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Figura 111: Zigue-zagues alternados

Mr. de Caumont emprehendeu repetidas viagens por differentes paizes, com o louvavel intuito de indagar quaes seriam as modificações que o genio dos architectos introduzira em tal ou tal provincia; assim como para examinar se haveria synchronismo entre os edificios, apresentando a grandes distancias uns dos outros identidade de typos architectonicos.

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Figura 112: Escamas

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Figura 113: Carrâncas

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Figura 114: Pontas de diamante

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Figura 115: Estrellas

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Figura 116: Torçal

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Figura 117: Zigue-zagues dentados

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Figura 118: Folhagem com serpes

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Figura 119: Entrelaçados

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Figura 120: Ornamento dentado

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Figura 121: Molduras entrançadas e carrancas/Molduras com rhombos

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Figura 122: Florões ornados de perolas

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Figura 123: Faixas e molduras com perolas

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Figura 124: Entrançados com perolas

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Figura 125: Discos e molduras com lavor

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Figura 126: Palmas e quadrupedes

 

Este trabalho scientifico de summo interesse para a historia da arte, era mais um importante serviço prestado aos estudos archeologicos por pessoa já afeita por seu saber e dedicação.
 

Arcadas fingidas


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Figura 127: Do seculo XII

 

As grandes superficies foram muitas vezes guarnecidas arcadas fingidas, assentes em pilastras ou em columnas embebidas na parede, e dava-se-lhes o nome de arcaturas: faz-se idéa do effeito que produziriam vendo o especimen que apresentamos.

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Figura 128: Archivoltas dos seculos XI e XII.


Portas

De todas as partes dos edificios, são sem duvida as portas que tem sido mais ornadas de molduras no seculo XII, e até em alguns edificios com aspecto simples. Porém no seculo XI conservam ainda, no maior numero, grande simplicidade nas fórmas. Foi no seculo XII que mais se multiplicaram as archivoltas, e o que obrigou depois a proporcionar o numero das columnas que serviam de apoio á queda d'essas curvas, e dar maior grossura aos pés direitos interiores: algumas portas não apresentam nem columnas nem pilastras, apenas tem ornatos desde o cimo á base, com aformoseamentos de mais ou menos profusão.

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Figura 129: Porta da igreja de Mortain

Os tympanos (é assim que se chama o espaço semicircular comprehendido entre a abertura e as archivoltas bem como o espaço triangular entre as mulduras do frontão e as do entablamento do perystilo), são compostos de peças symetricas com molduras ou sem ellas; ha outros que estão cheios de baixos-relevos; como se vê n'este tympano da igreja de S. Miguel, proximo d'Angoulème (França), no qual o archanjo representa vencer o inimigo do genero humano, prostrado aos pés sob a fórma de gigante dragão. É nos tympanos das portas que se encontra principalmente a representação de Christo entre os symbolos dos quatro evangelistas, o boi,[37] a aguia, o leão e o anjo.

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Figura 130

Muitas portas tiveram primitivamente alpendre coberto com telhas; d'este modo poderam ornal-as com baixos-relevos e molduras, posto que fossem de cantaria, pois sem o que ficariam expostas á intemperie das estações, e perder-se-hia o trabalho. Nas igrejas e nas cathedraes existem egualmente grandes alpendres, que figuram vestibulos diante das portas, como em Santarem, na igreja de S. Francisco.

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Figura 131: Jesus Christo n'uma aureola, no meio dos symbolos dos quatro evangelistas
 

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Figura 132: Portico-vestibulo em Moissac

Fachadas

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Figura 133

A disposição das fachadas varia conforme a grandeza das igrejas. Na representada pela gravura junta de uma igreja rural, a porta tem duas archivoltas guarnecida de rhômbos e de zigue-zágues, tendo no cimo um renque de arcadas fingidas; uma unica abertura occupa o centro do frontão com uma janella de volta perfeita. A outra figura representa uma igreja, mostrando os lados indicados conforme a posição das naves lateraes, tendo já maior fachada que a precedente. Por cima da porta veêm-se tres archivoltas sustentadas por columnas e ornadas de diversas molduras; mais acima a janella de volta com archivolta e columnasinhas; e a sua parte superior cornija com modilhões e frontão triangular. Esta combinação é frequente nas igrejas do seculo XII.


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Figura 134: Fachada da igreja de Jort (Calvados).

