Objectos em metal, joias e utensilios
Havia egualmente reproduzido em cobre grande parte dos vasos que se faziam de barro, principalmente as travessas, bacias, garrafas e baldes para sacrificios.
Fizeram-se até magnificos de prata, com figuras em relevo batido: a prova d'isto são os utensilios de todas as formas, em bronze, que existem em tantas collecções publicas e particulares: broches, fivelas, e joias tão variadas como as que ahi se vêem, mostram a que ponto os romanos tinham alcançado a perfeição no trabalho dos metaes, nas pedras preciosas, no marfim, etc., etc. A descripção de todas estas riquezas artisticas, não pode figurar n'este resumido compendio.
Os objectos de metal, e os restos mais preciosos pertencentes á antiguidade, foram descriptos por Caylus, Winckelmann, Chabonillet, etc., sabios antiquarios que deram a mais completa explicação a este respeito.
Pela mesma razão, não nos devemos occupar das medalhas romanas, não obstante o estudo ser util e importante, porém necessitaria augmentar demasiadamente este livro, e o nosso intuito foi unicamente apresentar resumida apreciação da architectura pertencente á época gallo-romana, e descrever os vestigios dessiminados no solo habitado pelo povo-rei.
Muralhas de defeza ou forticações
Sem discutir aqui sobre qual seria a época a que pertencem as muralhas que defendiam as cidades gallo-romanas, devemos comtudo fazer menção d'ellas, porque constituem ainda provas muito importantes d'essa grande época.
Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam já ter servido nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de apuro.
O sabio Mr. de Caumont já tinha ha muitos annos insistido sobre um grande facto, que nenhum historiador indicára, e que ainda ignoram quasi todos, e é a existencia em differentes localidades d'um castrum, cujas muralhas estão em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas, frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripções; e por isso o illustre archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV, sendo a execução d'essas fortificações em todos os logares apropriados para tal fim.
Seja como fôr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era preciso restringir o perimetro do recinto á parte mais facil para ser defendido, e na possivel extensão com os materiaes disponiveis, cercado de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10 hectares sómente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes 100 e até 200, durante o tempo que disfructavam a paz.
No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no seculo IV, a desorganisação e o enfraquecimento gradual das instituições romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no seculo V.
Um esboço rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto quartel do seculo III explicará claramente a marcha progressiva da decadencia das artes do seculo IV. Depois das invasões, a miseria publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu, as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando cada vez mais.
As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas condições essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; vê-se portanto declinar tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.
Todavia, assim como as instituições romanas não desappareceram com a quéda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia pelo grande povo sobreviveram ao imperio.
«Tal era a robustez da organisação romana, diz Michelet, que, quando a existencia parecia desemparal-a, quando até os barbaros estavam prestes a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de boa ou má vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que não podiam abalar; a curvar a cabeça e receber ainda por cima, embora vencedores, a lei de Roma vencida.»
O que expressa Michelet com relação ás instituições romanas, poderemos applical-o ás artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados com o facho de incendio. Os barbaros começaram a trabalhar tambem, a edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas tradicções dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias devastações. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos seculos V e VI, seguiram seu caminho, até que uma grande revolução, no fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as antigas tradições. É o que nós propomos demonstrar nos capitulos que vão seguir-se.
Figura
Figura 87
ADDITAMENTO
Inscripções Latinas
Como o estylo lapidar tem certas formulas, abreviaturas especiaes e signaes particulares, sem adquirir algumas explicações a este respeito, a interpretação ficaria baldada para quem não as possuisse; embora seja tambem preciso não ignorar os acontecimentos historicos, todavia julgamos conveniente ajuntar a este compendio alguns esclarecimentos epigraphicos afim de facilitar aos principiantes a leitura das lapidas: portanto, acrescentamos a esta publicação um quadro succinto das principaes abreviaturas que se encontram nas inscripções luso-romana, por serem estas as de mais difficil interpretação.
Ainda que a mesma lettra inicial corresponda a diversas palavras, o sentido geral da inscripção indicará a que fôr mais apropriada á sua significação. É pois facil distinguir, com alguma sagacidade, os nomes proprios dos nomes substantivos.
A palavra tribu, á qual as familias romanas pertenciam, fica sempre subentendida, e só se menciona o nome.
