Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02)
Editor: Eça de Queirós
Ramalho Ortigão
Release date: July 6, 2005 [eBook #16218]
Most recently updated: December 11, 2020
Language: Portuguese
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/16218
Credits: Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
Proofreading Team
RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ
CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
NOVA SERIE TOMO VIII
Janeiro a Fevereiro 1877
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande Universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A actual situação politica. Conceituosa parabola das moscas e das maselas. O partido revolucionario e o partido conservador. A funcção de um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extincção do partido revolucionario por falta de idéas. Mancommunação conservadora. Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A profunda synthese do pipo do Estado.—As inundações. Crise meteorologica. Theoria da chuva. Os irrigamentos e as cheias. As civilisações e os rios. As previsões industriaes e economicas. O regimen das torrentes. A arborisação. Os diques provisorios. As fontes de Palissy. Crise economica. O Estado e o Inundado. Troca de correspondencias. Lisboa durante a crise: os salões, os espectaculos, a imprensa, o parlamento. Intervenção de sua magestade a rainha. A caridade como elemento de administração. Autopsia do anjo. De como este não baixou do ceu. Demonstra-se que saiu da arcada do Terreiro do Paço. A intervenção dos Prelados. As preces para mudar o tempo e os observatorios para o estudar. Os moinhos do Tibet e as cabaças dos Kalmuks. A intervenção da colonia portugueza no Brazil. O brazileiro que parte, e o brazileiro que chega. O patriotismo dos nostalgicos. A commissão de soccorros.—Um banquete militar. O que se passa dentro dos craneos sob a pressão das barretinas.—O centenario da Academia das Sciencias. A tradição academica. A Academia, berço da revolução e da liberdade. Ferreira Gordo, o abbade Correia da Serra, o padre Antonio Pereira, o duque de Lafões, academicos e jacobinos.—O crime do Padre Amaro romance d'Eça de Queiroz.
A situação politica...
Mas, perdão—antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:
Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida. Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel, olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas philosophicas.
Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera. Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo de missangas pretas e palpitantes,—coisa rabujosa á vista.
—Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e moveres a pelle?... Sacode-te, bestiaga!
Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:
—Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,—as famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço impagavel:—livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham! Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?
Revertamos agora, como vinhamos dizendo, á situação politica.
Em toda a sociedade em movimento ha dois unicos partidos: o partido conservador e o partido revolucionario.
A funcção do partido revolucionario, qualquer que seja o seu nome—republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista, positivista, etc.—é transformar a ordem estabelecida, modificando as condições da civilisação no sentido de um mais rapido progresso.
Para este fim o partido revolucionario agita constantemente por meio de idéas novas as opiniões preconcebidas.
Como, porém, não está ainda definido o programma geral e harmonico da revolução, como a tendencia progressiva das multidões indisciplinadas se basea no sentimentalismo esteril ou no phantastico ideal methaphysico dos phraseadores eloquentes, succede que todo o esforço revolucionario representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de anarchia.
A funcção do partido conservador é a manutenção da ordem contra todas as invasões que directa ou indirectamente ameacem a integridade da organisação existente. Em todas as velhas sociedades os governos são por essa rasão, os inimigos natos do progresso. A evolução progressiva da humanidade realisa-se, a despeito d'elles, pela elaboração irresistivel das idéas fora da esphera official, sob a acção das descobertas da sciencia ou das suggestões da arte. O mais que fazem os governos é submetterem-se ás transformações sociaes que a solução de cada novo problema resolvido pela sciencia impõe á existencia dos povos. Os governos, portanto, sempre que uma forte effervescencia intellectual não agita a sociedade e os não abala constantemente na eminencia do seu posto forçando-os a concessões successivas, tendem ao retrocesso.
A civilisação não é na orbita politica senão o justo equilibrio das forças resultantes d'essas duas tendencias: a tendencia retrograda na ordem, a tendencia anarchica na revolução.
Em Portugal o que succede?
A vida intellectual é extremamente debil. A sciencia não tem cultores desinteressados e ardentes, a acção da arte sobre a aspiração dos espiritos é nulla.
O resultado é que os partidos de opposição, não encontrando nos phenomenos da vida nacional a profunda expressão implacavel de novas necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se naturalmente desarmados das grandes rasões que reptam os governos a progredir ou a abdicar.
Em taes condições o partido revolucionario dentro da milicia politica, partido fabricado pelos proprios governos com a corrupção do suffragio,—sendo uma pura convenção, uma fixão constitucional, uma expressão rhetorica, sem raizes na consciencia e na vontade popular,—acabou por desapparecer inteiramente do nosso systema representativo. Ha muitos annos que a revolução não tem quem a represente no parlamento portuguez.
Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma opposição composta de varios grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do unico partido existente—o partido conservador—fragmentos cuja gravitação constitue o organismo do poder legislativo.
Estes partidos, todos conservadores, não tendo principios proprios nem idéas fundamentaes que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente indifferente para a ordem e para o progresso que governe um d'elles ou que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de commum accordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente segundo o lado para que as despesas da rhetorica nos debates ou a força da corrupção na urna fizesse pesar a balança da regia escolha. Tal é o espectaculo recreativo que ha vinte annos nos esta dando a representação nacional.
Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um pipo de vinho. Como nenhum d'elles tem mais direito que os outros a beber do pipo, combina-se que cada um d'elles ponha a bocca ao espicho e beba em quanto os pontapés dos outros o não contundirem até o ponto de o obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida pelos pontapés applicados pela companhia que espera. É exactamente o que ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relação ao usofructo do poder que elles acharam na estrada, perdido.
Chegou finalmente a vez de pôr o pipo á bocca um partido excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações escandalisadas, de almocreves, retroam.
—Este partido abusa!
—Isto não vale!
—Isto não é do jogo!
—Elle esvasia o pipo!
—Larga o pipo, pipa!
—Larga o pipo, pimpão!
—Larga o pipo, ladrão!
E incitam-se uns aos outros até á ferocidade:
—Chega-lhe rijo!
—Mais! que lhe dôa bem!
—Rebenta-me esse ôdre!
—Racha-me esse tunel!
—Ah! cão!
O partido, porém, continua sempre a beber, e é insensivel a tudo: á dor, ao insulto, ao chasco, ao improperio, á graça pesada, á insinuação perfida e á alusão venenosa!
Em vista de uma tal pertinacia, que nós mesmos somos forçados a taxar de irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o pacto da Granja, constituem-se n'um só partido novo,—n'uma só bocca para o pipo. Fazem um programma, redigem um manifesto, vão de terra em terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes occorreu n'esse momento que o pipo tem dono! que é do paiz o pipo!
Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos meetings revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz responde-lhes:
Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas Farpas? Eu sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas—sendo meu destino que ellas sempre me cubram e me comam—prefiro as antigas moscas saciadas ás novas moscas famintas.
Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,—que é para não bolir comigo!
Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugação erea de Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o céu, descem no espaço sobre as nossas cabeças, rolam pelos telhados com os idyllios felinos do mez de janeiro, cáem sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo asphalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em abraços aquosos que lhes atravessam o paletot, o collete de flanella e as articulações dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas pelos resquicios das portas e das janellas, e na sua dança macraba as pardas e humidas filhas do ar cobrem de sofregos beijos molhados e bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o marmore polido das chaminés, os cabellos que se desfrisam e as idéas que se dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do céu, chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobilia, dos castões das bengalas, dos abat-jours dos candieiros, e dos barretes de dormir. Ha dois violentos temporaes com poucos dias de espaço entre um e outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se arvores. Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agricolas, os generos em deposito nos celleiros, os viaductos e os rails das linhas fereas são arrebatados pela corrente das aguas. O curso ordinario dos negocios, o movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos habitantes das regiões inundadas ficam na miseria e têem fome.
Ha por tanto duas crises: uma crise meteorologica e uma crise economica.
Sendo a crise economica um effeito da crise meteorologica,a questão fundamental no estudo d'essas duas crises é a questão da chuva.
Esta questão acha-se definida e tem a sua theoria na sciencia.
Assim como a agua sujeita a uma dada elevação de temperatura se evapora e se converte em ar, assim o ar sujeito a uma proporcional depressão athmospherica se transforma e se converte em agua. Os conhecimentos que já hoje se possuem da physica do globo permittem determinar os differentes tramites do processo seguido pela natureza para obter os resultados achados pela observação humana.
Todo o vento (effeito da rotação da terra) humedecido pela impregnação aquatica do mar, encontrando na sua passagem um estorvo que o dilate na atmosphera, transforma-se em chuva, ou transforma-se em neve, segundo o gráu de arrefecimento, maior ou menor, resultante da altura a que o eleva no espaço o volume do estorvo interposto na sua corrente.
Assim se explica o phenomeno da chuva, a existencia da neve nos pincaros de todas as altas montanhas, e o nascimento dos rios. D'estes, uns, como o Rhodano, o Rheno, o Danubio, são formados pela opposição das cordilheiras á corrente regular de certos ventos; outros, como o Mississipi e o Missouri, nascem do encontro das duas correntes atmosphericas oppostas, uma que sáe do golpho do Mexico, outra que parte dos Estados Unidos na direcção da Europa.
Achando-se determinado que 200 metros de elevação acima do nível do mar dão 3 gráus de frio, é facil calcular, o frio que deve actuar no ar elevado ás alturas dos Alpes, dos Pyreneus, do Caucaso, e de descobrir assim as causas das geleiras, do mesmo modo se descobriu a origem das chuvas e a do nascimento dos rios.
