O theatro de Orange, em França, é uma ruina digna de ser contemplada, e poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18 pés de altura e 2 pés e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes era de 108 pés com tres ordens de columnas. A fachada exterior era decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O theatro fôra construido com cantaria de extraordinarias dimensões; notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento.
Amphitheatros
De todos os monumentos romanos existentes são os amphitheatros os que offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como indica a etymologia da palavra amphitheatro, dous theatros collocados em frente um do outro, e separados por um espaço livre de forma oval destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes.
A este espaço davam o nome de arena arena, por causa da areia que espalhavam pelo chão, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e dos animaes derramado durante a luta.
Os palanques eram dispostos á roda da arena, de maneira que de todos os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos horisontalmente por cintas curvas ou baltei; e verticalmente pelas escadas em subdivisões cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da arena, alargando-se e elevando-se á medida que se aproximavam do portico ou galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas ás outras, e formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas.
Figura
Figura 61
A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta disposição, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques pelos vomitorios da cavea. Outro corte apresenta parte do amphitheatro de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias, conduziam ao interior da cavea.
Na arena havia combates de gladiadores,[19] de homens e animaes, e só de animaes.
Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em volta da arena; depois punham-n'os aos pares, juntando os de força egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas.
Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam no ataque e na defeza.
O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este genero em França, tinha de comprimento do grande eixo 420 pés de Norte ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande diametro 209 pés, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig. 63].
Figura
Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos
Uma cousa particular, que não existe nos outros amphitheatros, é que as galerias subterraneas giravam por baixo e á roda do podium.
O podium estava a 14 pés acima do solo da arena. A parede do sucalco que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens que saiam da galeria exterior.
O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho, posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos.
O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposição de outro amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinação para a encosta, bastava edificar o podium do lado aberto. Podia-se também facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras disposições para o scenario e então constituíam monumentos mixtos, que foram numerosos durante a dominação romana.
Banhos publicos
Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se conheciam com os nomes de thermæ, lavacra e balnea.
As thermas[20] eram vastos edificios que continham não só os banhos, mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e os rhetoricos davam lições publicas e liam as suas obras; onde se exercitavam na luta: chamavam-lhes gymnasios.
Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito, Caracalla,[21] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda consideraveis vestigios.
Não se deve suppôr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir lavacra ou balnea, de limitada dimensão, á qual estavam ás vezes reunidas algumas dependencias dos gymnasios.
Taes edificios eram mais ou menos espaçosos conforme deviam ser francos ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia.
O apodyterium era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os fatos antes do banho.
O aquarium continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e podia clarificar-se antes de distribuida no edificio.
O vasarium, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria.
O laconicum, estufa aquecida por um hypocausto, tinha ás vezes uma das extremidades em semicirculo, onde havia um disco de bronze, pelo movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a intensidade do calor, ou diminuir a temperatura.
O tepidarium era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a antecedente, e em contacto com ella.
Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava n'uma especie de tina, labra.
O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto chamava-se o propnigeum ou o proefurnium.
A parte destinada ao banho frio era o frigidarium, ou sala não aquecida, onde os banhistas descançavam alguns instantes antes de sairem para a rua, afim de evitarem o perigo da mudança rapida da temperatura.
A piscina natatilis ou frigida lavatio, reservatorio de agua fria em que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de que se fazia uso principalmente no verão.
O eleothesium, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou perfumes[22].
Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender muito bem a disposição geral de taes estabelecimentos, como se vê na gravura da pag. 76 [fig. 66].
Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do hypocausto.
Figura
Figura 66: Vista de uma
pintura a fresco tirada dos banhos de
Tito.
Uma d'estas salas devia ser a concamerata sudatio, ou a estufa abobadada para fazer transpiração.
Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o vapor da agua quente.
Junto do laconicum está a sala do banho, separada por um corredor. Vêem-se muitas pessoas n'uma grande tina labrum, em volta da qual estão assentos encostados á parede.
Mais afastado apparece representado o vasarium, com os tres grandes vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria.
No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, vê-se a sala chamada tepidarium.
Passado o tepidarium, distingue-se a sala fria, frigidarium, que em alguns banhos servia tambem ao apoditerium. Em ultimo plano está o eleothesium, ou sala dos perfumes.
Para se formar idéa exacta d'estes monumentos, convem examinar e comparar entre elles que se têem descoberto em differentes partes; para o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum.
Explicações crestas casas de banhos
Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.
A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente; pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.
Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S.
Figura
Figura 67: Banhos de Verdes
(França), vistos de alto.
Figura
Figura 68: Plano dos banhos de
Landunum (França).
Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML, tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas tinha em S e em R um reservatorio para agua.
Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.
Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.
Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.º 8), tambem com mosaico. Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto; em uma (n.º 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado d c, que serviam para as banheiras.
A sala n.º 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor, porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.
O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.º 4. Antes de atravessar a sala n.º 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento f. f.
As salas E, e os n.º 9, 10, 11 eram casas para depositos do estabelecimento.
Palacios
Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios encarregados da administração do paiz.
Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão, pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao forum, junto do qual havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem thermas.
Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia), cujas columnas e paredes estão ainda de pé, comprehendendo grandes divisões: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos imperiaes.
Casas particulares
Daremos algumas explicações a respeito das construcções particulares.
Chamavam prothyrum, nas casas das cidades, á passagem por onde se entrava no interior d'ellas.
Era n'esta passagem o quarto do porteiro cella ostiarii, e ás vezes a parte que servia de vestibulo, com habitação de mediana extensão.
O atrium era a galeria quadrada (3)[23] tendo ao centro um pateo descoberto (impluvium), no meio do qual havia um tanque á superficie do chão (compluvium) para receber as aguas da chuva (D).
O atrium era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de atrium.
O atrium toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.
Existia a mesma disposição no atrium tetrastylo; apenas quatro pilares ou columnas, collocadas nos angulos do impluvium, sustentavam as vigas do tecto nos pontos de juncção.
No atrium corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais numerosas, e o impluvium era também mais espaçôso. Construiram o atrium só para as grandes habitações.
O atrium displuviatum tinha os telhados inclinados em sentido inverso dos precedentes, de modo que lançavam as aguas da chuva para fora da casa, em logar de as conduzir para o impluvium.
Finalmente, no atrium testudinatum, o pateo central era coberto de telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.
Figura
Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.
Nos predios importantes, como é representado no plano junto, havia em roda da galeria do atrium aposentos destinados a diversos usos, com saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de tribuna ou sala de festim (C, C, C).
Na extremidade do atrium, e em frente do prothyrum, estavam o tablinum (4) e duas casas mais pequenas, chamadas azas, communicando com elle (5-6).
O tablinum e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario, assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.
O peristylo apresentava, além do tablinum, uma galeria ornada de columnas, como a do atrium corinthio (17-17), cuja extensão porém era mais consideravel.
Os aposentos eram distribuidos á roda d'estas galerias (18-19); um espaço quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flôres e arbustos no centro, devia parecer a imitação da parte central de alguns claustros.
Os œci correspondiam aos nossos salões.
A exedra era outra grande sala para conversação, tendo n'um dos lados a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.
Encontravam-se tambem, ás vezes, nas habitações das pessoas abastadas, jogos de péla, sphæristerium, e salas destinadas para outros jogos.
O banho era composto em geral de apodyterium, frigidarium, tepidarium, sudatorium e eleothesium:
A basilica;
A pinacothéca ou galeria para quadros;
As cosinhas e as officinas dependentes para o fabrico do pão;
As cavalhariças, cocheiras e armazens;
Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para dormir e para acommodar os creados.[24]
Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a anterior, na qual não encontrâmos nem as commodidades nem a regularidade das grandes habitações particulares; mas veremos que as residencias se modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses pecuniarias. Examinemos a disposição de uma das casas descobertas nas minas de Pompeia.
A entrada ou prothyrum n.º l, conduz ao atrium n.º 2, chamado displuviatum, isto é que servia para o despejo das aguas da chuva para fora da habitação. Tinha na grossura da parede o impluvium n.º 3 e 4, e os alegretes para as flôres.
Figura
Figura 70
Uma escada de madeira n.º 5, conduzia ao aposento que occupava o dono da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente destruida, era facil observar o feitio do corrimão, porque o artista a riscara na parede que lhe servia de caixa.
Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto n.º 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.º 9 collocada ao lado do corredor.
Casa de campo (villæ)
Suppõe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham só um andar; tambem não se differençavam essencialmente das da cidade, e continham pouco mais ou menos as mesmas divisões, mais arbitrarias, conforme exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da exploração rural e outras circumstancias da edificação.
Columella,[25] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se de trabalhos ruraes, e o maior numero das villæ gallo-romanas e luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:
A villa urbana, ou habitação do proprietario;
A agraria, ou habitação dos lavradores, e dos animaes necessarios para a lavoura;
A villa fructuaria, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos das terras.
As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas agrariæ, ou fructuariæ, apresentavam menos interesse com relação á arte, que a villa urbana. Eram pertenças do casal ou dos trabalhos ruraes, villa agraria.
No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um tanque ou lagôa compluvium, para se banhar o gado. Á roda do pateo estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria (bubilia), o curral das ovelhas (ovilia), as cavallariças (equilia.) Achava-se tambem ali o gallinheiro (gallinaria) e o chiqueiro para os porcos (haræ).
Pode-se citar como pertenças da villa fructuaria, que estava ora separada ora junta da agraria, a adega (cellæ) o palheiro (horrea), a casa da fructa (apothecæ), etc.
Tem-se encontrado numerosos vestigios das villæ ou casas de campo fabricadas durante a dominação romana. Em 1874 descobrimos em Portugal uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1m, 59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achámol-o de cinco côres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que fundáramos em Lisboa em 1866. Não tem acontecido outrotanto com essas casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram enterrados.
Para darmos idéa mais completa, descreveremos a villa de Bignor em Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[26]
Compõe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de muros bastante grossos, não formava angulo recto com os do segundo pateo. O muro de leste tinha 277 pés de comprimento, o do norte 385 pés, e o do sul 322.
Este pateo, que representava a villa rustica, comprehendia muitas e amplas construcções, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de pavimentos de mosaicos.
O outro pateo (B), que formava propriamente a villa urbana, estava cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.
Um corredor ou crypto-portico (1, 2, 3, 4), que era construido á roda do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o comprimento do corredor era de 160 pés, de leste a oeste.
Figura
Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.
Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.
Ao longo do crypto-portico septentrional estavam dispostos os aposentos (n.º 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).
No n.º 14 via-se um mosaico de 8 pés de quadrado dividido em formas de rhomboides e triangulos.
O n.º 15, era uma das melhores casas da villa, tinha 19 pés por 30, com uma grande camara de 12 pés, o que lhe dava 32 pés por todo o comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.
No meio do aposento, e ao centro da maior composição circular de mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 pés de diametro, no fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.
Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.
O n.º 19 era um atriolum, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral ornados de pinturas, e com o chão de mosaicos.
No n.º 22 encontrou-se um fogão de 31 pollegadas de boca, e 17 pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogão formavam-lhe as paredes lateraes. Outro fogão similhante foi achado no quarto n.º 23.
Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul até o n.º 35. Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.
Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio (n.º 40), que tinha 35 pés por 30. O chão estava menos mal conservado e compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os sentidos, dispostas em xadrez.
O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era um reservatorio com aproximadamente 18 pés de leste ao oeste, de 3 pés e 2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de leste, do oeste e do norte.
A bella sala (n.º 41), situada a leste da precedente, apresentava um quadrado de 35 pés, porém era um tanto irregular por causa da direcção diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado que os restantes.
A maior parte destas villæ teria sido construida nos tres primeiros seculos da era christã, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.
Monumentos funereos
Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de confortos da civilisação romana, a ordem natural nos conduz aos monumentos que encerravam os despojos mortaes.
Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christã.[27]
A fogueira funebre (rogus ou pyra) era formada de lenha de facil combustão e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.
Quando a fogueira estava extincta, lançavam vinho nas cinzas do defuncto, e então estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de liquidos ou algum manjar offerecido aos deuses manes.
As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios são em geral do feitio simples, e muitas apresentam côr cinzenta; comtudo, notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem filetes, entre os quaes se traçaram riscos parallelos. Algumas tem estrias ao alto, outras molduras entrelaçadas, em zig-zags, etc. etc. As formas mais geraes são as das gravuras seguintes a, b, que se encontram nos antigos cemiterios.
Figura
Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.
As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas de barro, porém o mais é apresentarem a configuração de um grande frasco com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico, ora quadrado.
As urnas mais notaveis são de cobre batido e lavrado, e tambem estas difficilmente se encontram.
Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano, no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara descoberta feita em Portugal causou bastante admiração entre os archeologos estrangeiros.
O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um pedaço de tijolo, ou ardozia, e até com um bocado de lagea.
Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taças de differentes generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido, especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero é de barro encarnado, e suppõe-se terem servido para conservar o vinho, o leite, ou algum licor offertado aos manes do finado.
Figura
Figura 74
A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de resguardo; porém muitas tiveram esses cofres para a conservação. Se a madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram ás vezes em roda das urnas. É possivel que as urnas de vidro ou crystal, que pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios cemiterios, eram compostos de duas peças e bastante espaçosas para conterem a urna cineraria, e os vasos accessorios de que já fallámos. Finalmente, construiam ás vezes, no proprio local, e no momento do enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna cineraria.
Em quanto ás cinzas do finado de humilde condição e pobre eram mettidas em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa alguma que as indicasse; as que pertenciam á classe media da sociedade tinham por cima da urna um cippo, e os mais opulentos apresentavam um monumento ainda mais importante.[28]
Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas vias que davam entrada nas cidades.
As pedras sepulchraes, ou estélas,[29] tomavam differentes feitios e algumas apresentavam inscripções e a effigie do finado. [fig. 75]
Figura
Figura 75: Estéla.
Não se deve cessar de recommendar as explorações dos cemiterios romanos. Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos, onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes excavações.
Algumas sepulturas, destinados á classe inferior, são tambem monumentos importantes como se vê na presente gravura.
O monumento pyramidal de S. Ramiro, é um edificio composto de tres ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 pés de altura. O primeiro andar é quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.
O segundo andar é egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com estrias; o friso é ornado de arabescos em que se distinguem cavallos marinhos alados, sereias, etc.
O terceiro de fórma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno templo circular monoptero: debaixo d'esta especie de cupula estão collocadas duas estatuas em pé, uma de homem, outra de mulher.
Não pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral; pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste, vê-se a seguinte inscripcão:
SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS
que se tem lido d'este modo:
Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis. As duas estatuas representariam pois o pae e a mãe de Julius, os quaes erigiram a pyramide.
Figura
Figura 77: Sarcophago do museu de Ruão.
Enterramentos.—Os corpos que não eram queimados, enterravam-n'os em sarcophago de pedra ou em caixões de chumbo, resguardados em outro cofre de madeira, ou de pedra, como se vê na gravura da pag. 93 [fig. 77].
Em numerosos sarcophagos dos pagãos está representada a ascia,[30] e o nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripção na tampa, porém esta vê-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da pag. 94 [fig. 78].
As inscripções eram mui interessantes por quanto expressavam o maior sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos modernos a este respeito: e é facil comproval-o. Eis um epitaphio que patenteia o profundo affecto de uma infeliz mãe chorando a perda da filha querida:
Ó dôr! quão amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta sepultura em que jaz Lucinia... Lucinia, suave alegria de tua mãe. Sim! aqui está sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o espirito de novo se animasse porque ella conheceria quão dolorosa é a minha afflicão. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca, mãe infeliz, lhe mandou erigir este monumento.
Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia, e a cujo sentido se dá muitas vezes a interpretação da philosophia christã. Taes são as duas inscripções seguintes:
D.
M.
FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS;
NEMO IMMORTALIS
Fui, não sou; sois, não sereis; ninguem é immortal.
Por outra vemos que entre os romanos, como entre nós, os herdeiros eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que não se lhes perdia a memoria.
D. M.
LVCIVS
GRATIVS EVTICHES
DOMVM
AETERNAM
VIVVS
SIBI CVRAVIT
NE
HAEREDEM ROGARET
TAVTA
Lucio
Grado Eutichis erigiu,
ainda vivo, esta morada eterna, para
não pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este
serviço.
Ao findar a dominação romana, quando o christianismo estava solidamente estabelecido na Gallia, a incineração dos mortos já não se praticava.[31]
Os sarcophagos christãos em marmores são faceis de distinguir dos sarcophagos pagãos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas biblicas que os ornam.
Objectos de barro
Os objectos de barro são, na maior parte, fragmentos que se encontram nas localidades habitadas no tempo da dominação romana.
As peças mais notaveis pela fórma delicada e pela conservação, são de barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram importancia sob o dominio romano. É raro, sem duvida, acharem-se vasos inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a forma e as dimensões dos objectos a que pertenciam.
Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taças com pé, compoteiras, pequenas taças, travessas redondas de diferentes tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.
Pode suppôr-se que a boa louça encarnada servia principalmente para o serviço da mesa, e para o de toucador.
Figura
Figura 79
Figura
Figura 80
A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre, o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de estampilha ou sinete.
Estes nomes estão umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos das lettras o ou of, para designar officina, assim: of Severi; Bassi; of o, Croci, Crassi o; o que quer dizer que os vasos sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de Crasso, etc, etc.
Figura
Figura 81
A palavra manu, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como nas inscripções de: Priscilli manu, Silvani m, significa da mão de Priscillio, de Silvanos, etc.
Alguns d'estes vasos eram inteiriços, não podendo sair do molde senão depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do concavo do molde.
A maior parte porém era tirada de duas ou mais peças, porque seria impossivel formar um molde de uma só peça para os vasos bojudos.
Se os fabricantes de louça de barro imprimiam os seus nomes no fundo d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus nomes nos moldes, entre as figuras.
Barro preto.—As peças de barro preto são mais raras que as encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.
Tem-se encontrado cobertas com bom verniz côr de ébano, e mostrando argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora esbranquiçada, ou avermelhada.
Objectos de barro bronzeado.—Apparecem tambem em muitas localidades pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado de quartzo cobertos de verniz de furta-côres, suavemente applicado.
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Figura 82
Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiçados, etc.—São mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes côres foi empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios destinados para varios usos, botijas, etc.
Nos vasos destinados para os liquidos, como são as nossas garrafas, encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiçado, formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas até o presente.
Os vasos, como os que se vêem em seguida, ora de barro encarnado, ora cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de que ainda se faz uso.
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Figura 84
Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham também telhas e vestigios de habitações romanas.
Figurinhas de barro
As estatuetas de barro cozido de côr alvacenta acompanham, muitas vezes, os fragmentos que assignalam o logar occupado pelas construcções gallo-romanas, e ainda constituem objectos pertencentes á arte de oleiro.
Encontra-se sobre tudo, frequentemente entre ellas, a figura de Venus Anadyomena,[32] e taes estatuetas são tão similhantes, que parece terem saido do mesmo molde; estão completamente nuas, com a cabeça coberta de abundantes cabellos, a mão direita apanhando-os, e a esquerda tomando a roupagem.
As outras figurinhas que se encontram mais vezes junto das Venus, representam uma mulher amamentando uma ou duas creanças, sentada n'uma cadeira de braços feita de vime encanastrado. Alguns archeologos suppôem ser esta a imagem de Latona,[33] outros a de Lucina:[34] porém, julga-se que estas figuras serviam para ex-voto, tanto das mulheres que desejavam obter feliz parto, como d'aquellas que mostravam a sua gratidão pelo terem alcançado, ou em fim das mães que creavam os filhos, e que o offereciam á deusa invocada por ellas n'esta circumstancia.
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Figura 85
A imagem de Mercurio encontra-se em grande numero entre as estatuetas de barro cozido.
Mas nem todas as figurinhas antigas que se encontram eram destinadas para reproduzir a imagem das divindades. Eram vazadas nas formas como se faz presentemente um grande numero de objectos profanos, caricaturas, brinquedos para creanças, etc.
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Figura 86
Entre estes ultimos, podem citar-se as figuras de aves, animaes diversos, carneiro, javali, etc., e também chocalhos como os achados em tantas localidades diversas, e que se compôem d'um pequeno globo de barro cozido tendo dentro seixosinhos que produzem o effeito de um cascavel.