As datas, em geral, sabem-se pela indicação do anno do reinado do imperador, ao tempo do qual o monumento foi erigido. Finalmente, deu-se o epitheto de Divus, a cada um dos imperadores, depois da sua morte.
A.—ager; augustales: augustatis.—A. A.—apud agrum.
AB. AC. SEN.—ab actis senatus.
æ. CVR.—ædilis curulis. A. FRVM.—a frumento.
A. H. D. M.—amico hoc dedit monumentum.
A. K.—ante kalendas.—A. O. F. C.—amico optimo faciendum curavit.
A. P.—ædilitia potestate; amico posuit.
A. S. L.—animo solvit libens; a signis legionis.
A. T. V.—aram testamento vovit.
A. XX. H. EST.—annorum viginti hic est.
B. A.—bixit (pro vixit) annis.
B. DE. SE. M.—bene de se meritæ, vel merito.
B. M. D. S.—bene merenti, vel bene merito de se.
B. P. D.—bono publico datum.
B. Q.—bene quiescat.—B. V.—bene vale.
BX. ANOS. VII. ME. V. DI. XVII.—vixit annos septem, menses, sex, dies decem septem.
7.—centuria; centurio.—C.—centurio.
C. B. M.—conjugi bene merenti; et F.—conjugi bene merenti fecit.
CENS. PERP. P. P., vel CENS. PERP. p. r., vel CENS. P. P. P.—censor perpetuus; pater patriæ
COH. I. AFR. C. R.—cohors prima africanorum civium romanorum.—FL. BF.—-flavia beneficiariorium.
C. I. O. N. B. M. F.—civium illius omnium nomine bene merenti fecit.
C. K. L. C. S. L. F. C.—conjugi carissimo loco concesso sibi libenter fieri curavit.
C. P. T.—curavit poni titulum.
C. R.—civis romanus; civium romanorum; curaverunt refici.
C. S. H. S. T. T. L.—communi sumptu hæredum, sit tibi terra levis.
D.—Decimus; decuria; decurio; dedicavit; dedit; devotus; dies; diis; divus; dominus; domo; domus; quinquaginta.
D. C. D. P.—decuriones coloniæ dederunt publice.
D. D.—dedit, dedicavit.
D. D. D. S.—decreto decurionum datum sibi; dono dedit de suo.
D. K. OCT.—dedicatum kalendis octobris.
D. M. ET. M.—diis manibus et memoriæ.
D. N. M. E.—devotus numini majestati ejus.
D. O. S.—deo optimo sacrum; diis omnibus sacrum.
D. P. P. D. D.—de propria pecunia dedicaverunt; de pecunia publica dono dedit.
D. S. F. C. H. S. E.—de suo faciundum curavit, hic situs est.
D. T. S. P.—dedit tumulum sumptu proprio.
E. CVR.—erigi curavit.—EDV. P. D.—edulium populo dedit.
E. E.—ex edicto; ejus ætas.
E. H. T. N. N. S.—exterum hæredem titulus nostre non sequitur.
E. I. M. C. V.—ex jure manium consertum voco.
E. S. ET. LIB. M. E.—et sibi et libertis monumentum erexit.
E. T. F. I. S.—ex testamento fieri jussit sibi.
E. V. L. S.—ei votum libens solvit.
FAC. C.—faciendum curavit.
F. C.—facere curavit; faciendum curavit; fevit conditorium; felix constans; fidei commissum: fieri curavit.
F. H. F.—fieri hæres fecit: fieri hæredes fecerunt.
F. I. D. P. S.—fieri jussit de pecunia sua.
F. M. D. D. D.—fecit monumentum datum decreto decurionum.
F. P. D. D. L. M.—fecit publice decreto decurionum locum monumenti.
F. Q.—flamen quirinalis.
F. T. C.—fieri testamento curavit.
F. V. F.—fieri vivens fecit.
G. L.—genio loci.—G. M.—genio maio.
G. P. R.—genio seu gloria, populi romani.
G. R. D.—gratis datus, vel dedit.
G. S.—genio sacrum; genio senatus.
G. V. S.—genio urbis sacrum; gratis votum solvit.
H.—habet; hac hastatus; hæres; hic; homo; honesta; honor; hora; horis; hostis.
H. B. M. F.—hæres bene merenti fecit.—F. C.—faciendum curavit.
H. C. CV.—hic condi curavit; hoc cinerarium constituit.
H. D. D.—hæredes dono dedere; honori domns divinæ.
HE. M. F. S. P.—hæres monumentum fecit sua pecunia.