Janellas

As janellas de maiores dimensões são estreitas e sem columnas. No seculo XII, principalmente, são maiores e ornadas de archivoltas sustentadas por columnasinhas, e por vezes acompanhadas de arcadas fingidas.

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Figura 135

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Figura 136: Janella guarnecida de duas arcaturas

As aberturas são circulares, e usam chamar-lhes espelhos ou oculos; principiaram a ser empregadas no seculo XII, divididas em raios do centro para a circumferencia. Apresentavam tal ou qual similhança com as rodas das carruagens. O logar dos espelhos era escolhido nas extremidades da nave principal, ficando por cima da porta occidental, e ás vezes tambem no centro da abside ou do côro.

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Figura 137

Temos ainda felizmente, em Portugal, um edificio religioso que conserva o typo completo da architectura do seculo XII, e é o que pertence á profanada igreja de S. João de Alporão, em Santarem. Todas as formas e detalhes, que caracterisam a architectura roman, se conservam ainda na dita construcção. Os seus dois portaes com o feitio de volta semicircular; as columnas sem lavor, sustentando archivoltas; o tympano liso por cima da verga do portal; os butareos singelos; a cimalha composta de carrancas; o espelho aberto na extremidade da nave e radiado; a fachada principal voltada para o lado do poente, conforme a orientação adoptada no culto christão; apparelho pequeno applicado á construcção, conservando muita largura nas juntas da cantaria; tudo emfim nos offerece o completo modelo das primitivas igrejas d'aquella época, que o fundador da monarchia portugueza mandou construir no reino. E além de apresentar a mais evidente prova do estylo da architectura do seculo XII, tambem nos confirma ter pertencido esta fabrica ao reinado de D. Affonso Henriques, mostrarem igualmente as pedras da edificação as siglas com que na idade media os canteiros marcavam o trabalho executado,[38] signaes necessarios para reconhecer a qual dos operarios pertencia, e saber-se tambem quanto se deveria pagar a cada um: pois que esses signaes são similhantes aos demais gravados na cantaria dos monumentos coevos do paiz, notando-se esta particularidade não só nas ruinas dos castellos, mas tambem nos edificios religiosos. A nossa satisfação aqui sobe de ponto por sermos o primeiro que apresentâmos tal gravura e tão precioso e completo especimen da archeologia patria da referida epoca.

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Figura 138: Igreja de S. João d'Alporão (Santarem)

Arcadas

As arcadas, dispostas para communicar a nave principal com os lados da igreja, eram construidas pela mesma forma como as portas; suas archivoltas poucas vezes tinham molduras, e por isso ficavam quasi sempre ligadas.


Entablamentos

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Figura 139

O entablamento que corôa as paredes dos edificios é geralmente posto sobre modilhões figurando cabeças grotescas, carrancas, ou outras figuras de feitios variados; como se nota nas fachadas posteriores da sé velha de Coimbra, do convento de Santa Clara de Santarem, da igreja de Cedofeita, e capella-mór de Odivellas.

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Figura 140

Á proporção que nos aproximâmos do fim do seculo XII, as cornijas mostram-se-nos mais leves, e no seculo XIII apresentam-nos guarnição imitando dentes de serra.


Columnas

Os pontos de apoio que tinham sido muitas vezes monocylindricos no principio do seculo XII, até quando eram compostos de pilastras, foram depois, quasi meado este seculo, formados por um conjuncto de columnas enfeixadas, innovação que devia depois produzir as columnas inteiriças desde o solo até ao nascimento da abobada, concorrendo assim para a creação do estylo ogival.

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Figura 141

Capiteis e diversas bases das columnas nos seculos XI e XII

Chama-se capitel historiado ao que é formado por composições relativas a assumptos religiosos ou historicos, executados em baixo-relevo.[39]


Abobadas

Durante o seculo XI, as abobadas de cantaria eram raras, e principalmente applicadas ás grandes naves; em geral não se viam as abobadas senão nas naves lateraes e nas absides, ficando visiveis os madeiramentos, ou então cobertos com taboado.

Foi no seculo XII que os mais ousados architectos lançaram as primeiras abobadas de cantaria sobre as grandes naves; mas para esta construcção foi preciso modificar a antiga disposição afim de receber os pontos de apoio dos arcos encruzados em diagonal, que contribuem tanto para consolidar essas abobadas.