Possuida esta simples e clara noção, o homem adquiriu o poder de intervir no meteoro. Em 14 de novembro de 1854 uma tempestade medonha caíu sobre as esquadras franceza e ingleza, estacionadas no Mar Negro. Todos os navios das duas marinhas tiveram avarias desastrosas. Muitas embarcações de transporte naufragaram. O sr. Leverrier, director do observatorio de Paris, procedeu então a um inquerito sobre as perturbações atmosphericas d'esse dia, dirigindo circulares a todos os meteorographos do mundo. Duzentas e cincoenta respostas de differentes observatorios provaram que a onda atmospherica qua determinara a tempestade fôra presentida pelos observadores, e que a catastrophe teria sido evitada se o telegrapho, que caminha mais depressa do que a corrente do ar, houvesse feito passar de observatorio em observatorio a noticia do phenomeno.
Antigamente faziam-se preces e penitencias para pedir chuva; hoje em dia a chuva não se pede, manda-se-lhe simplesmente que caia, e ella cáe precisamente no ponto que se lhe designa.
Ha poucos annos ainda, no Baixo Egypto, não chovia nunca. Os celleiros eram construidos ao ar livre, a descoberto, sobre os telhados. Desde tempos immemoriaes que o vento secco do norte mantinha esse estado de coisas na referida região. Um dia, porém, a corrente septentrional chega á Alexandria e encontra uma certa difficuldade em passar com a rapidez do costume; detem-se um momento, retarda-se um instante: basta isso para que ella se dilate, para que se eleve no espaço, para que arrefeça na razão da altura a que subiu e para que, por-consequencia, se converta em chuva. D'onde viera esta poderosa resistencia á invasão do vento esteril? De uma revolução geologica na configuração do solo? Do encontro de um vento opposto? Da influencia calorifica da radiação solar? Não. A voz de preso dada ao vento norte, o encarceramento d'elle n'uma certa porção do espaço, a sua condemnação inilludivel a condensar-se e a ser chuva, fôra simplesmente a obra do homem, que vencera o vento plantando a arvore.
As florestas que têem o poder de occasionar as chuvas por meio da sua interferencia na corrente dos ventos, possuem ainda a propriedade de lhes regular os effeitos impedindo os excessivos irrigamentos, e as inundações.
Além de certos processos de cultura e de arborisação nos cabeços dos montes e nas encostas das colinas, ha outros meios de impedir os estragos das cheias,—dando aos rios um regimen torrencial, operando largos cortes transversaes nos declives do solo para regular a descida das aguas, construindo tubos de drenagem, etc.
Quando um dique, como o de Vallada, se rompe por effeito de um repentino augmento no volume da agua no leito de um rio, ha meios praticos, prontos, expeditos, de construir diques provisorios. O sr. Babinet, nos seus estudos ácerca da chuva e do irrigamento da França, lembra para os casos analogos ao de Vallada a construcção de barreiras feitas com grandes caixas de ferro fundido similhantes ás que transportam a agua potavel nas navegações de longo curso. Estas caixas enchem-se com a mesma agua do rio e sobrepõem-se ou enfileiram-se de encontro á corrente até formarem um obstaculo de dimensões adquadas ao volume da agua que se tem por fim represar.
O mesmo sr. Babinet suggere para o meio preventivo da arborisação o sabio alvitre, tão moralisador, de organisar regimentos de plantadores formados de corpos de veteranos, cujas praças encontrariam n'esse trabalho um suave emprego da sua actividade, que o Estado poderia utilisar remunerando-a com liberalidade superior á importancia mesquinha do soldo e proporcional ao serviço prestado por esses cidadãos, até hoje inuteis, á salubridade e á riqueza publica.
Por occasião das ultimas inundações em França, das recentes inundações na Inglaterra, os meios apontados e muitos outros, descobertos pela sciencia no momento do perigo, em frente da catastrophe, têem sido objecto dos mais graves estudos por parte do governo, por parte da imprensa, por parte principalmente das corporações especiaes, dos meteorologistas, dos engenheiros hydrographos, dos de florestas, dos de pontes e calçadas, etc.
Em Portugal deante do facto da inundação espraiada sobre as povoações do Ribatejo, e das margens do Guadiana, a questão principal, a questão summa, a questão technica, é posta completamente de parte, ou nem sequer chega a ser afastada: não concorre no problema, é como se não existisse!
Em face do desastre, dos nossos periodicos, do nosso parlamento, dos nossos proprios estabelecimentos de instrucção, irrompe um só grito enorme, consternado, lacrimoso, impotente, imbecil:—Caridade! Caridade! Caridade!
