As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os theatros, etc.
Argamassa e cimento.—As argamassas dos romanos compunham-se de cal viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular.
Ordens.—chama-se Ordem a combinação de diversas partes salientes dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes.
Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são pedestal—columna—e um entablamento. Cada membro divide-se em tres partes d'este modo:
| Primeiro membro ou pedestal | Base Soco Cornija |
| Segundo membro ou columna | Base Fuste Capitel |
| Terceiro membro ou entablamento | Architrave Friso Cornija |
Os romanos empregavam cinco ordens:
A Toscana.
A Dorica.
A Jonica.
A Corinthia.
A Composita.
A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.
A Toscana e a Composita nasceram na Italia.
É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a denominação ordens gregas, e as duas outras sob a de ordem latina.
Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes.
Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões:
| A altura da columna vem a ser para a ordem: | Toscana, de 7
vezes. Dorica, de 8 idem. Jonica, de 9 idem. Corinthia, de 10 idem. Composita, de 10 idem. |
Do diametro inferior, isto é a grossura tomada no fuste junto da base. |
Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos differem tambem nas quatro primeiras ordens.
Em geral, o pedestal tem o terço da altura da columna, e o entablamento a quarta parte, conforme o auctor citado.
O modulo é medida
convencional que serve de escala para
desenhar as
ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da
columna, o
qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18
partes para as duas ultimas.
| Toscana | A menos elevada e a mais
simples das cinco Toscana ordens. Cornija sem modilhões, nem denticulos. |
| Dorica | Modilhões,
denticulos ou mutulos na cornija, triglyphos
no friso, gottas na architrave. Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém um pouco mais ornado, caneluras ou estrias no fuste. |
| Jonica | Capitel com volutas,
cornija
ornada de Jonica denticulos. Architrave dividida em três platebandas ou faixas. |
Figura
Figura 30: Fachada d'um templo Dorico
| Figura | Figura | Figura |
| Figura 31: Dorico | Figura 32: Jonico | Figura 33: Corinthio |
| Corinthia | Capitel ornado de dois renques de folhas de acantho e dezeseis volutas.—Dois renques de denticulos e um de modilhões na cornija.—Architrave dividida em tres platebandas ou faixas por baguetas ornadas de molduras. |
| Composita | Capitel imitando o das Ordens Corinthia e Jonica.—Cornija com denticulos.—Duas platebandas ou faixas na architrave. |
Figura
Figura 34: Portico da Ordem Toscana
As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios; substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As pilastras tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste, como acontece ás columnas.
Eis a disposição de um portico da ordem Toscana: quando se collocam muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de sobrepôr a segunda á primeira.
Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas cinco ordens classificadas e regularisadas pelos insignes architectos italianos do Renascimento das artes. Ficaremos muito surprehendidos quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na rigorosa similhança, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola, Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos, capiteis, bases, columnas, etc.
Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos, produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo são conservadas com acerto e habilmente executadas.
Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano, engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição, enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.
Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.
Os mosaicos[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento misturado com tijolo moido.
Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de animaes e outras scenas.
A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis combinações de linhas geometricas, pertencente a uma villa rustica romana.
Hypocaustos.—Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.
Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de argamassa.
Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.
Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que apresentavam o cimo menos largo que a base.
O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os aposentos.
O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.
Embutidos e ornamentos.—O marmore foi frequentemente empregado para a decoração das paredes.
Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.
Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os ophitos, etc., etc.
O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação. A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.
Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas paredes.
A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma especie de colla que lhe ajuntavam.
As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações que se encontravam em muitas salas de banhos.
Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na villa rustica romana, descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo modo, e outra de argila cozida.
Telhas e telhados.—Os telhados das casas romanas eram formados de telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas da chuva.
Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares onde existiram construcções romanas.
Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das regiões antigamente occupadas pelos romanos.
Pontes
As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas citar poucas das compostas na época romana.
Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos, empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com argamassa (empleton) revestido de pequenas pedras symetricas (opus incertum).
Figura
Figura 38: A ponte de S.
Chamas, e as suas duas portas monumentaes
Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.
Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos não soffreram depois nenhuma alteração.
Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das pontes. Na idade media foram imitadas.
As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.
Pontes de madeira.—Tratámos das pontes de pedra, porque só estas poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de madeira.
Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê figurado na columna de Trajano em Roma.
Muralhas e caes.—Os caes ou as grandes muralhas de supporte, construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando estas existiam nas cidades.
Aqueductos
Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.
Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.
Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados. Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.
Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.
Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente no seu 8.º livro de architectura.
Figura
Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto
Figura
Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas
Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.
Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou arcarias.
Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório commum, ou castello de agua, castellum, como se vê um em Évora, do tempo de Sertorio.
A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema empregado pelos engenheiros romanos.
Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.
Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90 arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da pagina anterior a sua construcção.
O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto das casas de campo de limitada apparencia.
Cloacas
As cloacas constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.
Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o qual os outros communicavam era chamado cloaca maxima. Tinha abobadas elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se passava em barcos[13].
Praças publicas
O forum era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios publicos. Estava em certas partes rodeado de porticos, edificios e lojas.
Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos, etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do forum, por detraz da scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se ali.
A forma das praças, ou fora, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.
Basilicas
A palavra basilica, significa casa real: designava em Roma um edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por isso a distinguiam do forum, onde as sessões eram celebradas ao ar livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.
Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.
Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo, dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados; julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a praça publica.
Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam, porque desappareceram completamente os vestigios.
Arcos de triumpho e portas monumentaes
Os arcos de triumpho, porticos levantados á entrada das cidades, no logar da passagem publica, perto dos forums, diante dos templos, e na cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria, de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.
Figura
Figura 43: Arco de triumpho
Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho. Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.
Era o contrario do que succedia nas portas da cidade, as quaes não obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia, todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a ornamentação.
Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura apresenta, copiada da de Santo André de Autun, em França.
Templos
Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os templos receberam differentes denominações, conforme a disposição das columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:
Os templos com pilastras—Os prostylos, fig. 45.—Os amphiprostylos, fig. 46.—Os peripteros, fig. 47.—O monoptero, fig. 48.—Os pseudo-peripterios, fig. 49.—Os hypetheros, fig. 50.—Os monopteros.
| Figura | Figura | Figura |
| Figura 47: Periptero quadrado | Figura 48: Periptero redondo | Figura 45: Prostylos |
| Figura | Figura | Figura |
| Figura 49: Pseudo-Periptero | Figura 50: Hypethreos | Figura 46: Amphiprostylos |
Os templos prostylos apresentavam quatro columnas na face exterior, e não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.
Nos templos peripteros, as columnas rodeavam completamente o edificio; sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.
Nos templos pseudo-peripteros differençavam-se dos antecedentes em que as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo, em logar de ficarem separadas.
Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes ornavam a fachada.
Finalmente, o templo monoptero apresentava simplesmente a cupula sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não era fechado.
Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada era designada sob o nome de cella ou nau. Ahi collocavam a estatua da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.
Na frente da cella, e por detraz das columnas da fachada, estava o pronaus ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade opposta do templo dava-se-lhe o nome de posticum. Algumas vezes reservavam, na parte posterior da cella, um quarto A destinado a guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de opisthodomos.
As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a denominação de tetrastylos (4 columnas), hexastylos (6 columnas), octostylos (8 columnas), ou decastylos (10 columnas).
Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca peribobos ou antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual estavam os aposentos dos sacerdotes.
A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se no fundo da cella, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados para o oriente.
Figura
Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes
Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.
O templo pseudo-periptero hexastylo ha em Nimes (França), da ordem corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura mostra as suas bellas proporções e belleza.
As dimensões e a disposição do templo de Diana, em Evora, apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas ruinas, como se vê na presente gravura.
Figura
Figura 52: Templo de Diana, em Evora
Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag. 60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da cella e dentro o pedestal para a divindade.
Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada monoptero, compunha-se sómente de recinto formado por columnas collocadas em pedestal commum, stylobato; o segundo periptero, apresentava uma cella á roda da qual havia columnas, pousada egualmente sobre um stylobato, com degraus para ganhar a altura do pedestal, e dar entrada para o templo.
Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços encarnados, para dar mais relevo aos contornos.
Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.
Altares.—Já dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas das divindades; agora nos occuparemos da forma dos altares.
Havia entre elles differença de forma e de materia, proporções e usos.
A maior parte dos que se conservaram até hoje mostra a construcção de marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e ás vezes triangulares.
Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as cabeças das victimas, taças, e outros vasos e instrumentos para os sacrifícios, entrelaçados de grinaldas de flores e folhas[14]. Liam-se em alguns altares inscripções indicando a data da consagração, o nome do fundador, e as razões da devoção. Os mais bellos e custosos tinham ornamentações em baixo-relevo representando a divindade que se queria venerar e os seus attributos.
Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade para receber as libações ou o sangue das victimas.
Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos, para memoria.
Edificios destinados aos jogos publicos
Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos publicos: o circo, o theatro, e o amphitheatro. Muitas vezes teem confundido os três sob a mesma denominação, de circos; porém a forma, as dimensões, e o destino estabelecem entre elles diferenças notaveis.
Os circos eram mais bem considerados que os amphitheatros e os theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas com terraço. Lojas e passagens cobertas conduziam ao interior do circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. Seis torres quadradas, quatro d'estas nos pontos de juncção dos grandes e pequenos lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraços; as quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos.
A entrada para os carros destinados ás corridas era pela extremidade convexa do circo; doze arcadas, não comprehendida a que se achava debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras, carceres, onde os cavallos eram guardados antes do começo das corridas.
É fácil comprehender a disposição dos assentos postos no interior de um circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos carceres, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de columnas correspondentes ás paredes que separavam as arcadas exteriores da segunda ordem, e por meio das quaes podiam circular os espectadores.
Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi, superior á entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras, que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que presidia aos jogos.
Figura
Figura 56: Tribuna de um circo
Entre os assentos dos espectadores e o espaço destinado para os jogos (area), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 pés, cheio de agua (euripus), resguardado por engradamento do lado da area. Porém os circos não eram rodeados de tal fosso: ainda não se encontrou nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes, assim como em outros explorados depois.
O euripus não se abria nunca do lado dos carceres, para não interromper a entrada para o circo.
No centro da area dos circos levantavam uma parede de 4 pés de altura e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto. A esta construcção, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome de spina. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a spina um obelisco dedicado ao Sol.
Havia também sobre a spina dos circos pequenos templos, altares, estatuas e sete bolas, ova, sustentadas em eixos, que serviam para indicar o numero de voltas executadas pelos carros, ova ad metas curriculis numerandis, e sete delphins postos em pedestaes, ou em architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos em veneração de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da spina, havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto de limite. Era junto d'estes marcos (metœ) que os carros deviam voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre á esquerda a spina e os marcos.
Os conductores de carros (aurigæ) traziam um vestuario como especie de librés de côres differentes e formavam partidos ou facções. Primeiramente houve quatro librés: a branca, alba; a encarnada, russea; a azul, veneta, e a verde, prasina. O imperador Domiciano juntou a estas mais duas: a purpura, purpurala; e dourada, aurata.
Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que alcançasse triumpho outra facção, ou côr. Tempos depois, as côres usadas nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras facções politicas, a que pertenciam milhares de cidadãos.[15]
Naumachia.—Suppõem-se que os circos serviam ás vezes de naumachia. A naumachia era para a simulação de combates navaes, que se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construcções análogas ás dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformação da area dos circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes.
Theatros
Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros edificados no reinado de Adriano e Antonio, o Piedoso; esses monumentos eram encostados ás collinas sobre o declive das quaes se dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chamâmos platéa nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim como a scena.
Esta ultima disposição do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o proscenium, ou pulpitum, o palco em que representavam os dramas; a scena, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de architectura, e o post cenium, onde os actores se preparavam para entrar em scena.
A scena apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e ornada que as outras, chamava-se porta real; entrava por ali o personagem principal da peça, que representasse o dono do palacio; as figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam hospitalia, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do dono do palacio.
A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (versuræ,) onde havia outras duas portas, uma á direita e outra á esquerda, as quaes faziam suppôr darem saida para o campo e para a praça publica. A configuração de um theatro apresentava pois de um lado a forma semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divisões que, pela rasão de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de cunei.
Havia, além d'isso, na elevação do amphitheatro (cavea) que cercava a orchestra, duas ou tres divisões principaes, indicadas por separações chamadas præcinctions e ficavam parallelas ás filas dos assentos.[16] Estas divisões tinham o nome de cavea prima, cavea media, cavea maxima ou ultima, conforme estivessem mais ou menos proximas da orchestra.[17]
Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a subir da orchestra ou a descer da summa, summa cavea. Estas aberturas chamavam-se vomitorios (vomitoria,) porque parecia que lançavam fóra os espectadores, quando estes entravam em multidão para os seus logares.
Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena comica e a scena satyrica.
As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peças que se representavam.
As mudanças da decoração praticavam-se por varios systemas. Chamava-se aos bastidores ductiles, quando giravam em corrediças; versatiles, quando se viravam sobre pião.
Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos actores.
Como os theatros não eram cobertos, estendia-se acima das paredes um grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este velarium[18] estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes. Vitruvio recommenda que não exponham os theatros do lado do sul, para evitar que os raios do sol aqueçam demasiadamente o ar.