nos seculos seguintes.
As chaminés
conservaram a sua forma elegante, e quando
não ficavam cobertas por um abrigo pyramidal,
então
assimilhavam-se
a uma colunma cylindrica ou octogona; ás vezes
eram ornadas no cimo por folhas de quatro pontas ou outras
molduras.
Hospicios
Os hospicios, os mercados cobertos, as casas da camara, e os outros edificios de utilidade publica, não se differençavam dos que eram construidos no seculo XIII, tanto pela fórma das aberturas, como pela qualidade das molduras.
Os hospicios compunham-se sempre de um ou muitos salões para os doentes, dependendo da casa conventual, ou da igreja. Estes edificios eram dispostos á roda de um pateo principal, mas havia alguns com segundo pateo para o serviço do estabelecimento.
Figura
Figura 222: Arcos de claustro
do seculo XIV
O hospicio de Nuremberg apresenta corpos de habitações parallelos com alguns pateos centraes debaixo dos quaes passava um braço de rio, que era desviado da corrente principal. A architectura das salas d'este hospicio parecia pertencer além do seculo XIV.
Não fallaremos das gafarias, as quaes tinham chegado ao numero de 19:000, depois das guerras das cruzadas, porque eram antes uma reunião de casinhas ou cellas, no meio das quaes havia um pateo e uma capellinha consagrada a S. Lazaro, que se não deve considerar hospital publico. Das numerosas gafarias dos seculos XIII e XIV só existem actualmente as capellinhas sem que apresentem interesse algum architectonico.[52]
Casas da camara
Algumas casas dos municipios do seculo XIV, como a de Brunswich, mostra qual a importancia adquirida por estes monumentos desde o seculo XIII (vêde a pag. 193 [fig. 195], a casa da camara de Ypres), como se conservou até no seculo XIV, sendo então decorada com coruchéos, balaustradas e estatuas, e com as molduras mais elegantes d'aquella época.
Mercados, açougues e armazens
Mercado coberto de Bruges. O mercado de Bruges, que pode ser considerado como monumento mixto, pois que é ornado do campanario communal, fórma um quadrilatero de 84 metros por 43. As casas mais visinhas do campanario estavam d'antes isoladas; acrescentaram-lhe as azas desde 1325 até 1364.
O mercado de Evron, em França, construido de madeira, data do seculo XIV, como igualmente o côro da igreja abbacial: compunha-se de duas naves formadas por tres filas de prumos.
Apresentemos o traçado das peças de madeira de uma asna d'este grande madeiramento, e que se apoiam sobre o renque dos prumos de vigas, que separam as duas naves. Este madeiramento merece estudo particular, e será apreciado pelos constructores, visto que estes grandes edificios construidos por esta fórma acabaram de todo, e ainda não foram sufficientemente estudados.
Mercado de Dives. O antigo mercado de Dives, em madeira, tem igualmente certa importancia. A parte menos antiga, que está do lado leste, pertence ao seculo XIV; os dez vãos mais bem construidos que compõem o mercado primitivo, datam certamente da idade media; tem 32 metros de comprimento e 11 metros de largura, decompondo-se da maneira seguinte: a nave central, 7 metros; as lateraes 4m,32. A gravura mostra o córte transversal do madeiramento.
Em certas cidades bastante povoadas, onde a corporação dos carniceiros era poderosa, como em Gand (Belgica) e na Inglaterra, o mercado coberto formava um monumento.
Açougue de Gand. Este grande edificio, do qual os viajantes vulgares não fazem caso, e que os itinerarios não se dão ao incommodo de descrever, é comtudo digno de ser citado. É dividido no interior em duas naves por bem combinadas divisões de madeira. As duas portas das fachadas correspondem ás duas naves. Datando a sua construcção do fim do seculo XIV, o açougue de Gand foi consideravelmente augmentado depois, e reconstruido em grande parte no reinado de Carlos V, em 1542.
O armazem de deposito de Constance, pag. 232 [fig. 228], pode dar-nos idéa dos grandes armazens do seculo XIV; compõe-se de muitos andares, cujos pavimentos de madeira são sustentados por grossas vigas a prumo.