Parece não se ter unicamente em vista achar um remedio, mas cumprir uma expiação que minore os castigos do Ceu!
Um antigo proloquio egypcio dizia: Chuva em Tebas, desgraça no Egypto. A população portugueza não mostra ter da chuva uma comprehensão menos supersticiosa que a da tradição tebana. Estamos na metaphysica dos cataclismos incommensuraveis.
Debalde a meteorologia—com quanto em estado rudimentar, não constituida ainda em sciencia sobre bases experimentaes e com processos deductivos,—nos annuncia, ainda assim, que não ha nos phenomenos do ar aberrações extraordinarias, inaccessiveis á previsão, mas sim uniformidades periodicas de successão, as quaes o estudo das ondas atmosphericas e da acção magnetica do globo, estudo dirigido harmonicamente em uma cinta de observatorios que cinja ininterrompidamente o globo, chegará por certo a poder um dia regulamentar systematicamente. Definir-se-ha o sentido scientifico do sonho symbolico das vaccas magras e das vaccas gordas, demonstrando-se como aos annos de estiagem e de fome succedem annos compensadores de irrigação e de abundancia.
Debalde a historia nos mostra que foi das inundações dos grandes rios que saiu a iniciação dos grandes progressos humanos; que foi das inundações do Nilo que procedeu a civilisação do Egypto; das inundações do Hoang-Ho que procedeu a civilisação da China; das inundações do Euphrates, que procedeu a civilisação da Caldea, da Babilonia e da Syria. Povos na infancia, desprovidos das lições da experiencia, desarmados dos instrumentos da analyse moderna, souberam fundar a sua vida historica na previsão industrial e na previsão economica das cheias dos seus rios.
Nós, portuguezes, em pleno seculo XIX, na posse dos mais importantes segredos da mechanica, da astronomia, da physica, da chimica, nós, filhos de Kepler, de Galileu, de Newton e de Francklin, nós, contemporaneos de Mayer, de Helmboltz, de Virchow, de Haeckel, de Humboldt, e de Wourtz, de Ampere, de Leverrier, nós, não sabemos tirar das inundações successivas de um rio que vem de annos a annos, periodicamente, contra nossa vontade, fertilisar os nossos campos, nenhuma das lições que a experiencia devia suggerir-nos para regularmos e utilisarmos em nosso proveito a acção violenta d'esse phenomeno!
Ha perto de trezentos annos que um velho naturalista, um modesto oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as fontes artificiaes, fazendo passar as aguas da chuva atravez de um pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento argiloso, terminando n'um muro de supporte que se corta no ponto em que se colloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno entre as raizes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado, venha a correr no verão em bica de agua mineralisada e limpida. Ha trezentos annos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva torrencial é um facto de quasi todos os invernos, onde a falta de agua potavel é um facto de quasi todos os verões, ainda ninguem aprendeu a construir a fonte de Palissy!
Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro abalo de terra se tivesse seguido ás grandes chuvas é natural que muitos outros predios aluissem, porque a grave questão das edificações em Lisboa está absolutamente despresada e abandonada á rotina do velho systema adoptado pelo marquez de Pombal. Ora esse systema, aliás excellente no tempo da reedificação subsequente ao terremoto, é hoje imperfeito e perigoso. A canalisação da agua e as chaminés dos fogões de sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela sabia administração pombalina. Os andaimes de madeira geralmente adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente ao contacto dos canos da agua que envolvem os predios ou se carbonisam por effeito do calor que lhes communicam os tubos das chaminés. A elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, só poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisação, empregando nas construcções modernas o ferro em vez do pau. Esta modificação tão facil, tão economica, tão urgentemente exigida nos novos systemas de edificar, o nosso desleixo nacional não nol-a tem deixado ensaiar. De modo que a mesma previsão do perigo discorrida pelo unico homem que acordou em Portugal por occasião do grande tremor de terra com que á natureza benigna approuve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos annos em mais uma causa de destruição e de aniquilamento!
Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos côrtes transversaes das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das applicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar pelo pequeno espaço de tempo necessario para evitar o perigo, quasi momentaneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas, ninguem se occupa—nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente sentado nos seus fauteuils de orchestre e applica á marcha dos successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!
A crise economica não nos parece ter sido objecto de cuidados mais serios do que aquelles que cercaram a questão hydraulica. Ou é certo ou não é que a inundação do Tejo e os temporaes que concorreram com ella destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras á miseria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos reporters sentimentaes, o diligente esforço humanitario empregado para arrancar da caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação insensata e ridicula. Se são verdadeiras as informações que os jornaes vagamente nos transmittem das desgraças provenientes da inundação do Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questão não se resolve pela caridade particular mas sim pela assistencia publica.
Porque—reflictamos um momento—ou existe esse conjuncto harmonico de instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.
Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a lista civil?
Se o Estado existe, o que é para elle o lnundado? O Inundado é o productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha, pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas: produz e paga.
Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós, republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e mesarios da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por conseguinte, em rigor, tambem não pagamos.
Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores, poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,—nós, francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas—mais ou menos legitimamente—os usufrutuarios, os administradores officiosos ou officiaes do dinheiro dos outros.
Portanto, como acima dissemos, nóa outros, como não produzimos, em rigor tambem não pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar é apenas uma parte que se nos deduz n'aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse vem a pagar é unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o cavallo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.
É elle, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as purpuras dos nossos reis, as toilettes das nossas dançarinas, os penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d'agua dos nossos parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.
Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:
Inundado! Você trabalha como um boi de nora, o que o não impede de ser um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a felicidade material, intellectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e que v. não sabe nem póde constituir sem mim. Você não sabe lêr nem escrever, você não sabe trabalhar, não sabe prevêr, não sabe economisar. Você não nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia rural, nem o banco rural. Você não tem a granja modelo que lhe ensine os novos processos agricolas e lhe empreste as grandes machinas de trabalho. Você não tem arborisação nos seus montes nem canalisação nos seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeiçoamento e de prosperidade, arranjei-lhe eu um systema, que se chama o systema monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo seis ministros e seis correios a cavallo, um parlamento, composto de duas camaras, uma electiva e outra hereditaria. Quer você ou não quer a civilisação? Se a quer, aceite o meu systema e eleja um deputado que vá á minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que você appeteça. Em troca d'este enorme serviço que eu lhe presto ha de você resignar-se a pagar-me um imposto annual, que eu cá mandarei cobrar pelo escrivão de fazenda, e cuja importancia applicarei a regalal-o e a divertil-o summamente com um exercito, uma côrte, um sceptro, varias duzias de repartições publicas, um theatro, um Diario das Camaras, um arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.
O Inundado começou desde então a pagar e o estado começou a dispender. Ha perto de cincoenta annos que dura esta troca de serviços. O Inundado, porém, ainda até hoje não pôde obter nem a escola pratica, nem a bibliotheca, nem a granja, nem os novos instrumentos agricolas, nem as grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisação, nem os trabalhos hydraulicos no rio.
Um bello dia, um temporal rebenta, as aguas das chuvas, sem florestas que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruina, alaga as povoações, invade as casas, e deixa o Inundado entregue á nudez, á desolação e á fome.
O Inundado pede então a alguem que em seu nome exponha ao Estado a situação em que elle se acha:
Excellentissimo Estado e meu amigo.—Ha cincoenta annos que para aqui me acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinámos quando v. ex.'a fez comigo o contracto de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de v. ex.'a me mandar para aqui a civilisação. Até á data d'esta nada recebi.
Os deputados que para ahi tenho expedido á custa de muita intriga, de muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas distribuidas com as listas á bocca da urna, nada remetteram para cá senão discursos cheios de exclamações e de erros de grammatica. Graças aos effeitos de quarenta annos de eloquencia sobre os trabalhos da terra e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as ultimas chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, generos, ferramentas.
Acho-me na derradeira miseria.
Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que já alludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa, entregava-o aqui assim ao morgado, ao capitão-mór, e ao convento. Mas o morgado e o capitão-mór, se por um lado me arrancavam a pelle como v. ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres, padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as brôas e as amendoas pelas festas do anno, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos seus moços e os d'elles proprios ao serviço da nossa causa, quebravam todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros e aos almotacés, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em quando a creação ou davam-nos chicotadas quando estavam bebados, mas em seu juizo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braços abertos para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades resavam,—o que, se não nos fazia bem, tambem nos não fazia mal; e esta é a differença que distingue os frades dos seus successores, os deputados: o frade resava, os deputados intrigam. Além d'isso, os frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e agallegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades, se de ordinario viviam á nossa custa, tambem nas occasiões de crise nos permittiam viver á custa d'elles, e o caldo da portaria era uma restituição.
Quem até hoje não tem restituido a importancia de um vintem nem em dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma especie é v. ex.'a, meu nobre e illustre senhor.
Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas paradas; corpo diplomatico; côrte; gratificações aos doze homens que representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias dos outros; governadores civis e secretarios geraes; desembargadores para Gôa e juizes para os Açores; repartições publicas; arsenaes; imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.
Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequencia de uma desgraça de que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que não serei desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das sommas com que eu ha cincoenta annos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem sequer ao menos me teem convidado
D'este que é
De v. ex.'a
Humilde subdito e servo
O Inundado.
A resposta do Estado a estas argumentações e a estas instancias é de tal modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua authenticidade não fosse reconhecida, como é, de todo o mundo.