HIC. LOC. HER. N. S.—vel HIC. LOC. HER. NON. SEQ.—hic locus hæredum non sequitur.
H. L. H. N. T.—hunc locum hæres non teneat.
H. M. AD. H. N. T.—vel H. M. AD. H. N. TRAN.—hoc monumentum ad hæredes non transit.
H. N. S. N. L. S.—hæres non sequitur nostrum locum sepulturæ, vel hæredem ... locus, etc.
HOC. M. H. N. F. P.—hoc monumentum hæredes nostri fecerunt ponere.
H. P. C.—hæres ponendum curavit; hic ponendum curavit;—L. D. D. D.—hæres ponendum curavit loco, dato decreto decurionum.
H. S. C. P. S.—hic curavit poni sepulcrum; hoc sepulcrum condidit pecunia sua; hoc sibi condidit proprio sumptu.
H. T. V. P.—hæres titulum vivus posuit, hunc titulum vivus posuit.
I. AG.—in agro.—-I. C.—-judex cognitionum.
I. D. M.—inferis diis maledictis: Jovi deo magno.
I. F. P. LAT.—in fronte pedes latum.
II. V. DD.—duumviris dedicantibus.
II. VIR. AVG.—duumvir Augustalis.
II. VIR. COL.—duumvir coloniæ.
II. VIR. L. D.—duumvir juri dicundo.
II. VIR. QQ. Q. R. P. O. PEC. ALMENT.—duumviro quinquennali qætori reipublicæ operum pecuniæ alimentariæ.
III. VIR. AED. CER.—triumvir ædilis cerealis.
IIII. V.—quatuorviratus.
IIII. V. A. P. F.—quatuorviri argento publico feriundo, vel auro.
IIII. VIREI. IOVR. DEIC.—quatuorviri juri dicundo.
IIIIII. VIR. QQ. L. D.—sexvir quinquennalis juri dicundo.
IN. AG. P. XV. IN. F. P. XXV.—in agro pedes quindecim in fronte pedes viginti quinque.
I. O. M. D. D. SAC.—Jov. optimo maximo, diis deabus sacrum.
I. P.—indulgentissimo patrono; innocentissimo puero; in pace; jussit poni.
I. S. V. P.—impensa sua vivus posuit, vel vivi posuere.
K. B. M.—carissimæ bene merenti, vel carissimo.
K. CON. D.—carissimæ conjugi defunctæ.
K. D.—kalendis decembris; capite diminutus.
L.—liberta; lucia.—L. B. M. D.—libens bene merito dicavit; locuno bene merenti dedit, vel libertæ, seu liberto.
L. F. C.—libens fieri curavit; libertis faciendum curavit; libertis fieri curavit, vel locum aut lugens.
LIB. ANIM. VOT.—libero animo votum.
L. L. FA. Q. L.—liberlis libertabus familiisque libertorum.
L. M. T. J.—locum monumenti testamento fieri jussit.
LOC. D. EX. D. D.—locus datus ex decreto decurionum.
L. P. C. D. D.—locus publice concessus, datus decreto decurionum.
L. Q. ET. LIB.—libertisque et libertabus.
L. XX. N. P.—sestertiis vigenti nummum pendit.
MAN. IRAT. H.—manes iratos habeat.
M. B.—memoriæ bonæ; merenti bene; mulier bona.
M. D. M. SACR.—magnæ deum matri sacrum.
MIL. K. PR.—milites cohortis prætoriæ.
M. P. V.—millia passuum quinque; monumentum posuit vivens, vel memoriam.
NAT. ALEX.—natione Alexandrinus.
NB. G.—nobili genere.—N. D. F. E.—ne de familia exeat.
N. H. V. N. AVG—nuncupavit hoc votum numini augusto.
N. N. AVGG. IMPP.—nostri Augusti imperatores.
NON. TRAS. H. L.—non transilias hunc locum.
N. T. M.—numini tutelari mumicipii.
N. V. N. D. N. P. O.—neque vendetur, neque donabitur, neque pignori obligabitur.
OB. HON. AVGVR.—ob honorem auguratus; ... H. VIR.—duumviratus
O. C.—ordo clarissimus.
O. E. B. Q. C.—ossa ejus bene quiescant condita.
O. H. IN. R. S. F.—omnibus honoribus in republica sua functus.
O. LIB. LIB.—omnibus libertis libertabus.
O. O.—ordo optimus.—OP. DOL.—opus doliare, seu doliatum
P. B. M.—patri bene merenti, vel patrono, seu posuit.
P. C. ET. S. AS. D.—ponendum curavit et sub ascia dedicavit.
PED. Q. BIN.—pedes quadrati bini.
P. GAL.—præfectus Galliarum, vel præses.
PIA. M. H. S. E. S. T. T. L.—pia mater hic sita est: sit tibi terra levis.
P. M.—passus mille; patronus mnnicipii; pedes mille: plus minus; pontifex maximus; post mortem; posuit merenti; posuit mærens; posuit monumentum.
P. P.—pater patriæ; pater patratus; pater patrum; patrono posuit; pecunia publica; perpetuus populus: posuit præfectus; prætorio præpositus; propria pecunia; pro portione; proprætor; provincia Pannoniæ; publice posuit; publice propositum; publii duo.
P. Q. E, vel P. Q. EOR.—posterisque corum.
P. S. D. N.—pro salute domini nostri.
P. V. S. T. L. M.—posuit, voto suscepto, titulum libens merito.
Q. K.—quæstor candidatus.
Q. PR. vel Q. PROV.—quæstor provinciæ.
Q. R. vel Q. RP.—quæstor reipublicæ.
Q. V. A. I.—qui vixit annum unum, vel quæ. A. III. M. II.—annos tres, menses duos.
A. L. M. IIII. D. V.—onnos quinquagnita, menses quatuor, dies quinque. A. P. M.—qui vixit... annos plus minus.
R. C.—romana civitas; romani cives.
R. N. L. ONG. P. X.—retro non longe pedes decem.
ROM. ET. AVG. COM. ASI.—Romæ et Augusto communitates Asiæ.
R. P. C.—reipublicæ causa; reipublicæ conservator; reipublicæ constituendæ, retro pedes centum.
R. R. PROX. CIPP. P. CLXXIIII.—rejectis ruderbusi proxime cippum pedes centum septuaginta quatuor.
R. S. P.—requictorium sibi posuit.
S.—sacellum; sacrum; scriptus; semis; senatus; sepulcrum; sequitur; serva; sibi: singuli; situs: solvit; stipendium.
S.—uncia.—S.—centuria.
S.—semuncia.—SB.—sibi; sub.
S. D. D.—simul dederunt, vel dedicaverunt.
S. ET. L. L. P. E.—sibi et libertis libertabus posteris ejus.
S. F. S.—sine fraude sua.—SGN. signum.
S. M. P. I.—sibi monumentum poni jussit.
SOLO. PVB. S. P. D. D. D.—solo publico posuit, dato decreto decurionum
S. P. C.—sua pecunia constitut; sumptu proprio caravit.
S. T. T. L.—sit tibi terra levis.
S. V. L. D.—sibi vivens locum dedit.
TABVL. P. H. C.—tabularius provinciae Hispaniae citerioris.
T. C.—testamento constituit, vel curavit.
T. T. F. V.—titulum testamentum fieri voluit.
V. C. P. V.—vir clclarissimus praefectus urbi.
V. D. P. S.—vivens dedit proprio sumptu; vivens de pecunia sua.
V. E. D. N. M. Q. E.—vir egregius devotus numini majestatique ejus.
VI. ID. SEP.—sexto idus septembris.
VII. VIR. EPVL.—septemvir epulonum.
V. L. A. S.—votum libens animo solvit.
VO. DE.—vota decennalia.
V. S. A. L. P.—voto suscepto animo libens posuit.
V. S. L. M.—votum solvit libens merito.
V. V. C. C.—viri clarissimi.
VX. B. M. F. H. S. E. S. T. L.—uxor bene merenti fecit, hic situs est. sit bibi terra levis.
X.—mille.—X. ANNALIB.—decennalibus.
X. IIII. K. F.—decimo quarto kalendas februarii.
X. VIR. AGR. DAND. ADTR. IUD.—decemvir agris dandis attribuendis judicandis.
XV. VIR. SAC. FAC.—quindecemvir sacris faciendis.
XXX. P. IN. F.—triginta pedes in fronte.
XXX. S. S.—trigesimo stipendio sepultus.
Figura
Figura 88
IDADE MEDIA
ERA ROMANICA
Chama-se idade-media o periodo comprehendido desde a quéda do imperio romano (V seculo), até o principio do seculo XVI.
A architectura dos primeiros seculos da idade-meia apresenta os caracteres da architectura romana degenerada, e a designam com o nome de architectura Roman: o typo roman persistiu até ao seculo XII. Examinaremos este longo periodo da historia da arte, subdividindo em duas epocas; o roman primitivo, que comprehende do V seculo ao XI; e o roman secundario, que pertence aos seculos XI e XII.
PERIODO ROMAN PRIMITIVO
Depois das invasões dos barbaros, as artes e as lettras acharam amparo nas cidades, e depois nos mosteiros. Os architectos apropriaram ás necessidades da epoca parte dos edificios gallo-romanos; e exploraram a outra parte como se o fizessem em uma pedreira; acharam nas columnas, nos entablamentos, nas esculpturas diversas, e nos outros materiaes que cobriam o solo, mina que por muito tempo lhes forneceu pedras já lavradas: não tendo outro trabalho, o maior numero de vezes, senão ajustal-os ao logar para que os destinavam: portanto a duração do roman primitivo, pois, propriamente fallando, é a continuação do periodo artistico antecedente, apenas com a alteração nas formas, pela inhabilidade progressiva dos operarios e architectos.
Os elementos de decoração ficaram como estavam; as esculpturas, os mosaicos, as pinturas, foram empregadas como no seculo IV; as composições foram copiadas ou reproduzidas com insignificantes variantes.
Infelizmente, possuimos
bem poucos d'esses restos
authenticos dos edificios do
primeiro periodo roman;
é preciso recorrer aos ultimos
tempos do imperio, reunir
mentalmente os mosaicos,
as molduras das decorações,
as pinturas decorativas,
então usadas, para
completar a escala da ornamentação
durante os seculos
V, VI, VII e VIII.
Ao passo que se aproveitaram os fragmentos preexistentes nos edificios, que resistiram ás devastações dos barbaros, fazia-se um trabalho de assimilação que devemos ter em conta: além de construir bastantes edificios novos que lhes deviam ser indispensaveis, precisavam tambem de supprir as faltas de outros, reparar as paredes e as esculpturas, construir e ornar as igrejas novas. O elemento christão, com o seu symbolismo novo, seus especiaes assumptos, fez nascer uma nova escola de esculptura e de pintura, posto que se inspirassem dos modelos romanos. Basta citar para prova d'isto os tumulos dos primeiros seculos da idade media com as suas scenas biblicas, e as figuras cujos typos existiam nas pinturas das catacumbas.
As primeiras igrejas christãs foram copiadas das basilicas romanas. As basilicas eram como edificios para os tribunaes, centros commerciaes (bolsas) ou bazares. Dois renques parallelos de columnas dividiam o edificio em tres partes, no sentido da largura. A grande nave central era mais larga e mais elevada que as outras duas. Na extremidade das tres galerias, e na central havia um espaço pouco profundo, e de fórma circular, onde se assentava o presidente ou o primeiro juiz, tendo aos lados todos os juizes accessores; o bispo ahi collocava a sua cadeira, e as ceremonias religiosas eram apropriadas á disposição do local.
Figura
Figura 90
Ha em Abrantes uma igreja que é perfeito especimen d'esta disposição; é a unica que suppômos haver em Portugal com este typo.
As abbadias, ou communidades religiosas, foram egualmente imitadas das grandes habitações romanas, tanto da cidade como do campo, de que apresentâmos um specimen na pagina 82 [fig. 69]; o antigo atrium, o perystilo, tem sido representado na disposição dos claustros.
O tablium, ou grande sala, foi representada na casa do capitulo.
No mais foi tudo imitado das outras partes das habitações romanas com as modificações que necessitava a vida commum dos religiosos. A igreja veio sómente trazer novo elemento á composição da parte central dos conventos; porém o pateo externo, com os seus celeiros, curraes, lagares, etc., apresentava a similhança de uma villa rustica dos romanos reunida á habitação do proprietario.
Figura
Figura 91: Fragmento de um tabernaculo, ornado de pedras peciosas, de pombas, palmeiras carregadas de fructas, symbolisando as graças espirituaes. Esculptura mérovingia do museu d'Arles
Os palacios tiveram disposição identica á das grandes casas romanas; os seus pateos ornados de columnas ou de arcadas como os claustros, eram, como estes, a reproducção exacta do atrium e do perystilo. (Veja-se a pag. 82. [fig. 69])
Figura
Figura 92: O interior da crypta de Saint-Avit, em Orleans (IX seculo)
As habitações ruraes dos proprietarios abastados reproduziam tambem as disposições principaes das villæ gallo-romanas.
Passemos rapidamente sobre esta primeira parte do periodo roman, do qual existe mui pouco para citar, e vamos já occupar-nos do segundo periodo, que nos apresenta grande numero de monumentos notaveis, dando porém alguns fragmentos de architectura e esculptura pertencentes ao periodo roman primitivo, n'esta pagina e nas seguintes para se formar melhor idéa, posto que succinta, do estado da arte nos seculos IX e X.
Figura
Figura 95: Capitel da igreja de Jouarre (VII seculo)
Figura
Figura 96: Frontão do baptisterio de Poitiers
Figura
Figura
97: Pavões e
animaes symbolicos
PERIODO ROMAN SECUNDARIO
O seculo IX, de tão crueis provações, vira desapparecer grande numero de edificios pertencentes aos seculos anteriores. Estes edificios não teriam grande solidez, porque os normandos facilmente os destruiram e incendiaram, na occasião dos seus saques e vandalismos, e os que não ficaram expostos a esta barbaria apresentam já o aspecto vetusto.
Quando quizeram reparar similhantes damnos, reconstruiram o que já estava destruido, e não encontraram, como succedera no V e nos seguintes seculos, senão fustes de columnas, capiteis, esculpturas provenientes dos monumentos em ruinas dos gallo-romanos: foi preciso, no seculo X, cortar nova cantaria, extrahir outros materiaes, executar esculpturas, ainda que grosseiramente, para os ornamentos com que desejavam dar realce ás igrejas, aos palacios, e outros edificios publicos, ou particulares: portanto, nova ordem de cousas devia resultar das novas exigencias e necessidades. Viu-se, pois, no ultimo quartel do seculo X, e principalmente no XI, a architectura em via de transformação, depois caminhar gradualmente para o estado de esplendor a que attingiu no seculo XII.
As esculpturas provenientes dos monumentos romanos, ou muito bem imitados, deram certo brilho ao interior das grandes construcções dos seculos intermediarios: os mosaicos, as pinturas e estuques, occultavam a pobreza dos materiaes empregados.
No seculo XI dispensaram os ornamentos no interior das habitações, porém exigiram mais solidez e mais segurança contra os incendios; construiram mais frequentemente com pedra, pensaram em substituir com abobadas os tectos de madeira, que haviam sido até então quasi exclusivamente empregados.
Os frades architectos, e os demais artistas, em plena liberdade para innovar, construiram as igrejas e os edificios, onde havia necessidade de taes obras, combinando novos planos e disposições inteiramente desconhecidas.
As proporções antigas exigidas na architeclura não continuaram a ser observadas quanto ao modulo das columnas, e suas subdivisões. O colorete fez então sempre parte do capitel, de certo contrario ás regras da architectura romana, porque o colorete andava ligado com o corpo da columna.
As esculpturas mais rudimentares apresentavam series de figuras repetidas, que se agrupavam, seguindo, conforme as escolas, systemas differentes.
Estes factos, que o seculo XI apresenta ao observador prespicaz, fazem de certo modo, d'esta época, que vamos tratar, o ponto de partida dos desenvolvimentos da architectura tal como se nos apresenta hoje á vista, examinado o extraordinario numero dos edificios antigos que existem na Europa.
Passamos portanto a apresentar,
seculo por seculo, comparativamente,
os typos dos edificios religiosos, civis, e as
fortificações, e indicaremos successivamente os
seus
caracteres
principaes, por modo que possa demonstrar-se claramente
a marcha e o desenvolvimento da architectura e das
artes accessorias durante o periodo indicado.
ARCHITECTURA RELIGIOSA
Descrevendo os caracteres principaes da architectura religiosa do periodo roman secundario, comprehenderemos ao mesmo tempo os seculos XI e XII.