Casas particulares
As casas particulares do seculo XIV eram, como as do seculo XIII, construidas de cantaria ou madeira; quando havia na proximidade bons materiaes, que facilmente se extrahiam e transportavam, davam-lhe a preferencia; porém, achar-se em similhantes condições era raro, e por isso preferiam a madeira; veio d'ahi certa combinação no systema particular das construcções, de que se encarregavam especialmente os entalhadores para ornamentar as madeiras apparentes; além de facilitarem as suas edificações.
Escolhemos como especimen das casas construidas de cantaria, uma das mais notaveis que existem em Cordes, como se vê na gravura da pag. 233 [fig. 229].
ARCHITECTURA MILITAR
Formas geraes
A começar do seculo XIV, as partes habitadas dos castellos tomam formas mais regulares, encaminhando-a a se aproximar do estylo moderno. No pateo principal, que é ordinariamente quadrado, apresentam grandes e vastas habitações que se ligam intimamente com as muralhas de recinto. Por esta forma, as obras de defensa estão alternadas com os aposentos, ficando as construcções civis augmentadas em prejuizo das fortificações. Muitos castellos do seculo XIII se completam no XIV com grandes addicionamentos.
As torres dos angulos encerravam geralmente as escadas para se subir aos differentes andares. Collocavam tambem uma escada principal na torre levantada ao centro da fachada nobre do edificio.
Os cachorros de madeira que coroavam as paredes das fortificações apresentavam, como já dissemos, bastantes inconvenientes, aos quaes procuravam dar remedio. No seculo XIV as galerias salientes de cantaria com bésteiras, gravura da pag. 234 [fig. 230], substituiram pouco a pouco os cachorros nas praças fortes. As muralhas d'Avignon, e as de Cahors, reconstruidas no seculo XIV, offerecem bellos exemplos.
As bésteiras não existiam antes dos seculos XIV e XV; á falta de outro typo, pela sua construcção pode-se confirmar a antiguidade das muralhas, quando ellas lhe servem de remate sem nenhuma interrupção. As portas dos recintos são constantemente defendidas por duas torres, e tendo na parte superior, como no seculo XIII, uma sala onde faziam mover a ponte levadiça. Foi no seculo XIV, que principiaram, como já referimos, a ser munidas de pontes levadiças,[53] movidas por contrapesos. A pequena porta destinada aos pedestres tinha ponte levadiça particular, como se vê na gravura da pag. 235 [fig. 231].
Citaremos entre os castellos mais completos do seculo XIV o de Pierrefont, que fomos vêr em 1867 quando a sua restauração era dirigida pelo eminente architecto e archeologo, o nosso confrade mr. Viollet-le-Duc.
A formidavel Bastilha de Paris, destruida em 1789, cujo fac-simile se encontra em grande numero de bibliothecas publicas, fôra começada em 1369 por ordem do rei Carlos V. Esta fortaleza compunha-se de habitações em grande altura, dispostas regularmente em roda de um pateo quadrilongo; tinha quatro torres semiesphericas nos angulos do quadrado e mais duas no centro dos dois maiores lados.
Diversas janellas quadradas se abriam para o interior dos pateos, e algumas nas muralhas exteriores.
Vincennes é antes uma praça forte do que um castello propriamente dito; a forma regular do recinto, o torreão, as torres, os parapeitos, este todo offerece um bello exemplo do grande monumento militar do seculo XIV,[54] e sempre que se pudesse, dever-se-hia adoptar um plano symetrico, quando o terreno fosse aproprido para similhante construcção.
Esta fortaleza conserva ainda algumas construcções muito antigas.
O rei Filippe Augusto foi o primeiro soberano que mandou edificar n'este logar uma casa de campo para suas caçadas.
A maior parte das fortificações foram demolidas em 1337, para se construirem as que existem; assim como o bello torreão do castello, que veio a ser prisão do Estado no reinado de Luiz XI. Este torreão é um dos melhores, no seu genero, que possue a França.
É notavel a elegancia da galeria dos antigos aposentos reaes, bem como a architectura da capella, construcções pertencentes aos reinados de Francisco I e da rainha Maria de Medicis.