O Estado respondeu:
Meu caro Inundado.—A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma situação bem critica para te poder servir, como desejava.
Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a apparição dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para me occupar de ti.
Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commissões de homens e commissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.
Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão, toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciencia, já que não podes revestir-te de pano piloto, e espera.
Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o nosso Forte Gato, e outros.
É tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam já os consoantes para rainha; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres disponiveis e mais proprios do alto estylo do que tainha, morrinha, doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha. Manda tambem para Pia os que poderes obter, menos os que pareça conterem allusões irreverentes como enguia, folia, tosquia, letria, azia, mania e bacia.
Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em arabescos cheios de phantasia e de elegancia: está-se n'um skating rink de beneficencia para te accudir, meu grande maganão.
Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os teus revezes—tão lastimados elles são!—têem feito espigar mazurkas e rebentar polkas ... de pura dôr.
Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos de beneficencia diurna têem-se adoptado geralmente os vestidos de meia caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de beneficencia nocturna as toilettes são sempre de grande-caridade, isto é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda, luvas de dez botões, e diamantes.
É indiscriptivel a animação ferverosa que reina em todos os salões para se tratar de ti. Triplicaram as soirées n'este inverno e dança-se todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.
—Elle geme nas vascas da mais horrorosa agonia!... Chaine anglaise, minha senhora!
—Mas nós havemos de arrancal-o das fauces da miseria ... Sirva-me um gelado!
—Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!... De fructa ou de leite, minha senhora?
—Salvemol-o vivo ou morto!... De leite!
Ás duas horas ceia, volante ou de bufete, serviço quente e frio, menu de Baltresquí.
Um telegramma que chega:—O Inundado está com agua pela cinta.
Um sujeito fugindo com um perú assado:—Vou levar-lhe uma boia!
Uma menina gritando:
—Não! Não! não o devo consentir! não consentirei jámais que o coração generoso d'aquelle que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente por um inundado que só está em perigo—da cinta para baixo! Accudam ao papá! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vae fazer mal: elle já comeu uma!
De rasgos d'estes poderia citar-te centenas.
Restos de velhas edições de livros, de polkas, de almanacks, que o consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos nos archivos de familia dos respectivos autores, acabam de te ser coasagrados e cáem sobre as subscripções abertas para te proteger como bençãos dos genios incomprehendidos e olvidados.
A mesma infancia estudiosa abre nas aulas de instrucção primaria subscripções para te acudir, e meninos, que ainda não conseguiram penetrar no quadro de honra como sufficientemente fortes em leitura, figuram nas resenhas dos jornaes como bemfeitores dos homens.
Não sei realmente, querido Inundado, como poderás agradecer-nos tão reiterados e tão grandes beneficios! Como não sabes fazer mais nada, espero ao menos quo rezes por nós. Compenetra-te bem de quanto nos deves, e não te esqueças nunca, em primeiro logar de nos pagar as decimas, e em segumdo de nos encommendares a Deus em todas as tuas orações de manhã e de tarde para que o Altissimo vele constantemente pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais longos annos, como desejas e has mister.
Não te assustes, por quem és, com esse passageiro incidente da agua pela cinta. Mantem-te em uma attitude serena e firme. As cheias bolindo-se com ellas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo que o tempo enxugue e os terrenos sequem, socega que irei ver-te. Podes desde já preparar a foguetada, o vivorio, e o publico regosijo, para receberes quem é devéras
Teu amo e protector
O Estado.
P. S. O bom amigo Luiz de Campos recommenda-se-te muito e manda perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta á latina com c a, ou á grega com c h a.
Diz-se geralmente—e parece-nos util fixar este boato como um symptoma da epoca—que sua magestade a rainha fôra aconselhada e guiada em todos os tramites da sua intervenção a favor do Inundado por um personagem já hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua magestade vão dar um novo grau de importancia culminante e unica na governação publica. Será perfeitamente legitima essa importancia. Se effectivamente houve um homem sufficientemente sagaz para se conservar na sombra e para suggerir a sua magestade a rainha a idéa profunda de apparecer ella, unica e exclusivamente, a debellar unma catastrophe publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um servigo incomparavel e deu uma prova de pericia e de habilidade que nunca se egualou e que se não póde exceder.
Como se sabe, os partidos conservadores não têem idéas, não podem e não devem tel-as; os que por excepção as produzem commettem um erro fatal e são victimas do seu proprio acto. Em todo o statu quo toda a idéa nova é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regimens conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraça de um monitor em batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo projectil inimigo.
Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os meios que produzam este resultado:—a consolidação do que está.
É de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que nós dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos já porque) são o acto mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais adequado e mais proficuo.
Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da inundação, que succederia? A opposição contraditava-o. Na imprensa e na camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes, controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos, com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo e estibordo não acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!