Nas igrejas do estylo roman, notam-se facilmente estas estructuras, e as mudanças que isso motivou nas suas construcções.

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Figura 142: Vista interior da igreja de Souillac

Existe certo numero de igrejas com a abobada construida em cupula. Representa uma cupula a metade de uma esphera. Para se poderem firmar as cupulas nas paredes, cujas divisões apresentavam a fórma quadrada, era necessario collocar entre os seus arcos abobadas pendentes (pendantifs), de maneira a formar com elles (na parte superior) o circulo horisontal, sobre o qual caia o peso da cupula: este modo de construir a cupula tirava a sua origem da architectura Bysantina.

Ha tambem outras abobadas ogivaes cupuliformes, que se firmam não nas paredes lateraes, mas egualmenle na archivolta dos arcos de cada vão, na direcção longitudinal. De sorte que, se suppozermos uma cupula ou espheroide, que se transforme com as suas abobadas pendentes, formar-se-ha a idéa primitiva que produziu o systema que expozemos, e ao qual o distinctissimo architecto Mr. Viollet-le-Duc deu a seguinte significação: É uma cupula hemispherica furada com quatro arcos em ponto subido traçados por tres pontos. Fortificavam-se estas abobadas esphericas achatadas com as nervuras ou arcos cruzados, descançando-as nos angulos do quadrado, e com outros que se cruzavam no intervallo dos primeiros, e rematavam no cimo de cada arco maior.

As abobadas esphericas com duplo cruzamento de nervura foram muito applicadas nos seculos XII e XIII.

Porém, para voltarmos á descripção das abobadas dos seculos XI e XII em geral, basta dizer que ha muitas que foram construidas da fórma de semi-cylindros continuos, descançando nas paredes ou pilares, e que se reforçaram com arcos duplos de cantaria parallelos á dita abobada como apresentâmos na gravura da pagina seguinte; porém, o peso d'estas abobadas era muito grande, e causava ruinas frequentes. Então, para remediar este inconveniente, cruzavam-se os arcos duplos, afim de dividir a pressão e dirigil-a nos pilares regularmente separados. As paredes lateraes ficaram por este modo consideravelmente alliviadas do grande peso que d'antes tinham sobre si, o que se verá perfeitamente na gravura seguinte. Este systema originou o enfeixarem-se as columnas conforme as combinações que serão facilmente comprehendidas, e que tinham por fim sustentar os arcos duplos.


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Figura 143: Abobadas do seculo XII, com arcos duplos cruzados

Torres isoladas

Presume-se que as torres para sinos não foram construidas antes do seculo VIII, e por muito tempo seriam apenas um simples campanario, ficando superior ao telhado da igreja e proximo do sanctuario, para facilitar os toques durante a missa, sem que o acolyto se afastasse do altar. Depois apparece a torre da igreja entre o côro e a nave principal. Nas grandes igrejas collocaram uma torre sobre o centro do cruzeiro, e passado tempo levantaram outras nas extremidades occidentaes das naves. Esta nova disposição das torres era já usada no seculo XII e antes dos fins do XI, mas applicada sómente para as igrejas dos conventos.

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Figura 144: Torre do seculo XII

As torres romans eram, além da fórma quadrada, limitadas por uma pyramide de grandes faces, quer fosse construida de pedra, quer de madeira: esta pyramide terminava muitas vezes com a extremidade de fórma romba; tal assim foi construida a torre quadrada e isolada da igreja de N. Senhora das Dôres, em Dornes, na provincia da Extremadura.

O grande numero de pyramides que ornam as torres antigas romans foi obra executada depois nos seculos XIII e XIV. Ha tambem algumas torres de fórma octogona e terminando por um telhado que obedece á mesma fórma.


Iconographia[40] christã

Ainda que este assumpto nos conduziria muito longe, todavia para não ficar incompleto, em parte, tão importante estudo da arte n'este periodo, tambem resumidamente daremos succintas explicações.


Pinturas decorativas

As pinturas decorativas foram muito usadas no seculo XII. As ocres encarnadas e amarellas, o azul, o verde e o branco, formam a escala mais commum das côres. As figuras eram imitadas das que se executavam na esculptura da mesma época.

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Figura 145: Pinturas do seculo XII

Pavimentos

Os sanctuarios mais elegantes tinham o piso executado em mosaico, ou marchetados de côres. Principiaram no século XII a usar nos pavimentos das igrejas os tijolos;[41]porém os revestidos com cimento, ou lageados, eram usuaes em as naves.


Altares

Os altares e pias baptismaes pertencentes ao seculo XII são raros hoje; eram de estylo inteiramente analogo ao das igrejas d'esse tempo, conforme se vê nos especimens que damos. 

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Figura 146: Altar roman, em Saint-Germer

Tumulos

Posto que a interessante obra que nos serve de poderoso guia não traga explicações sobre os tumulos do periodo, de que tratâmos, pareceu-nos conveniente dizer alguma cousa, para não omittirmos as essenciaes noções ácerca dos diversos trabalhos.


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Figura 147: Pias de baptismo roman de Chéreng (França)

Foi no seculo IX, que consentiram em que os cadaveres tivessem sepulturas no interior das igrejas, mas d'esta prerogativa só podiam gosar os reis, os bispos e os abbades, que por suas virtudes estiressem no caso de receber canonisação; por quanto os cemiterios christãos, nos primitivos tempos, eram situados fora das cidades; e no concilio celebrado em 660 se permittiram os enterros unicamente nos adros das igrejas.

Os christãos costumavam amortalhar os defuntos com os fatos usuaes e as insignias do cargo ou profissão; os parentes mais proximos transportavam os despojos mortaes, que eram depois encerrados em caixão de pedra, marmore, ou de madeira e chumbo, ficando o cadaver com o rosto voltado para o céo e os pés para o Oriente. Manteve-se este uso até o seculo XIII.

Os sarcophagos eram collocados sobre o solo em renques parallelos, na direcção do norte para o sul. Tinham a fórma de parallelipedo, sendo mais estreitos aos pés que do lado da cabeça; e alguns tomavam na cabeceira a fórma curvilinea.

Fazendo investigações archeologicas ainda este anno (1876), em Alvaizerere, no antigo cemiterio e sitio chamado da Igreja-Velha, da qual já não existem nenhuns vestigios, descobrimos sepulturas d'esse feitio pertencentes ao seculo XI; o que nos fez conhecer a época da fundação da remota igreja, de que só se conservou o nome.

N'essa época tambem costumavam collocar dentro do caixão dois vasos de barro, um com agua benta, e outro com brazas e incenso.

Havia em muitos cemiterios, no seculo XII, além de uma cruz de pedra, uma columna ôca, ou pilar quadrado, no qual punham de noite uma lanterna em signal de veneração para o logar sagrado, e como indicação para que os transeuntes pudessem rezar pelo eterno descanço dos finados.

Os tumulos em vulto ficavam collocados nas cryptas, ou nos porticos ou em capellas das igrejas, separados das paredes ou mettidos dentro de arcadas no grosso da construcção; e estas arcadas eram ornadas com diversas molduras proprias do estylo ao qual pertencia a época do tumulo:[42] porém, no seculo XIV, acompanhadas dos dois lados por contrafortes e pinaculos. Emquanto ao feitio do cofre sepulchral, imitaram a fórma quadrangular da decadencia romana. Os que eram construidos em marmore estavam decorados por arcadas ou baixos-relevos. A campa era composta de uma grande lagea horisontal, ou duas inclinadas, formando um angulo agudo, e ornada de arabescos. No final do seculo XII, começaram de empregar a fórma das campas com lados inclinados.

Nos tres seculos seguintes, apresentavam a estatua do defunto deitada de costas sobre a tampa do sarcophago. Viam-se ás vezes o marido e a mulher ao lado um do outro, no mesmo tumulo.

No museu de archeologia do Carmo, em Lisboa, ha um singular exemplo da estatua de uma pessoa real deitada de ilharga, que podemos considerar raro, porque ha só outro exemplo no jazigo real de S. Diniz, em França.

Os reis e os fidalgos eram representados com os seus uniformes, os bispos e os abbades com as suas vestimentas sacerdotaes, com as mãos juntas, ou os braços cruzados no peito.[43]

Os tumulos mais modestos da idade media, são os rasos, collocados nas igrejas e nos claustros. Os mais antigos datam do seculo XII. N'essas campas acham-se gravados em traços concavos, a effigie e o corpo inteiro do finado, com inscripção em latim; o mais notavel exemplo d'este genero existe em um claustro de Alcobaça, tendo a campa assente entre a porta da casa do capitulo e a galeria do claustro.[44]

As pedras tumulares eram tambem ornadas de incrustações de cobre, e d'este género apparecera no anno de 1875 em Portugal metade de uma campa pertencente a um tumulo, o qual estava entaipado na parede da igreja de S. Domingos em Santarem: representava apenas as pernas de duas figuras de homem e outra de mulher, e uma pequena parte da inscripção já com falta de algumas letras.[45]

Nas igrejas da Belgica ha grande numero de campas d'este genero com embutidos de metal.

É de grande auxilio para a historia o estudo de taes tumulos, principalmente para se conhecer certos brazões e usos do vestuario na idade-media.


ARCHITECTURA CIVIL

As construcções destinadas aos conventos, aos hospitaes, palacios, mercados, pontes, ás casas particulares, constituem emfim a architectura civil. As construcções civis dos seculos XI e XII mostram no apparelho, na fórma das aberturas, molduras e ornamentações, que eram identicas das construcções religiosas.

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Figura 148: Janellas de diversas construcções civis

As vergas das janellas de volta perfeita, e ás vezes de fórma recta, eram subdivididas em duas aberturas, como as usadas nas igrejas.

Aos respiradouros das chaminés davam-lhes a fórma cylindrica na parte superior, ficando mais ou menos elevados.


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Figura 149

A frente dos fogões no interior dos aposentos era sustentada com columnas e pilastras, ou arcos abatidos.


Edificios monasticos

As construcções civis mais importantes pertenciam ás casas religiosas. A sua architectura era simples e severa no seculo XI; porém no XII, o sem numero de legados destinados aos mosteiros facilitaram o emprego de quantias avultadas para a construcção de claustros e de casas de habitação. Existem ainda em Portugal, não obstante a destruição e abandono que se dá ha cincoenta annos n'esses edificios religiosos, como em Alcobaça, Santarem e Coimbra, bellos especimens da architectura monastica do seculo XII. Já dissemos [na pag. 116] que as abbadias haviam copiado as principaes distribuições das casas de campo, e das cidades usadas pelos romanos.


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Figura 150: Plano d'uma abbadia do seculo XII (parte central)
1, igreja. 3, sala capitular. 2, 4, 5, salas abobadadas, com os dormitorios em volta. 9, refeitorio. 11, salas de recepção. 12, pateo rodeado pela galeria do claustro.

O claustro representava o peristylo que os romanos tinham nas casas das cidades, sendo esta a parte reservada para a vida privada; tambem imitavam as officinas que cercavam a villa urbana, ou pateo principal d'essas villas: o plano que apresentamos mostra as principaes disposições das casas que guarneciam o claustro.

Dormitorios.—O dormitorio ficava quasi sempre contiguo ao claustro e em frente da igreja: esta sala não acontecia ficar parallela á galeria do claustro, mas estendia-se do norte ao sul ou do sul ao norte, conforme a posição do pateo do convento, relativamente ao logar occupado pela igreja.

Cosinhas.—No seculo XII as cosinhas apresentavam em muitas abbadias a fórma redonda, octogona ou quadrada, formando uma casa em separado, posto que ficando sempre na proximidade do refeitorio. Estas cosinhas, de que ha bom exemplo em Alcobaça,[46] tinham em roda muitas fornalhas com chaminés, e cada uma d'ellas com uma columna ôca de pedra, que saía do telhado conico do edificio, no cimo do qual havia respiradouros em fórma de laternins, para darem saída ao fumo e estabelecer a ventilação.


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Figura 151: Cosinha de Saint-Père (Chartres)

Será comprehendida esta construcção pela gravura acima, que representa as antigas cosinhas de Saint-Père de Chartres (França), de que já não ha vestigios.

Albergarias.—As casas para hospedes, pois quasi todas as congregações religiosas exerciam franca hospitalidade, recebendo os viajantes de diversas procedencias, occupam em muitos mosteiros a parte occidental das casas claustraes. Na parte de fóra do claustro, encontrava-se a area interior, ou pateo interno, reservado para os leigos ou criados; a area communis, grande pateo onde as carretas circulavam para descarregarem os productos dos dizimos. Á roda d'este grande pateo estavam os celeiros, armazens e curraes. A area communis comprehendia ainda a grande porta da entrada, porta maior, o pretorio onde se julgavam os delictos, a prisão, finalmente o pombal, o forno para cozer o pão, e n'alguns tambem o moinho.

Celleiros.—Os celleiros, annexos á area communis, eram verdadeiros edificios monumentaes. Os carros entravam carregados com os cereaes por uma extremidade e saíam descarregados pela extremidade opposta.

Os armazens e adegas eram tambem edificios bem construidos e vastos.
 

Mercados

Os mercados assimilhavam-se no seculo XI aos celleiros que eram formados de galerias em roda do recinto murado.


Hospicios

Os hospicios tinham bastante importancia em certas cidades. A principal parte do edificio continha o salão destinado aos viajantes, e as enfermarias para os doentes eram geralmente divididas em tres naves, ficando a nave central devolúta e as lateraes para as camas. Havia tambem hospicios com claustros, pouco mais ou menos como os dos conventos, emquanto ás disposições geraes.


Casas particulares

As casas particulares do seculo XII apresentavam, na frente principal, empenas, isto é, para o lado da rua mostravam a forma do telhado com duas aguas; as vergas das janellas eram geralmente de volta perfeita nas casas construidas de cantaria, e quadradas nas casas construidas de madeira, que eram mais usadas.

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Figura 152: Plano do celleiro de Perrières

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Figura 153: Perfil longitudinal do celleiro de Perrières

ARCHITECTURA MILITAR

As cidades que tinham sido antigamente fortificadas haviam conservado, pela maior parte, as muralhas e torres do recinto; porém a creação do novo systema da defensa feudal, deu origem a se construirem em muito maior numero os novos castellos, que fizeram mudar o aspecto guerreiro dos paizes desde o fim do seculo X até o XI.


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Figura 154: Casa do seculo XII, em Chartres

No seculo XI os castellos compunham-se de duas partes: d'um pateo inferior e d'um segundo recinto, dentro do qual havia a torre ou o torreão, como fôra edificado o castello de Leiria.

A extensão do pateo inferior, ou primeiro recinto, ficava proporcionado á importancia da praça fortificada.

Muitos castellos do seculo XI não tinham senão trincheiras, defendidas por estacadas e fosso mais ou menos profundo.

N'uma das extremidades do pateo, ás vezes até o centro, faziam uma construcção muito elevada e circular, ora artificial, ora aproveitando a altura natural, e sobre a qual estava firmado o torreão.

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Figura 155

A gravura fará comprehender melhor a disposiçao d'um d'estes castellos, em mouchão, com estacaria. A torre quadrada, ou torreão firmava-se n'um mouchão B: o fosso c c formava um circulo na base da eminencia e a separava do pateo C, ao centro do qual estava collocada. N'este pateo encontravam-se as construcções E E, que serviam de deposito de guerra, e cavallariças, ou habitações para o pessoal ao serviço do nobre proprietario do castello. As estacarias enterradas e muito unidas F F, formavam um cerrado solido defendido pelo fosso exterior G.

Pode comparar-se este torreão, e na eminencia que lhe servia de base, á imitação mais ou menos alterada do pretorio dos romanos.

Os castellos, cuja construcção interior era de pedra, offerecem mais interesse que os antecedentes, quando conservam ainda alguns lanços de muralha no meio dos recintos. Os torreões de cantaria tinham quasi todos typos uniformes. O mais commum apresentava torre quadrada separada das outras edificações da praça, na qual ninguem entraria senão pela porta alta da muralha, correspondendo ao nivel do primeiro andar, e para esse fim era mister servir-se da ponte-levadiça, ou escada movel.


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Figura 156: Plano do castello de Grimbosq

Algumas vezes o torreão ligava-se ás fortificações que cercavam o recinto fazendo de certo modo corpo com elle: então servia de torre de observação, e era mais alta que as outras construcções; não ficava por isso sem communicação, como podiamos demonstrar na construcção dos torreões de Leiria, Beja e Thomar.

Todavia, no seculo XII, pelas modificações que se operaram tanto na architectura militar, como na religiosa, adoptaram para o torreão a fórma cylindrica ou polygonal, de preferencia á fórma quadrada; d'esta maneira é o torreão de Gisors. Em Portugal não existe nenhum com esta configuração.

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Figura 157: Torreões do seculo XII: Beaugency

Esta parte antiga do castello de Gisors, ainda ao presente muito bem conservada, avulta no cimo de uma eminencia artificial, a sua muralha com contrafortes cinge a plata-forma disposta n'essa elevação. Ha uma torre polygonal mui alta que está em contacto com a muralha do recinto, fazendo frente para a parte da entrada do pequeno pateo, que talvez podesse ficar rodeado de aposentos, e no qual se notam ainda as ruinas de uma capella.

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Figura 158: Torreões do seculo XII: Muralha e torreão de Gisors, vistos de dois lados


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Figura 159: Torreões do seculo XII: Torreão de Houdan

O torreão de Houdan apresenta quatro torres cylindricas ligadas ao corpo principal.


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Figura 160: Plano do torreão d'Étampes

O torreão d'Étampes mostra-nos um typo quadrilobular na maxima perfeição, isto é, quatro lobulos eguaes com divisões symetricas.

Estas diversas experiencias vieram a dar afinal na construcção da torre cylindrica que no fim dos seculos XII e XIII preferiram nos paizes do norte. Continuando comtudo a servirem-se, nos do sul, da fórma quadrada durante o seculo XIII, e no seguinte, como foi construido o castello de Leiria em Portugal.


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Figura 161: Ruinas do torreão cylindrico de Néaufle (França)

Damos em primeiro logar o desenho do torreão cylindrico do estylo roman, pertencente ao castello de Laval, porque conserva ainda o remate do parapeito de madeira, como era então uso, ficando saliente na muralha, o que dava logar á guarnição poder percorrel-a sem perigo, e lançar os projectis sobre os sitiadores pelos intervallos do vigamento. Mui raramente poderá encontrar-se hoje uma torre d'este feitio, e talvez seja o unico exemplo que exista de época tão remota.

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Figura 162: Torreão de Laval, rematado por uma cupula do madeira fazendo saliencia sobre a torre
(As duas janellas são de construcção do seculo XVI)

 
CAPITULO IV

ERA OGIVAL

Grande revolução artistica se effectuou no fim do XII seculo, tanto pela applicação do arco descripto de tres centros, e o abandono da volta perfeita; como pelo novo systema de construcção e decoração, isto é, pela introducção do estylo ogival.

Todavia, o estylo ogival não substituiu repentinamente o estylo roman; o emprego da ogiva só veio a ser commum no decurso do seculo XII, e depois de ter sido applicado conjunctamente á volta perfeita, que lhe era preferido. Esta época de transformação chama-se tambem de transição; teve por limite o seculo XIII: então o arco com tres centros foi geralmente empregado, e o estylo ogival completamente formado.

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Figura 163: Duas ogivas encaixilhadas em um arco

Ainda edificaram igrejas no estylo roman em certas localidades, quando a architectura ogival dominava em outras. Comtudo, em algumas provincias do meio-dia, conservaram o estylo de transição durante o seculo XIII. As causas que determinaram a creação do estylo ogival são complexas. O arco de tres centros teve a sua origem em a necessidade de tornar mais solidas as novas fórmas de construcção.

Já vimos como as abobadas se aperfeiçoaram pelo uso do encruzamento dos arcos. Encontraram logo em seguida ao emprego do arco descripto por dois centros, novo meio de diminuir o esforço das abobadas, e fazer convergir todo o peso d'ellas sobre os pontos em que havia os contrafortes. D'esta innovação derivou um sem numero de outras innovações, que produziram o estylo ogival tal como se observa nas construcções do XIII seculo.


ARCHITECTURA RELIGIOSA


Forma das igrejas

Fizeram-se algumas modificações no plano das igrejas edificadas no XIII seculo; taes como o côro, mais comprido que fôra antes; as naves lateraes, que se prolongavam em roda do santuario (capella-mór), ficaram depois aformoseadas com outras capellas, excepto quando as igrejas terminavam na curva da abside; e n'esse caso as naves limitavam-se aos dois lados do santuario.

Em algumas das cathedraes de maior grandeza, as naves lateraes corriam em fórma de galeria, em logar de uma em roda do côro, como teve a Sé de Lisboa. Muitas vezes davam á capella central atrás do côro, maior extensão que ás outras que circundavam a nave, e a qual era consagrada a Nossa Senhora; todavia foi no seculo XIV que mais se generalisou esta disposição.

Não se collocavam ainda no seculo XIII capellas nas naves lateraes, e se algumas cathedraes d'essa época apparecem com esta disposição, foram construidas nos seculos seguintes (XIV e XV).