ERA OGIVAL DO SECULO XV E PRINCIPIO DO XVI
ARCHITECTURA RELIGIOSA
Posto que a fórma usual das igrejas tivesse ficado a mesma no seculo XV e no principio do XVI, os architectos tiveram certa tendência para se afastarem da regularidade symetrica da época anterior; fizeram nas igrejas existentes augmentos que vieram a destruir a harmonia, juntando-lhes, por exemplo, outras capellas fóra das proporções das que já existiam.
Ornamentos
As formas prismaticas ou angulares dominam no feitio das molduras do seculo XV, tanto nos toros e nas nervuras, como nos pinasios, e até nos mais insignificantes detalhes; isto dava aos ornamentos aspero aspecto, por causa de magreza no cinzelado, que nunca apresentaram os executados nos seculos XIII e XIV.
As folhagens mostram, a começar do seculo XV, fórmas inteiramente differentes das que notámos nos seculos XIII e XIV, são folhas de couve encrespadas, de cardo e outras plantas. As folhas de vinha foram tambem empregadas com as outras folhas recortadas: estas formam, nas hombreiras das portas, das janellas, cornijas e festões executados com tanta habilidade, que parece se despegam da pedra, e são apenas adherentes na sua superficie: estas grinaldas eram ás vezes entrelaçadas com fitas. Os esculptores divertiam-se tambem em representar diversos animaes entre as folhagens.
Os crochets, em parte differentes dos executados no seculo XIV, mostram em geral mudança de fórma análoga a dos ornamentos, representam folhas de couve ou cardo encrespadas, arredondadas, reviradas, parecendo-se com cabeças de golphinhos.
Contrafortes
O fragmento representado na pag. seguinte [fig. 234], mostra o effeito dos apainelados, dos pinaculos na sua applicação descançando sobre animaes—caryatides; finalmente os dos frontões triangulares, por cima das janellas ornados de folhas encrespadas, rematavam com balaustradas e divisões do estylo flamejante de labaredas.
Columnas e pilastras
Já não se vêem columnasinhas enfeixadas, porque foram substituidas por simples nervuras prismzticas. Os capiteis, mais geraes, eram ornadas de folhagens encrespadas, dispostas em dois ramos sobrepostos um ao outro. No final do seculo XV e no XVI, não é raro encontrar as columnas completamente sem capiteis; então as nervuras dos pilares prolongam-se sem interrupção até ao cimo do edificio e formam um todo com os arcos ramificados de abobada. Sobre algumas pilastras, encontram-se pinaculos, molduras com grandes relevos mais ou menos complicados, e misulas para servirem de peanhas ás estatuas.
Portas
As portas de arcos abatidas, ou de volta de sarapanel, que se chamam arcos Tudor, porque foram mui usadas em Inglaterra no reinado de Henrique VII e Henrique VIII, vêem-se principalmente no final do seculo XV ou no principio do XVI, e eram enfeitadas como as outras portas, com bellas folhas retorcidas e coroadas de um penacho pediculado, como está representado na seguinte gravura.
Janellas e oculos (espelhos)
Os compartimentos, que dividem as janellas e aberturas circulares chamadas oculos ou espelhos, apresentam mais geralmente feitios retorcidos, assimilhando-se a labaredas, corações esguios, etc. etc., que differem das flores de trevo, folhas de quatro pontas, e outras figuras radiantes. Foi em razão d'estas formas retorcidas, tantas vezes reproduzidas nos compartimentos das janellas, nos espelhos, nas balaustradas e nos ornamentos representados na cantaria, que se tem designado o estylo ogival do seculo XV sob o nome de gothico flamejante.
Abobadas
Os arcos das abobadas vieram a ser mais salientes e prismaticos: as suas peças curvas principiaram tambem a ramificar-se na segunda metade do seculo XV e no XVI, e os pontos de juncção mostram por vezes penduraes.
Torres
As torres do seculo XV apresentam uma grande variedade de formas: ha algumas, cujas agulhas são muito elegantes (Belgica, Bordelez, Normandia, ele.); outras são quadradas, flanqueadas de contrafortes salientes, e que não tem a leveza dos primeiros.
No seculo XV, em logar de flanquear com duas torres as fachadas das grandes igrejas, tinham muitas vezes levantado uma unica torre quadrada ao meio do frontão occidental, como S. Bavon de Gand, a cathedral de Berne, e a cathedral de Ulm, etc.
Muitas torres d'esta época apresentam, grav. pag. 245 [fig. 239] sobre os angulos do corpo quadrado que sustenta a pyramide, obeliscos ou torresinhos que se ligam ao corpo da torre por arcos botantes de uma leveza extrema, cujo intradoz é ornado de festões arrendilhados.
Haveria um estudo interessante a fazer-se sobre as torres do seculo XV, as que existem na cidade de Ruão, pois são todas de notavel elegancia, embora não tenham como remate nem frechas, nem agulhas.
Altares
O altar, representado na gravura seguinte, tem 2m, 40 de comprido por 0m, 90 de fundo e 1m, 80 de altura. Sustentam-no tres pequenas columnas. A decoração na frente compõe-se de quatro curvaturas, alternadamente separadas por uma columna e por um pendural.
Tabernaculos
Encontram-se no seculo XV tabernaculos ou ciboriums de pedra que podem egualmente ser considerados como accessorio dos altares; ainda que estejam a maior parte das vezes separados e encaixados nas paredes proximas, como tambem estão as credencias. O especimen seguinte mostra a configuração dos que existem em muitas igrejas já d'esta epoca.
Algumas credencias, do fim do seculo XV, são tambem mui notaveis pelo numero e acabamento de suas molduras, como se vê na gravura seguinte.
Pias baptismaes
A forma mais usada no seculo XIV para as pias baptismaes foram egualmente imitadas no XV, porém as pias d'este ultimo seculo e do principio do XVI mostram, enquanto ás esculpturas, que foram executadas primorosamente com molduras prismaticas, similhantes ás que ornam os nichos, os doceis e os pinaculos da architectura ogival da epoca terciaria.
Figura
Figura 241: Pia baptismal na
igreja de S. Sebaldo
As pias monopediculadas com reservatorio e pé octogono não são raras no seculo XV: algumas imitam o feitio d'um calix e apresentam da parte externa a forma hemispherica ou ovoide.
A pia baptismal da cathedral de Bale é pediculada; o calix tem oito faces com a data de 1465. Estão representados sobre os oito lados d'este calix: Jesus Christo baptisado no Jordão; S. Lourenço, S. Thiago, S. Paulo, S. Pedro e S. Martinho. O pé tem egualmente a fórma octogona.
As pias de bronze da igreja de S. Sebaldo, em Nuremberg, apresentam a forma cylindra ornada com circulos em relevo. Os contornos são graciosos, e está dividida em duas partes e com arcadas collocadas a par. Os quatro evangelistas se destacam no socco, e parece que sustentam a parte superior da mesma pia.
Tribunas—Separações formadas de cantaria
Era do uso fazer-se um ambito gradado, especie de barreira ou separação muito enfeitada, posta entre a nave principal e o côro, sustentando geralmente uma tribuna e a estante onde se lia o Evangelho, como praticavam antes servindo-se do pulpito. As mais primorosas datam do fim do seculo XV, ás barreiras em cantaria que separavam o côro das naves, e que, desde o seculo XIII, já existiam em algumas igrejas; ellas vieram a ser nos seculos XV e XVI de grande riqueza de trabalho e de merecida admiração.
Tumulos e campas
No final do seculo XV e no XVI empregava-se quasi constantemente, para os tumulos arqueados, arcos postos a par, similhante a este exemplo que damos: collocavam um certo numero de tumulos d'este genero ao correr das paredes nas grandes igrejas.
Figura
Figura 243: Arco duplo de um
tumulo
No seculo XV, encontram-se as pedras das campas cobertas por uma grande quantidade de detalhes d'architectura, como se executavam nos tumulos em vulto. O finado era representado occupando o centro de um historiado portal, composto de nichos, dentro dos quaes ornam pequenas figuras de santos em differentes alturas, ou então postas em nicho coberto por um docel; gravura de pag. 248 [fig. 242].