Que aconteceu, porém, em vez d'isso?
Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os soccorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em grandes letras nos jornaes da manhã, o governo foi para a camara, cruzou os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se manifestasse. Então a opposição em peso, composta dos srs. Barros e Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela bocca dos seus oradores.
O sr. Osorio de Vasconcellos disse:—«Partiu de alto a iniciativa; partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem distincção de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que é geral (apoiados) do soffrimento que é grande; das amarguras que são immensas ... O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da caridade ... Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc., etc.»
O sr. Barros e Cunha:—«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero seja desde já votada por acclamação: A camara prestando a caridosa iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que representa, resolve que este voto seja lançado na acta das suas sessões, e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo do seu reconhecimento.»
O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)—«Trago tambem aqui uma proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porém, que a camara approvou a d'elle, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio. Tenho concluido.»
E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos effeitos da inundação, os unicos tres deputados da opposição que n'este dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade, para citar o Golgotha e para convidar uma grande commissão a ir depôr nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento popular!
A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de gratidão.
Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros, os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes, speechs, mensagens, missivas particulares, desenhos á penna, vivas, bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu n'esta immensa apotheose.
E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais firme que nunca no amor dos novos.
Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo que o paiz podia desejar na sua situação presente.
O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um promotor das conveniencias politicas e não guiada por impulsos expontaneos é o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a intervenção da Corôa e nas quaes se revela a mão burocratica do conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir programmas do que a imitar a graça engenhosa, a poetica delicadeza, o fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os actos nativos de um coração de mulher. N'esses actos, quando legitimos e authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os laboratorios officiaes não imitam senão por meio de falsificações baratas e reles.
Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado esthetico, o lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós, meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas companhias de amadores dramaticos em que só representam homens: tem os pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e miseravel.
Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.
Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si só, teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita educação de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa; far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria á dedicação absoluta de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por cima da arêa encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, até o ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas réclames com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens sentimentaes e sonoras do perfume dos seus cabellos, das pregas dos seus vestidos, da flexibilidade da sua estatura, etc. Houve um folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua magestade—a Magdalena!
Nós protestamos contra similhantes invasões do enthusiasmo nos dominios da dignidade pessoal, e negamos á rhetorica monarchica o direito de lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera deitar fora com as camelias murchas.
Este abuso iniquo e grosseiro fostes vós, conselheiros habeis nos manejos politicos mas imperitos nas questões do gosto,—que os promovestes e auctorisastes.
Vós começastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripção. Quando a miseria é geral, quando as amarguras são immensas, como disse o proprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes publicos não baixa uma só medida para acudir a tanto infortunio, quando todo o remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha, como quereis vós que se acredite que essa rainha, em uma tal conjunctura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnanimos até achar o numero de libras que compense a miseria geral e a amargura immensa? Por que vibrações de piedade, por que processo de sentimento, por que logica de consternação, por que inducção de pezares, quereis vós que o alanceado coração de sua magestade tenha chegado de dor em dor, de lagrima em lagrima, á conta, que só vós podieis ter feito, de duzentas e vinte e duas libras em oiro e dez tostões em prata? Esta conta deploravel é de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, não tendo aprendido pelas necessidades proprias qual é o valor do dinheiro, não sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vós lhe tivesseis dito simplesmente que para acudir a uma catastrophe nacional não havia nem uma só disposição da sciencia ou da lei e que todo o remedio para essa desgraça publica se esperava da influencia regia, a rainha, entregue ao impulso instinctivo do seu coração, não deixaria de contribuir para esse fim de um modo illimitado, sacrificando-se inteiramente e incondicionalmente á fatalidade da fome como teria de se sacrificar á fatalidade da guerra.
Depois não vos occorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se cerceava em soccorros no producto dos espectaculos em beneficio das victimas da inundação. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher occorreria: a prescripção da toilette. Como sois homens publicos e viveis permanentemente na ostentação e no apparato vós não podeis conceber quanto ha de inopportuno, de indelicado, de offensivo do bom gosto no aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de joias como para um certame de luxo. Se fosse effectivamente uma senhora quem tivesse a direcção d'esses actos de phylantropia, as joias teriam sido abolidas, o preço das luvas de baile teria sido applicado á subscripção para os pobres, e nas mãos nuas um annel de ferro mandado fazer pela commissão ornaria toda a pessoa que quizesse acceital-o em troca de um annel de oiro offerecido aos inundados. Em vez dos ramilhetes, de 15 ou 20 libras, offertados aos actores, aos musicos e aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais economico e mais expressivo como seria por exemplo, o offerecimento de uma pequena photographia de sua magestade com uma simples dedicatoria autographa.