Os ornatos do seculo XI teem mui pouco relevo, e estão executados com bastante rudeza; mas os do seculo XII já apresentam os contornos mais correctos, com ornamentação mais variada, e de acabamento infinitamente mais superior; pode affirmar-se que a architectura roman chegára á maxima perfeição.
Forma das igrejas
Como já dissemos, as igrejas foram imitadas primitivamente das basilicas romanas, porém algumas, logo desde os primeiros tempos, tiveram no risco a fórma da cruz, pelo augmento da parte a que chamamos cruzeiro.
A fórma geral das igrejas um pouco vastas no seculo XI, e nos seguintes, era a da cruz, cujos braços se estendiam de Norte ao Sul, e cuja cabeça estava figurada pelo côro voltado para Leste. A entrada principal era do lado occidental; ás vezes nas paredes lateraes da nave havia frestas. O comprimento da nave comparado com o do côro e capella mór, o maior ou menor desenvolvimento dos cruzeiros, estabeleceu nas fórmas geraes das igrejas mudanças importantissimas. O côro, menos compridó que a nave, apresentava quasi sempre a terça ou quarta parte do comprimento total do edificio.
Figura
Figura 98
Umas vezes as naves lateraes terminavam onde principiava a curva da abside, como se vê na figura 101, pag. 124; outras vezes prolongavam-se em volta do côro como na figura 100. Havia tambem igrejas rectangulares, ou com o fundo do côro recto.
Nos paizes do Norte, as igrejas acabavam a Leste e a Oeste, por absides semicirculares, figura B, como egualmente existem em algumas igrejas antigas, principalmente em S. Lourenço de Grenoble, como indica a planta junta; assim como outras muito mais antigas eram compostas sempre d'uma nave terminando em fórma circular, fig. 98; ou com os lados polygonaes, cercada por naves lateraes ou galerias; havendo a Leste, um altar collocado n'um appendice encostado sobre as paredes circulares. Esta fórma foi imitada pelo imperador Carlos Magno, na celebre igreja de Aix-la-Chapelle, a qual tambem depois imitaram na igreja d'Ottmarsheim, na Allemanha.
Figura
Figura 100: Naves lateraes contornando a abside
Figura
Figura 101: Igreja com duas absides
Dava-se em algumas igrejas a fórma redonda ou octogona, para imitar a do Santo Sepulchro de Jerusalem.
Por baixo do côro de muitas igrejas existiam cryptas ou capellas subterraneas; quando tinham maiores dimensões, as suas abobadas eram sustentadas por dois renques de columnas.
Algumas cryptas prolongam-se por baixo do cruzeiro; desce-se para as cryptas por escadas que saem das naves, ou da nave principal junto da entrada[35] para o côro, ou dos cruzeiros.
Apparelhos das construcções
Encontram-se nos seculos XI e XII os principaes apparelhos em uso na architectura roman primitiva. O pequeno apparelho e o medio vê-se frequentemente applicado.
Quando se serviram de cantaria liza para cobrirem as faces das paredes, assentavam-n'a de lado, com inclinação alternada para a direita e esquerda (opus spiscatum). Os romanos usavam tambem pôr as pedras d'este modo.
Figura
Figura 104
No seculo XI, os apparelhos tinham larga facha de cimento nos intersticios, ao passo que no seculo seguinte, as juntas mostravam menos espessura.
Em alguns apparelhos medios vêem-se diversas figuras profundamente gravadas, parecendo signaes dos canteiros, que teriam por este meio reconhecido as pedras que tivessem preparado para se lhes pagar os salarios.[36]
Contrafortes
Os contrafortes tiveram no seculo XI muito pouca saliencia, comparativamente com a que depois se lhes deu. No seculo XII, apparecem muitas vezes os pilares ornados de columnas mettidas nos angulos com os esbarros revestidos de curvas com imbricados [fig. 106].
| Figura | Figura | Figura |
| Figura 106 | Figura 107 | Figura 108 |
Na Italia, na Allemanha e em
outras nações, os
contrafortes
são mui pouco salientes, e só permittem os de
ressaltos
separados por distancias eguaes uns dos outros [fig. 107 e 108].
Ornamentações
Para abreviarmos as explicações sobre este ponto, daremos os desenhos de algumas molduras ornamentadas, que eram mais vulgares nas construcções religiosas dos seculos XI e XII.
Figura
Figura 109: Zigue-zagues oppostos
Figura
Figura 110: Filêtes desencontrados