Cruz dos cemiterios
No seculo XV, tinha-se lavrado muitas cruzes em pedra para se porem no meio dos cemiterios, e o estylo das molduras caracterisa sufficientemente a época da execução. Em algumas cruzes da Bretanha, distinguem-se grupos de personagens bastante complicados, e de trabalho muito mais apurado por serem em pedra muito rija.
ARCHITECTURA CIVIL
O caracter da architectura civil do seculo XV, emquanto ás molduras com ornatos, é egual ao empregado na architectura religiosa.
Architectura monastica
A architectura civil monastica segue o gosto do tempo e adoptou-se nas arcadas dos claustros, nas janellas ogivaes, com contornos curvilineos, como já expuzemos quando fallámos da architectura religiosa.
Para comprovar, será sufficiente apresentarmos o desenho de um claustro do fim do seculo XV, com os seus arcos a compartimentos em labaredas, ficando como esmagados pelos frontões de ramalhetes, uns a par e esguios [fig. 245B], os outros separados de varios segmentos, cujas curvaturas são mui desagradaveis (fig. 245A, estampa da pag. 251).
As folhagens golpeadas com as quaes ornavam as curvaturas dos portaes, são ás vezes vasadas com exaggeração, mas de aprimorada execução.
As janellas quadradas com pinasios de pedra multiplicam-se nos andares superiores das construcções civis. Nota-se do mesmo modo tendencia a pôr-se de parte o arco traçado por tres pontos, adoptando-se as aberturas rectangulares, que vieram a ser quasi exclusivamente empregadas um seculo depois.
O portal de entrada das abbadias e priorados ficava sempre collocado em um pavilhão que tinha superiormente aposentos; emquanto á disposição geral, era a mesma do seculo anterior.
Paços de concelho
Na segunda metade do seculo XV constituiu-se grande numero de novas municipalidades, afim de enfraquecer cada vez mais o poder feudal e todas as cidades rivalisaram entre si na edificação dos seus paços de concelho, muito dos quaes subsistem ainda e apresentam uma serie de edificios extremamente interessantes para se examinarem.
O campanario que lhe pertencia, veio a ser então uma torre elegante e de extrema delicadeza, ornada de variados contornos, como as que se executavam nas igrejas. Muitas das cidades applicavam quantias avultadas para construir e ornar seu campanario, afim de que o vissem a grande distancia, e tambem para dar maior importancia á sua representação.
A casa da camara de Douai, é da segunda metade do seculo XV, sendo mais notavel pelo seu campanario que pela extensão ou elevação do edificio municipal. A fachada municipal apresenta no plano terreo tres portaes ornados de folhagens encrespadas, sendo a do centro maior que as das duas outras.
No segundo andar tem nove janellas em ogiva, ornadas de folhagens eguaes ás que decoravam os portaes.
A attica, que está por cima do entablamento, é mais moderna, porque pertence ao seculo XVII.
O campanario parece-se com uma torre de igreja, sendo rematada com uma agulha elegantissima feita de madeira e coberta de chumbo, apresentando varias ordens sobrepostas com frontões floreteados, e o maior numero acabando em grimpas; quatro torrinhas circulares e em sacada occupam os quatro angulos da torre na base d'essa agulha; e o telhado, de forma conica, mostra quatro pequenas trapeiras egualmente coroadas por cataventos.
A parle superior do campanario d'Evreux compõe-se de uma torre com faces arrendadas e de maior leveza, coroada por uma pyramide de madeira coberta de chumbo.
A parte inferior d'este campanario é mais antiga, pois que a elegante pyramide arrendada que corôa o edificio, não pode ser obra além da segunda metade do seculo XV; talvez trabalho dos artistas que fizeram a pyramide central da cathedral, que é egualmente arrendada e de madeira revestida de chumbo.
É util observar como são os feitios das sinetas que ha nos campanarios, sendo algumas mui antigas; aquella d'Arras, é muito curiosa pela sua bocca ter grande abertura. Tem a inscripção seguinte, que attesta ter sido fundida em 1434:
LAN: M: CCCC: E: IIII JE: FULS FAIS.
Em muitos municipios não havia nem casa de camara, nem campanarios: serviam-se do sino das torres da igreja, e era tambem na parochia que se reuniam as assembléas municipaes.