Além da commissão de soccorros presidida nominalmente por sua magestade a rainha a unica corporação que em Portugal se occupou do problema das inundações foi a de suas excellencias os srs. bispos.
Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericordia que os rios voltassem aos seus leitos.
Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pôr em harmonia a meteorologia e a religião, crear barometros especiaes dedicados ás nossas circumscripções ecclesiasticas.
Estes barometros, que os srs. parochos collocariam nas sacristias ao lado das folhinhas em que se prescreve a côr das vestimentas, teriam as indicações precisas para constituirem um formulario perpetuo sem o incommodo da intervenção dos srs. bispos por via das suas pastoraes. Bastaria que os aneroides ad usum ecclesiae fossem um pouco mais desenvolvidos na indicação dos resultados da pressão atmospherica sobre os aspectos do tempo. Por exemplo:—78, bom tempo fixo, faça preces a pedir chuva;—74 grande chuva, faça preces a pedir sol;—73 tempestade, saia procissão e faça preces a pedir bom tempo.
N'este caso os observatorios astronomicos e meteorologicos poderão ser substituidos com vantagem pelas cabaças rotatorias dos Kalmuks ou pelos moinhos do Tibet. As cabaças, cheias de orações e agitadas polo vento, produzem a adoração perenne. Os moinhos são uma fabrica mecanica de preces continuas, de moagens devotas.
É preciso que n'este ponto nos decidamos por uma das duas:—pela meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosphericos se determinam nos templos é absolutamente inutil estudal-os nos observatorios. As duas coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeças que pensem ou bem cabaças que rodem. Decidam!
O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro, foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo chegar a Lisboa senão oito dias depois d'aquelle em que partira do Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos—quinze ou vinte—que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estações proximas de Gaya esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abençoal-os, dar-lhes os ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres, indifferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com commentarios facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho, magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe abraçára ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:—«Ó labrego, larga o rapaz!» e accrescentou sentenciosamente este conceito:—«Beijos de homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»
O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não pôde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da estação. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados, perdidos no meio da indifferença, desappareceram. Quando nós, no primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de Coimbra, onde ficaramos, até Santarem, não encontramos nenhum dos nossos pequenos companheiros. É provavel que tivessem continuado a pé, sob a tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza. Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troçados, escarnecidos na sua dôr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de fortuna, eram os embriões da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao deixar a patria.
Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundações era um velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por baixo do chapeu, um lenço de seda e ás costas uma manta couvre-pieds, que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas, com o seu lenço na cabeça, os seus sócos, o seu chapeu de chuva, o aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua prima, mais velha que elle, e de um pão de ló mais volumoso do que os dois primos juntos.
Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias, contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional—a fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte—a imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o, desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações. Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim, invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe fizesse justiça. «Exijo—dizia elle—que me paguem indemnisação na medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida, repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de menos. 1
1 Textual.
Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.
Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, está o portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente patriotismo. Nas suas allucinações de exilado a patria apparece-lhe deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeiçôa em cada dia pelo trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo progresso, e mede pelo esforço d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus escriptores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que elle faz parte, suppõe a patria um grande todo confederado e harmonico com interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados, tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrificios illimitados. E tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a suppõe susceptivel.
Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de libras por cada paquete.
Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as sementeiras começam a crescer, a lembrança da catastrophe principia a dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar. Dentro de pouco tempo a commissão portugueza de soccorros aos inundados não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.
As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitorias e tão rapidas como as proprias inundações. Desde que a inundação cessa, o trabalho restabelece-se nas suas condições normaes. Os estragos causados pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o dinheiro accumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque não tem a opportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a opportunidade do modo como.
É por estas rasões que suppomos fazer um serviço á commissão de soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de honra aos portuguezes residentes no Brasil—1.° indemnisando os emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de janeiro pelos prejuizos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em Felgueiras uma policia rural que empeça a população indigena de destruir as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da indisciplina dos homens.
Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalicão, com um pequeno riacho obscuro que ali passa.
Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos, todos os grandes proprietarios da região em que passava o ribeiro pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. N'este sentido ferveram os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos, todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia das idéas, a direcção dos principios, os planos das estradas e os projectos das pontes.
A obra fez-se finalmente sob a acção d'essas influencias e, como é costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e pelos caminhos, passou por toda a parte, sómente não passou—por baixo da ponte!
Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um symbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos os philosophos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem do legitimo espirito da politica e da administração na presente phase da civilisação portugueza.
Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignára de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda, offerecendo-lhes em Palacio um banquete composto das iguarias mais finas e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chouriço, carne guisada com batatas e laranjas.
No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da victoria, nas quaes, a um gesto da regia munificencia o doutor roxo se repartira e prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos dithyrambos, ás canções bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto tão anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jámais deixa de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta arte: