Habitações lacustres

Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades lacustres.

Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich, socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos, nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria. Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação.

Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa; contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc., etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que muitas pareçam ser do tempo da idade de ferro, e do periodo romano, todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze.

Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem collecções completas dos objectos chamados lacustraes, por causa de terem sido conservados por séculos debaixo das aguas.

Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com as margens.

Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas, porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos vestigios do cavallo e da cabra.


Cavernas

As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades, deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados, e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas de animaes giganteos, que já hoje não se encontram.

Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á formação do terreno quaternario, considerado até então como anterior ao apparecimento do homem.

O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon, proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os seus despojos e gosar da sua civilisação.

Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques existiam o mammoutho rhinoceronte, animaes que podiam resistir á baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região. Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes. Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com os tumulos, dos quaes já tratamos:

Os peulvans ou pedras cravadas na terra;

Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os alinhamentos;

Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade.
 

Pedras erguidas

Fig. 8

Figura 8: Pedras Erguidas
 

As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de MenhirsPeulvansPedras cravadas, etc., são pedras toscas de forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com vários pedregulhos erraticos, ou que se encontram em posição vertical e podem estar assim naturalmente collocados.

Fig. 9

Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven

Alinhamentos.—Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero, conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou do Norte a Sul.

Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente, terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em França, são os de Karnac, de Ardeven, e de Penmarch. Compõem-se de mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

Os alinhamentos de Ardeven estão dispostos regularmente em filas parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3 kilometros de extensão.


Circulos

Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem sido designados pelo nome de cromlecks.[3]

Fig. 10

Figura 10: Circulo de pedras

Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta.

Fig. 11

Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.

O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura, collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente por larga trincheira de terra.

Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada um de dois renques concentricos de peulvans, do qual um tinha 30 pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o diâmetro de 186 pés.

O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos tumulos; é composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.


Fig. 12
Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury

O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés, collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo uma especie de balustrada tosca.

O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior: apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos.

O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por trilithos[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22 pés de altura.

Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de 20 peulvans com a altura de quasi 6 pés.


Figura
Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge

Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na terra, e que se suppõe serviria de altar.

As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das cavidades.

Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior.

A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de cromlecks, quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6]

Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc.

Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na Escossia.

Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos. Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de um ente colossal chamado Gargantua; que a tradicção os tem indicado como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro mundo, e dos espiritos que as acompanham!


Recintos formados com terra

Estes recintos consistem em um vallum de terra, ás vezes misturada de seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não houvesse tumulos encerrados no vallum, ou levantados proximo d'elles, o que faz suppôr que serão contemporaneos.


Architectura dos tempos prehistoricos

Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções empregariam a madeira e o barro.

As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes enlaçados.

No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em Hespanha e Portugal.

De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem ás paredes altura consideravel.

Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e janella.

Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos possuidores.

Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem egualmente de fortalezas para a propria defensa.


Utensilios e instrumentos diversos

Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam, que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100.

Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o maximum de densidade resultante d'estes dois metaes.

Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das duas peças do molde em que o instrumento foi vasado.

Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes dimensões, mas por ter dois olhaes, o que o torna raro no seu genero.

Figura

Figura 14a

Figura

Figura 14b

Figura

Figura 14c


Figura
Figura 14d
 

Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava de espiga n'uma cavidade central ab; n'outros, dar-se-lhe-hia a forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar preparado c; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie de calha d, apropriada para conservar a parte encavada.


Moldes para machados

Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são empregados na fundição das colheres de estanho.

Figura

Figura 15: Molde aberto

Figura

Figura 16: Molde fechado

É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos egualmente como os machados.

O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas partes da França, principalmente na Normandia.

Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada macho que está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda praticada na virola da outra peça.

Espadas de bronze.—As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo (punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto de pollegada.

No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para segurar a guarnição.

As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos machados.


Figura
Figura 17

Punhaes de bronze.—Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14 pollegadas, e a largura da folha de 2 a 2½ pollegadas na base.

Pontas de lança.—Juntamente com as armas que descrevemos, encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a parte inferior da hastea.

Rodeias ou collares (torques).—Affirmam alguns historiadores que os gaulezes traziam collares ou torques, como tambem braceletes e argolas nos braços.


Figura
Figura 18

O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos; talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

Deve-se distinguir entre os torques; em primeiro logar, os que são formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se encontraram dentro de alguns tumulos; e depois as cadeias, cujos elos são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os torques, compostos de uma unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com lavores. Em muitos torques as duas extremidades da peça metalica não estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir, independentemente do fecho; outros torques não apresentam nenhuma d'estas formas.

Figura

Figura 19

Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas d'estas peças, festões e molduras.


Figura
Figura 20

 

O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo; provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns chato, em outros levemente concavo.


Figura
Figura 21

Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de gargantilha formada de uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas localidades.

Figura

Figura 22: Collar de ouro descoberto em França

As moedas chamadas celticas são provavelmente em parte contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.

Objectos de barro

São tanto mais difficeis de se distinguirem os objectos de barro celticos, com excepção dos que se tem encontrado nos tumulos, quanto em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

Figura

Figura 23

Os objectos de barro descobertos nos tumulos, são formados de terra preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento; porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação.


Figura
Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros paizes

Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos, conforme vai indicado na gravura junta.

Os que foram encontrados nas cidades lacustras, mostram inteira similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada, por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro. Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos, dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte, excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto á borda do orificio.

Figura

Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos

Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal idéa do estado da industria.

Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.


MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS

Nomes especificos Caracteres
Túmulos conicos Outeirinhos artificiaes de forma, e de dimensões differentes, compostos de pedra e de terra, com dolmens no centro.
ovaes 
Pedras erguidas De forma esguia. Firmadas verticalmente na terra como se fossem marcos.
assentes De forma indeterminada. Simplesmente collocadas sobre o solo sem estarem cravadas no chão.
Trilithos Duas pedras verticaes sustendo outra horisontalmente.
Dolmens simples Uma mesa de pedra collocada sobre pedras postas de cutello, em numero de 3, 4 ou 6.
compostos Grande mesa de pedra composta de muitos pedaços, sendo, pelo menos, 6 o numero dos pontos de apoio.
Nota. Os mais collossaes d'estes dolmens formam galeria ficando abertos n'uma das extremidades; costumam ser designados de avenidas cobertas.
Alinhamentos simples Um ou dois renques de pedras em linha recta.
compostos Quatro, cinco e algumas vezes até onze ou doze renques de pedras formando avenidas parallelas.
Pedras postas em grupo Accumulação de pedras, sem ordem, mais ou menos consideravel.
Circulos formados com pedras simples Composto d'um só renque de pedras cravadas ou assentes.
compostos Formados de muitos renques de pedras.
Recintos cercados de terra, ou de pedras De diversas formas.
Logares de Habitações Vestigios de casas Logar de cabanas redondas, ovaes, algumas vezes rectangulares, indicadas por alicerces de pedra tosca sem argamassa ou tão sómente pelo abaixamento do solo.
Subterraneas Galerias e casas cortadas na rocha.
Excavações diversas.
Instrumentos Diversos Em pedra Punhaes e facas Um pedaço de silex cortado de maneira a apresentar uma folha aguda, com dois gumes, e armado d'um cabo.
Folha de silex sem cabo.
Pontas para frechas Pequenos dardos, dos quaes o comprimento varia desde meia pollegada até duas
para rojões Dardos quasi similhantes aos precedentes, porem mais sobre o comprido.
Martellos Peça quer redonda dos dois lados, quer d'um lado sómente.
Pedras para fundas Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas de diametro.
Machados Convexos para o centro, cortados em aresta viva nos bordos, acabando de um lado em ponta romba, e de outro em gume, o qual descreve uma porção de ellipse.
Em bronze Machados De formas diversas similhando-se mais ou menos a uma cunha.
Fôrmas para machados São duas peças symetricas, que depois de reunidas a parte ôcca mostra o feitio do machado.
Espadas Folhas direitas, chatas, de dois gumes, acabando em ponta.
Punhaes Quasi similhante ás espadas na forma, porém com menor comprimento.
Cabeças de rojões De forma lanceolada tendo um engrossamento no meio.
Torques compostas de peças Correntes metallicas.—Perolas de pedra de côr-alambre, formando rosario.
de uma só peça Argolas metallicas mais ou menos grossas muitas vezes com lavrados.—Chapas do feitio de meia lua.
Ornamentos diversos Em bronze e em ouro, com lavrados.
Louça de barro Muito fragil, mal cozida, composta de terra preta mal preparada e cheia de pequeninos seixos.
Moedas Em ouro, em prata e em bronze.

 
CAPITULO II

Era gallo-romana


Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos Commentarios d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação.

Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas, os Celtas e os Aquitanios.

O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões.

Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14 povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica. Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da Europa.


Vias de communicação

Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana, descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou vestigios.

As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas, ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies, afim de evitar os terrenos pantanosos.

Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra, havia os caminhos vicinaes, viae vicinales, que conduziam ás aldeias, e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda, compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o que chamavam statumen. Em algumas vias, as pedras do statumen eram postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos das paredes construidas em espinha de peixe.

A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma estrada.

Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados. Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes, ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

Columnas itinerarias.—Os caminhos romanos eram divididos por marcos situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações.

As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o territorio.

Os marcos milliares tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma cylindrica; chamavam-se milliares, milliaria, ou simplesmente lapidas.

D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, ad primumsecundumtertium lapidem, a primeira, a segunda e a terceira pedra, ou só ad primumsecundumtertium, etc. ficando subentendido lapidem ou milliarium.

A segunda camada, chamada ruderatio, era formada de pedras britadas de dimensão menor que as anteriores.

A terceira camada, nucleus, compunha-se, ora de cal misturada com fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.


Figura
Figura 26: Columna milliar que existe em França

Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente em leito de areia grossa, glarea, formavam a quarta e ultima camada, chamada summa crusta.

Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que formavam a summa crusta com calçada de pedras cubicas ou polygonaes irregulares.

Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais longe quando eram de má qualidade no terreno das obras.

Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um agger servia de base á calçada. Estes caminhos alteados conservam ainda o seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de reconhecer.

As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito ingremes.


Figura
Figura 27: Torre de Pirelonge

O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás provincias do imperio.

As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores seguiram-lhe o exemplo.

Pyramides.—As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10]

Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio. Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a estatua de Deus.

Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen d'este genero.

Mansão.—Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns funccionarios chamados mancipes, cathegoria pouco mais ou menos egual á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se mutações. Denominavam-se emfim diversoria as casas construidas ao longo das estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

As principaes estradas romanas tinham a classificação de publicas ou militaresconsulares ou pretorianas, e os caminhos menos frequentados designavam-se com os nomes de particularesagrarios ou vicinaes.


Architectura

Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então privados.

Figura

Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o monumento romano de Theséo

Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão, alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos.

Pequeno apparelho.—As paredes de pequeno apparelho, o modo de construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4 pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á dos tijolos.

Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos, ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior.

A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo imbebidas no cimento.

As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui pequenos.

Apparelho reticular.—Os architectos romanos empregavam egualmente a obra articulada, ou alvenaria em forma de malhas, differente do pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e intercalado com o pequeno apparelho.